Futebol do fim do mundo

POR GERSON NOGUEIRA

A vocação para o desastre se estabelece de novo na história do futebol paraense. O Campeonato Estadual, que começaria neste fim de semana, foi simplesmente suspenso através de uma canetada do presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Otávio Noronha. Pelos termos do texto no qual acatou o recurso de Paragominas, Castanhal e Itupiranga, fica óbvio que parecia bastante irritado com o procedimento do TJD paraense no caso. 

O tapetão triunfou outra vez, como sempre, semeando prejuízo e insegurança jurídica. A liminar assinada por Noronha não apenas interrompeu os preparativos para o Parazão 2023. Tem o condão de expor a realidade que ronda o futebol estadual, cada vez mais desprestigiado e refém de manobras tribunalescas. Bastou um clube, o Paragominas, se sentir prejudicado pela escalação de atletas supostamente irregulares em 2021 para que a Justiça Desportiva entrasse em cena.

A paralisação deve se estender por duas semanas, pelos cálculos mais otimistas, semeando prejuízos para todos os lados e deixando no torcedor a pior das impressões. A decisão indica a obrigatoriedade do Pleno do STJD julgar o caso. O tribunal estadual está em recesso, voltando a funcionar a partir de segunda-feira. É possível que o julgamento ocorra na próxima quinta-feira, mas há o risco de novo recurso ao STJD, caso os clubes se sintam prejudicados pela decisão.

O que chamou atenção foi a maneira abrupta e surpreendente, absolutamente sem cerimônia, com que o STJD agiu. Poderia ter decidido pela suspensão há duas semanas, sem que o campeonato tivesse que alterar datas e procedimentos. Ao contrário, optou pela medida drástica, anunciada na véspera da abertura do Parazão – o jogo Remo x Independente seria disputado no sábado à tarde, no Baenão.

É importante observar que a atual diretoria da FPF agiu corretamente ao tocar a execução do campeonato. Sabia do ajuizamento das medidas citadas na decisão de Noronha, mas não era parte do processo. Foi pega de surpresa como todos os demais envolvidos com a competição – times, patrocinadores e governo do Estado, patrocinador do torneio.

Os prejuízos decorrentes da paralisação chegam a R$ 150 mil, apenas com a logística dos clubes, muitos já em deslocamento para cumprir a tabela da primeira rodada. Na mensagem em que explicou seu posicionamento, a FPF informa que acata a decisão, mas pretende defender de todas as formas a competição e os resultados de campo. Este, aliás, é um dos pontos cruciais desse imbróglio. O Paragominas questiona a escalação de jogadores, mas postergou a reclamação, esperando para ver como se definiria o campeonato de 2022.

Como acabou rebaixado, por baixo desempenho em campo, o PFC sacou da gaveta as informações relacionadas a jogadores e partiu para o tapetão, esta instituição sempre à disposição de quem não resolve seus problemas dentro das competições. Há muito tempo que as batalhas de tribunal se intrometem num esporte que deveria primar pelo respeito aos resultados definidos pela qualidade e competitividade dos times.

A medida judicial é duplamente antipática porque pode vir a premiar um time que não teve competência técnica para se manter na primeira divisão estadual. Caberá agora ao STJD analisar e julgar o caso, de forma célere, até para afastar os riscos de uma medida de força. Na resposta ao pedido de reconsideração encaminhado pela FPF, Otávio Noronha usa expressões fortes ao se referir ao tribunal paraense, deixando nas entrelinhas a possibilidade de uma intervenção. Seria o cúmulo da bizarrice. Imagine-se um cenário de punição operado justamente pelo STJD, de tantas decisões equivocadas e de ações protelatórias das mais escancaradas ao longo da história.

E, em meio a tudo isso, que ninguém esqueça do torcedor, alheio às escaramuças e interessado apenas em torcer por seus times de coração. No fim das contas, é o fã de futebol que mantém acesa a chama da rivalidade e do interesse pelo, enquanto tantos outros atores se esforçam em sabotar.

Bola na Torre

O programa vai ao ar às 22h30 deste domingo, na RBATV, com Guilherme Guerreiro na apresentação e participações de Valmir Rodrigues e deste escriba baionense. Em pauta, a polêmica envolvendo a suspensão do Parazão e os amistosos da dupla Re-Pa. A edição é de Lourdes Cezar.

Leão e Papão aproveitam folga para testar formações

Enquanto a notícia da suspensão do Parazão ainda repercutia nas rádios e na internet, as diretorias de Remo e PSC já se movimentavam para não desperdiçar o fim de semana. Dois amistosos foram confirmados ainda na tarde de sexta-feira.

O Leão acertou com o Bragantino para o mesmo horário em que iria estrear no campeonato, sábado, às 17h, no estádio Evandro Almeida. Já o Papão fechou a realização de amistoso com o São Francisco, às 10h deste domingo, no estádio da Curuzu.

Duas decisões acertadas, pois permitiram aos times da capital continuar em preparação para a disputa do campeonato estadual. O PSC, que começou a fase de treinos por último, tem todas as razões para colocar o time em ação na manhã deste domingo.

A busca de entrosamento é a principal preocupação a essa altura. Jogar contra times que irão disputar também o Parazão representa um teste de verdade. A equipe de Márcio Fernandes só se exercitou uma vez, em Barcarena, contra um selecionado local, formado por atletas amadores.

Encarar o São Francisco acrescenta dificuldades que irão colocar à prova o nível do elenco alviceleste, fato valorizado pela presença do torcedor. Márcio terá a chance de testar jogadores e variações táticas para colocar em prática quando o campeonato começar de verdade. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 22)

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