Cinesíforo*

Por Heraldo Campos (*)

Outro dia lembrei do Irmão Leonardo (Antonio Tagliaro), marista, físico, professor de matemática e geometria descritiva. Ele era um grande personagem, dos anos 60/70, do tradicional Colégio Nossa Senhora do Carmo, que fechou suas portas em 1971 na capital de São Paulo.

Na época do terceiro ano do colegial o Irmão Leonardo costumava levar aos sábados, para uma palestra para as turmas da medicina e da engenharia (o científico era dividido nessas duas modalidades), um ex-aluno marista que poderia ser um dentista, um médico, um engenheiro, ou outro profissional que tinha estudado na escola.

Essa era uma boa formula para estimular mentes e corações daqueles alunos que ao final do ano de 1971 e início de 1972, iriam prestar o vestibular pela primeira vez na escolha de uma profissão.

O Irmão Leonardo tinha essa percepção e já vinha fazendo isso há alguns anos, ao mesmo tempo em que aplicava testes nas aulas de matemática, de desenho e de física para ir treinando os alunos para o vestibular. Muitos desses testes de vestibulares anteriores constavam do livro de física de sua autoria, cuja capa lembra uma cena de filme do Flash Gordon. Muito legal. Até hoje.” [1]

Não sei por que cargas d’água, naquela época, o Irmão Leonardo vira e mexe usava a palavra cinesíforo em aula. Pode ser que estava citando essa enigmática palavra para explicar algum tipo de movimento na física ou coisa parecida. Nas edições mais antigas dos bons e velhos dicionários “Aurélio” e “Houaiss”, no formato livro em papel, cinesíforo não aparece nos verbetes.

Porém, pesquisando na internet, cinesíforo seria aquele que “produz o movimento” e tem uma curiosa crônica escrita em 1992 por Otto Lara Resende intitulada “Palavras inventadas” em que essa palavra é citada no texto, como no trecho: “Hoje, chauffeur virou chofer. Todo mundo já esqueceu que vem de chauffer, esquentar. E também se diz motorista, brasileirismo que se deve a Medeiros e Albuquerque. Mas o prof. Castro Lopes deu tratos à bola e criou a palavra cinesíforo, a partir do grego. Não pegou, mas ficou no ar, envolvido na aura de pilhéria que até hoje cerca o nome do seu criador. Melhor sorte teve com outros neologismos também saídos da caturrice de seu bestunto. Menu por exemplo virou cardápio.” [2]

Por outro lado, ao contrário, ocorreu quando o geólogo e geógrafo uruguaio Danilo Antón batizou de “Aqüífero Guarani”, o mega-reservatório de água subterrânea existente no CONE SUL, e que “colou” praticamente logo de cara, quando a denominação foi lançada nos anos 90 para a comunidade científica, num primeiro momento.

Esse aquífero, que supre parte da água para a população de quatro países como Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai tem reconhecida, internacionalmente, sua importância fundamental e estratégica para as atuais e as próximas gerações.

“Os mananciais de águas subterrâneas têm importância essencial para a sobrevivência humana, pois constituem cerca de 95% da água doce disponível no planeta. Apenas 5% provêm de rios, lagos e represas. O Aqüífero Guarani, batizado com esse nome em homenagem à população indígena que habitava a Bacia Platina à época do descobrimento da América, é um dos maiores reservatórios de águas subterrâneas do mundo – com 50 mil km 3 de água doce armazenada.” [3]

E antes de encerrar, cabe aqui o registro desse trecho da canção da Zizi Possi “Per amore”, que fica como uma modesta lembrança ao Lemos (Antonio Carlos Primo Nalesso Lemos), geólogo, colega de trabalho, amigo, que resolveu deixar essa “longa estrada da vida” cedo demais: “Eu conheço o seu caminho, cada passo que você dará (Io conosco la tua strada, ogni passo che farai) / Suas ansiedades fechadas e as pedras vazias que você afastará (Le tue ansie chiuse e i vuoti sassi che allontanerai) / Sem nunca pensar que, como uma pedra, volto para você (Senza mai pensare che, come roccia, io ritorno in te)” [4]. O Lemos era um produtor de movimento, um condutor de boas ideias.

“O perigo de meditar é o de, sem querer, começar a pensar e pensar já não é meditar, pensar guia para um objetivo.” (Clarice Lispector).

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Fontes
[1] “O segredo de Leonardo”.
http://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2020/03/o-segredo-de-leonardo-cronica-de.html
[2] “Palavras inventadas”.
https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/6778/palavras-inventadas
[3] “Aqüífero Guarani já está mapeado”.
https://sbpcacervodigital.org.br/bitstream/20.500.11832/8370/1/BR_SPCMAIHSBPC_PUB
LIC_JC_JC_448.pdf
[4] Canção “Per amore”, do álbum do mesmo nome de 1997, composta por Mariella Nava.

*Heraldo Campos é geólogo (Instituto de Geociências e Ciências Exatas da Unesp, 1976), mestre em Geologia Geral e de Aplicação e doutor em Ciências (Instituto de Geociências da USP, 1987 e 1993) e pós-doutor em hidrogeologia (Universidad Politécnica de Cataluña e Escola de Engenharia de São Carlos da USP, 2000 e 2010).

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