Erro primário gerou imbróglio

POR GERSON NOGUEIRA

A polêmica suspensão do Campeonato Estadual, por um ato monocrático do presidente do STJD, Otávio Noronha, permite algumas reflexões sobre a realidade do futebol no Pará. De cara, a constatação da baixa influência política junto aos órgãos decisórios e administrativos que controlam o esporte no país. É inimaginável que a principal corte desportiva nacional tomasse a atitude que tomou caso o envolvido fosse um Estado mais poderoso no cenário futebolístico, principalmente do eixo Sul-Sudeste.

Não se trata de sentimento vira-lata, é constatação de uma realidade que se impõe em situações como a atual. Um erro grave, ocorrido no Parazão 2021, com a negligência da Federação Paraense de Futebol em detectar a condenação de atletas (julgados à revelia), foi ignorado na edição passada e veio estourar nesta temporada, com consequências desastrosas para todos.

O ponto pacífico da história é que a bagunça foi toda gestada aqui, mas as deliberações recentes incluem uma confrontação entre o TJD e o STJD, aparentemente o motivo determinante da fúria punitiva de Noronha nas duas comunicações enviadas (a decisão e a resposta a um apelo da FPF) na sexta-feira, véspera da abertura oficial do campeonato.

É legítimo questionar o motivo de uma decisão surgida no final do expediente semanal e em dia de feriado no Rio de Janeiro. O bom senso diz que era possível antecipar a decisão para o começo da semana, evitando o pandemônio gerado pela notícia de última hora. Quem comete erros primários, como a FPF em 2021, tem pouco a argumentar, mas não se pode ignorar que o tribunal superior agiu de forma draconiana e inédita.

Ontem, o TJD encaminhou uma Ação de Revisão ao acórdão do caso Paragominas, o que pode vir a acelerar o julgamento no STJD. O documento declara ‍‍”nulo o julgamento da 2ª Comissão Disciplinar do TJD, no processo nº 031/2021, somente em relação aos atletas Hatos Athirso da Silva Vida e Gustavo Sales da Costa, devendo aos autos retornar à instância ‘a quo’ para, após o regular ato citatório, ser proferido novo julgamento de mérito”.

Com isso, a decisão anterior é anulada, abrindo uma perspectiva de resolução rápida para o imbróglio – desde que o STJD julgue o caso na quinta-feira. A comunidade do futebol e as torcidas, principalmente, esperam que a confusão se resolva logo. Até para ficarmos livres da tortura gerada pelo juridiquês, presente em todas as discussões desde a sexta-feira.

Base pode ser alternativa para a falta de qualidade

As exibições chochas da dupla Re-Pa nos amistosos preparatórios são encaradas como normais a essa altura da temporada, mas o fato é que as soluções encontradas pelos técnicos não convenceram o torcedor. É visível a falta de brilho individual e de organização coletiva nos dois principais candidatos ao título estadual.

Mesmo o Remo, que teve mais tempo de preparação, sofre com a repetição de erros básicos na tentativa de sair da defesa para o ataque. Com Uchoa em campo, essas falhas diminuem, mas não em nível suficiente para permitir ao time apresentações convincentes.

A parte criativa é o ponto que mais preocupa o torcedor. O Remo produz poucas jogadas de ataque. Vive das manobras de Muriqui e Diego Tavares, mas nem isso garantiu vitórias contra Caeté e Bragantino, dois times que estarão na disputa do Parazão.

Diante desse desafio, é natural que se comece a questionar a qualidade geral do elenco. Em certos casos, quando um time não engrena, a solução pode vir da prata da casa. O Remo sub-20 acaba de fazer boa figura na Copa São Paulo de Juniores.

Renan Robi, Guti, Jonilson, Davi e o goleiro Ruan apareceram muito bem. Um desses jogadores poderia merecer uma oportunidade neste momento, ainda propício para experiências. O aproveitamento de jogadores mais rápidos, dispostos e estimulados pela chance no grupo profissional pode trazer o sopro de qualidade que o time titular até agora não mostrou.

Não significa que os jogadores mais experientes são descartáveis, mas a utilização dos garotos – um ou dois – valeria pelo menos como tentativa de quebrar o marasmo técnico da equipe.

Amazônia se solidariza com o povo Yanomami

A diretoria do Amazônia Independente emitiu nota ontem em solidariedade à nação indígena Yanomamis ante a tragédia descoberta após o fim do desgoverno de Jair Bolsonaro. Um autêntico holocausto brasileiro, com pelo menos 570 crianças vítimas de desnutrição, malária, covid e outras doenças. Um posicionamento absolutamente coerente com os princípios que nortearam a fundação do clube pelo ex-técnico Walter Lima:

“O Amazônia Independente se solidariza com os povos Yanomamis e se coloca ao lado deles na luta pela proteção de suas terras e modo de vida. Sabemos que os Yanomamis são uma das comunidades indígenas mais isoladas e vulneráveis do Brasil e enfrentam constantes ameaças devido à invasão de suas terras, à exploração de seus recursos naturais e à exposição à doenças.

Nós, como movimento pela independência da Amazônia, acreditamos que é fundamental garantir que esses povos indígenas sejam respeitados e protegidos, e que possam preservar sua cultura e modo de vida. Por isso, nos comprometemos a trabalhar em conjunto com os índios Yanomamis e outras comunidades indígenas na luta pela justiça e dignidade.

Lutaremos pela proteção e devolução de suas terras, e pela garantia de acesso à saúde, educação e outros serviços básicos. Juntos, poderemos construir uma Amazônia verdadeiramente livre e justa para todos os seus povos”.

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 24)

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