A frase do dia

“O Mourão ainda quer dar ‘lição de moral’ em Lula por causa da troca no comando das FA?Ele era o coordenador do Conselho Nacional da Amazônia e deixou o desmatamento e o garimpo ilegal tomarem conta! O que aconteceu com os Yanomami também está na conta do ex-vice presidente!”.

Sérgio Antunes, professor de Biologia e Ciências

Ministro da Justiça determina inquérito para apurar genocídio e crimes ambientais na região Yanomami

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, vai determinar abertura de inquérito policial para apurar o crime de genocídio e crimes ambientais na região do povo Yanomami, em Roraima. O ministro está no estado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Polícia Federal ficará responsável, a partir de segunda-feira (23), pela investigação determinada pelo MJSP, para apurar as responsabilidades e punir os culpados. “O presidente Lula determinou que as leis sejam cumpridas em todo o país. E vamos fazer isso em relação aos sofrimentos criminosos impostos aos Yanomami. Há fortes indícios de crime de genocídio, que será apurado pela PF”, destaca o ministro.

Sofrimento
O Ministério dos Povos Indígenas divulgou que 99 crianças do povo Yanomami morreram devido ao avanço do garimpo ilegal na região. Os dados são referentes a 2022, e as vítimas foram crianças entre um a 4 anos. As causas da morte são, na maioria, por desnutrição, pneumonia e diarreia.

A pasta estima que ao menos 570 crianças foram mortas pela contaminação por mercúrio, desnutrição e fome. Além disso, em 2022 foram confirmados 11.530 casos de malária no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami, distribuídos entre 37 Polos Base. As faixas etárias mais afetadas estão entre os maiores de 50 anos, seguidas pela faixas de 18 a 49 anos e de 5 a 11 anos.

“Recebemos informações sobre a absurda situação de desnutrição de crianças Yanomami em Roraima. Amanhã viajarei ao estado para oferecer o suporte do governo federal e, junto com nossos ministros, atuaremos pela garantia da vida de crianças Yanomami”, disse o presidente Lula no Twitter. As ministras dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e da Saúde, Nísia Trindade, também estão no estado acompanhando os trabalhos.

Genocídio Yanomami: Bolsonaro ignorou 21 ofícios com pedidos de ajuda

Funai, Exército, Polícia Federal e Ministério Público Federal receberam dezenas de relatos de ataques de garimpeiros e pedidos de reforço na segurança.

Por Carol Castro – The Intercept

MUITOS MAQUINÁRIOS, eles têm internet, muitas lanchonetes, combustível, e muitas armas de fogo”. Era novembro de 2020, e as lideranças Yanomami já denunciavam a invasão em massa dos garimpeiros em suas terras, no noroeste de Roraima. Preocupados, pediam apoio à Hutukara Associação Yanomami para enviar ofícios de alerta ao Ministério Público Federal, à Funai e ao Exército. Os documentos, obtidos pelo Intercept, mostram uma sequência aterrorizante de ataques e pedidos de ajuda – quase todos sucedidos por novos ataques e mais denúncias de avanço do garimpo. 

A Hutukara, entidade criada pelos próprios indígenas para fortalecê-los, enviou 21 ofícios aos órgãos públicos, ao longo de dois anos, sobre os “conflitos sangrentos que no limite podem atingir a proporcção de genocídio” dos Yanomami. Ela publicou ainda três notas públicas sobre um ataque contra uma Estação Ecológica do ICMBio, a morte de duas crianças por uma draga de garimpo, e a situação da aldeia de Aracaçá. 

Os relatos vêm de muito antes da comoção nas redes sociais com a denúncia do suposto estupro de uma adolescente, do assassinato de uma criança e do sumiço dos moradores da comunidade de Aracaçá. Segundo a associação, o garimpo ilegal cresceu 46% em 2021, atingindo mais de 3 mil hectares de terras indígenas. A estimativa é que 20 mil garimpeiros ilegais ocupem atualmente esses territórios.

Nesses documentos, as lideranças comentam as atrocidades que enfrentam quase diariamente. Garimpeiros passam pelos rios ameaçando e atirando contra os Yanomami. Duas crianças morreram puxadas por uma draga da mineração. Povos isolados foram atacados por garimpeiros. Postos de saúde fecharam, por conta dos intensos conflitos, e as pistas de pouso viraram área de transporte de ouro e garimpeiros ilegais. Sem os médicos e com a proximidade dos garimpeiros, a malária cresceu entre os Yanomami.

Jovens indígenas caem no conto dos invasores e, em troca de ouro, comida, armas, bebida ou drogas, cedem espaço em suas terras para abrir novos acampamentos de mineração. Segundo relatos divulgados no relatório “Yanomami sob ataque”, alguns indígenas abandonaram seus cultivos para trabalhar com os garimpeiros. Só que aí, passam a ter que comprar alimentos nas cantinas, onde um quilo de arroz custa R$ 400 ou uma grama de ouro. Ou pagam uma fortuna ou, no caso das mulheres, são estupradas em troca de comida.

Todas as atrocidades que ganharam a mídia nos últimos meses  estão fartamente documentadas nos ofícios enviados aos órgãos oficiais. Chama a atenção a frequência com a qual os indígenas pedem ajuda – em muitos casos, sequer são atendidos. Os pedidos são sucedidos pelo pior. 

Em 12 de maio de 2021, os indígenas enviaram um ofício urgente à 1ª Brigada de Infantaria da Selva do Exército. Depois de ataques no mês anterior, eles pediam “apoio logístico e instalação de posto emergencial na comunidade de Palimiu para manutenção da segurança na região”.

Pouco mais de um mês depois, em 14 de junho, um ofício foi enviado com urgência para a Funai, o Exército e a Polícia Federal relatando um ataque armado. “Um grupo de garimpeiros distribuídos em três barcos atracaram na comunidade e iniciaram um tiroteio”, diz o documento. Era o quinto ataque em um mês, alertaram os indígenas, que também afirmaram estar sem equipe médica. No mesmo dia, o Ministério da Justiça autorizou o uso da Força Nacional na região. Não adiantou.

Quatro dias depois, outro ofício relatou que crianças e jovens foram atacados por garimpeiros armados enquanto pescavam. “Os garimpeiros aceleraram contra os Yanomami e bateram com o barco na canoa deles, fazendo com que os indígenas caíssem na água e a canoa afundasse. Os jovens e crianças conseguiram fugir pelo rio e pela mata”, eles narraram.

No mês seguinte, julho de 2021, os Yanomami enviaram mais um ofício pedindo reforço na segurança. Segundo eles, os quatro agentes designados pelo governo para atuar na área haviam voltado para Boa Vista. Na comunicação com a Funai, Polícia Federal, MPF e Exército, o líder Dario Yanomami conta que um grupo de mulheres e crianças havia sido atacado a tiros. 

A MAIOR RESERVA INDÍGENA DO PAÍS

Mais 9 mil hectares abrangem a Terra Indígena dos Yanomami. E brilha aos olhos dos garimpeiros a extração de ouro e a cassiterita, usada para fazer estanho. Ainda que a legislação proíba a mineração em terras indígenas, o presidente Jair Bolsonaro sempre deixou evidente o desejo de liberar a mineração em áreas de preservação.

Em novembro de 2020, enquanto os indígenas denunciavam a invasão dos garimpeiros, Bolsonaro questionava as demarcações. “A reserva Yanomami tem mais ou menos 10 mil índios. O tamanho é duas vezes o estado do Rio de Janeiro. Justifica isso? Lá é uma das terras com o subsolo mais rico do mundo. Ninguém vai demarcar terra com subsolo pobre. Agora o que o mundo vê na Amazônia, floresta? Está de olho no que está debaixo da terra”, afirmou naquela época.

Como não poderia ser diferente, o presidente colocou à frente da Funai um personagem semelhante: Marcelo Xavier. Após a repercussão dos conflitos entre Yanomami e garimpeiros, Xavier defendeu a legalização da mineração como solução para os problemas. E afirmou que “os garimpeiros são tão vítimas quanto os Yanomami“. 

Não parece à toa que os pedidos emergenciais da Hutukara para instalação de postos avançados do Exército e apoio logístico para manutenção da segurança local tenham sido ignorados pelo governo. A Polícia Federal realizou duas grandes operações nos últimos dois anos na Terra Indígena Yanomami – as operações Yanomami e a Haraquiri. Nessa última, o foco era a destruição de pistas de pouso. No entanto, em março deste ano, a associação voltou a denunciar que outra pista – a do Homoxi –, antes usada para atendimento à saúde dos indígenas, estava sob controle dos garimpeiros. Uma terceira incursão aconteceu em julho, quando agentes da Polícia Federal, Ibama e Força Nacional destruíram maquinários usados para extração do ouro. Pouco adiantou. Os garimpeiros voltaram assim que eles foram embora.

O destino dos indígenas do Aracaçá segue desconhecido – e talvez seja melhor assim, pela segurança da comunidade. Mas a polícia afirmou, durante coletiva de imprensa, que as histórias do estupro da adolescente e morte da criança não se confirmaram. A suspeita dos ambientalistas é que os indígenas se calaram por medo de retaliações – outro ato comum dos garimpeiros contra os indígenas quando perdem com as denúncias e incursões policiais, como apontam os documentos.

Apple, Google, Microsoft e Amazon usaram ouro ilegal de terras indígenas brasileiras

Revelamos como o ouro ilegal sai da Amazônia e termina no seu celular ou computador. As 4 empresas mais valiosas do mundo foram o destino final do produto de duas refinadoras, a italiana Chimet e a brasileira Marsam, que têm produção contaminada por metal extraído de garimpos clandestinos

Por Daniel Camargos*, de Redenção e Tucumã (PA)

Você não sabe disso, mas ao ler esta reportagem você pode estar usando ouro extraído ilegalmente de terras indígenas brasileiras. Celulares e computadores das marcas Apple e Microsoft, bem como os superservidores do Google e da Amazon, têm filamentos de ouro em sua composição. Parte desse metal saiu de garimpos ilegais na Amazônia, passou pela mão de atravessadores e organizações até chegar nos dispositivos das quatro empresas mais valiosas do mundo, revela uma investigação da Repórter Brasil.  

Documentos obtidos pela reportagem confirmam que essas gigantes da tecnologia compraram, em 2020 e 2021, o metal de diversas refinadoras, entre elas a italiana Chimet, investigada pela Polícia Federal por ser destino do minério extraído de garimpos clandestinos da Terra Indígena Kayapó, e a brasileira Marsam, cuja fornecedora é acusada pelo Ministério Público Federal de provocar danos ambientais por conta da aquisição de ouro ilegal. A extração mineral em terras indígenas brasileiras é inconstitucional, apesar dos esforços do governo Jair Bolsonaro (PL) para legalizá-la.   

Em meio à maior floresta tropical do mundo, o rastro de destruição dessa exploração clandestina é crescente e imensurável. Enquanto o desmatamento e a contaminação dos rios são visíveis, o garimpo pode estar matando pessoas por mercúrio (um metal tóxico) e vem atraindo o crime organizado. Ataques armados de garimpeiros a indígenas têm sido revelados pela imprensa nos últimos anos, como o que aconteceu em maio de 2021 em uma comunidade Yanomami

Apesar de os órgãos investigadores brasileiros terem provas de que Chimet e Marsam compraram, de maneira indireta, ouro extraído ilegalmente de alguns desses territórios demarcados, as duas refinadoras são certificadas e consideradas “aptas” a vender nos Estados Unidos e na Europa – regiões que exigem maior transparência dos fornecedores de minérios, além de critérios mais rígidos no combate à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e ao abuso dos direitos humanos. 

Repórter Brasil teve acesso aos documentos que Apple, Google, Microsoft e Amazon são legalmente obrigadas a enviar à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (Securities and Exchange Commission, ou SEC, na sigla em inglês) com a lista de seus fornecedores, não apenas de ouro, mas também de estanho, tungstênio e tântalo. Entre centenas de refinadoras, constam nas relações a brasileira e a italiana. Os documentos referem-se às aquisições feitas em 2020 e 2021, mas relatórios anteriores a estes também apresentavam as duas refinadoras como fornecedoras.

Empresas listadas na Bolsa de Valores estadunidense devem informar anualmente se usam em suas cadeias produtivas os chamados “minérios de conflitos” (ou minérios oriundos de áreas de risco), exigência criada por uma lei aprovada em 2010 por conta da guerra civil da República Democrática do Congo, onde a exploração mineral ainda financia grupos armados (leia mais sobre o assunto aqui). E o uso do metal vai além das joias e das barras compradas por grandes bancos: produtos eletrônicos responderam por 37% do ouro usado nos Estados Unidos em 2019, de acordo com o Sumário de Comidities Minerais elaborado pelo Serviço Geológico dos EUA

As certificadoras da Chimet e da Marsam são, respectivamente, a LBMA (The London Bullion Market Association) e a RMI (Responsible Minerals Initiative), organizações que têm como objetivo garantir maior transparência para o setor minerário, “buscar engajamento corporativo sustentável” e realizar auditorias para combater violaçãoes de direitos humanos, lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, segundo o site das próprias organizações.

Um dos problemas é que, apesar dos episódios de violência provocados pelo garimpo ilegal na Amazônia, essas organizações não consideram o Brasil uma “área de risco”. Enquanto as quatro principais empresas de tecnologia lucraram, juntas, US$ 74 bilhões somente no quarto trimestre de 2021 (quase duas vezes o PIB anual de Camarões), elas parecem não se preocupar com a real origem do ouro que utilizam – nem com os conflitos que ele pode estar alimentando em território brasileiro. 

“Tanto a SEC quanto as empresas americanas fecham os olhos para a origem do ouro que chega no país”, lamenta Payal Sampat, diretora do programa de mineração da Earthworks, organização com sede em Washington D.C. que trabalha com os impactos da atividade. A especialista também critica o trabalho da RMI: “não são confiáveis”. 

O caso da certificadora cujo nome em português seria “iniciativa dos minerais responsáveis”, a RMI, merece atenção. Ela realiza auditorias de modo a fornecer “informações [das refinadoras] para que as empresas possam tomar decisões de abastecimento mais embasadas”. No entanto, “não certifica ou promove refinarias como ‘confiáveis ​​e sustentáveis’, conforme a entidade esclareceu em nota. A organização tem, como associadas, 400 empresas mundialmente famosas de diversos setores: tecnologia, aviação, indústria automobilística e até empresas de entretenimento. Todas potenciais compradoras da Chimet e da Marsam. 

“O Brasil não dispõe de mecanismos confiáveis de rastreabilidade do ouro, por isso há um risco grande de se certificar metal contaminado por violações de direitos humanos em terras indígenas da Amazônia”, afirma Rodrigo Oliveira, assessor jurídico do ISA (Instituto Socioambiental), destacando um estudo que mostrou que 28% do ouro extraído no Brasil tem origem comprovadamente ilegal. “Neste cenário, o papel da SEC é fundamental, uma vez que sociedade e investidores confiam na transparência e veracidade das informações por ela publicadas”. 

Procurado pela Repórter Brasil, o governo estadunidense, por meio da SEC, disse que não vai se pronunciar. 

A RMI afirmou que entrou em contato com a refinadora brasileira pedindo ações corretivas  relacionadas ao escopo da auditoria. “Esse processo incluiu a revisão das reclamações como parte da última auditoria da Marsam, um plano de ação corretiva para abordar quaisquer lacunas identificadas e monitoramento futuro”, disse em nota. “Se a Marsam não fechar o plano de ação corretiva com sucesso dentro do prazo estipulado, conforme verificado por um avaliador terceirizado, ela será removida da lista de conformidade da RMI”, afirmou. A certificadora alegou contratos de confidencialidade para não dar mais informações sobre quais seriam essas ações corretivas e nem os prazos estipulados. Leia aqui as respostas na íntegra.

A certificadora inglesa LBMA disse que está ciente das investigações da Polícia Federal, que entrou em contato com a Chimet e que está revisando a auditoria da refinadora italiana. Porém, antecipou que os auditores não encontraram falhas nas práticas de fornecimento da empresa ou na maneira como ela respondeu às alegações contra seus fornecedores. “O LBMA acredita que essa resposta é consistente”. A LBMA também entende que a Chimet cooperou com a investigação policial e que não enfrenta acusações relacionadas a esse assunto. 

O maior alvo dos policiais federais foram os fornecedores da Chimet, os donos da empresa CHM do Brasil. Trata-se de Giácomo Dogi, que foi preso em outubro, e o seu pai, Mauro Dogi, investigados por suposta participação em uma organização criminosa que extrai ouro ilegal da Terra Indígena Kayapó. Os dois italianos, que vivem no Brasil, forneciam ouro para a refinadora italiana, segundo revelam transações financeiras entre as duas empresas obtidas pelos policiais federais na Operação Terra Desolata.

Das quatro big techs, apenas a Apple tomou uma atitude ao ser questionada pela Repórter Brasil. No primeiro contato, em maio, a empresa enviou uma nota dizendo que os seus “padrões de fornecimento responsável são os melhores do setor e proíbem estritamente o uso de minerais extraídos ilegalmente” e que “se uma fundição ou refinadora não conseguir ou não quiser atender aos nossos padrões rígidos, nós o removeremos de nossa cadeia de fornecimento”.  Dois meses depois desse primeiro contato, a reportagem voltou a procurar a Apple, que, afirmou em nota ter removido a Marsam da lista de fornecedores. A Chimet, no entanto, permanece apta. 

Google, Microsoft e Amazon disseram que não comentariam, mas não negaram terem comprado da Chimet e da Marsam. Os emails enviados pela reportagem detalhavam os diversos danos socioambientais provocados pelo garimpo ilegal na Amazônia, bem como a investigação da Polícia Federal e dos procuradores da República. 

Após a publicação da reportagem, o Google enviou uma nota: “O Google requer que fornecedores sigam nosso Código de Conduta do Fornecedor e busquem minérios apenas de empresas certificadas e livres de conflito, como as auditadas pelo Processo de Garantia de Minerais Responsáveis (RMAP, na sigla em inglês) da Iniciativa Minerais Responsáveis (RMI – antes conhecida como Iniciativa de Fornecimento Livre de Conflitos), ou outro programa de avaliação de terceiros.”

Apesar do silêncio das três gigantes da tecnologia, os relatórios entregues ao governo estadunidense revelam as melhores intenções de sustentabilidade, transparência e responsabilidade socioambiental.

“Estamos comprometidos em evitar o uso de minerais que incitaram conflitos e esperamos que nossos fornecedores apoiem nossos esforços para identificar a origem do ouro, estanho, tungstênio e tântalo usados ​​em produtos que fabricamos ou contratamos para fabricar”, diz a Amazon no documento enviado à SEC.

Já a Microsoft afirma ter uma “abordagem holística para o fornecimento responsável de matérias-primas enquanto trabalha para o uso de minerais que não são oriundos de áreas de conflito em seus dispositivos”.

A Alphabet, controladora do Google, explica no relatório anual que se envolve ativamente com a RMI e que analisa e monitora as respostas dos fornecedores para além do preenchimento do relatório-modelo da associação. “Fizemos o acompanhamento para identificar informações incompletas ou inconsistentes em relação às informações que esperaríamos do fornecedor”, diz no documento. 

No documento de 25 páginas da Apple, a empresa ressalta o alinhamento com as políticas de direitos humanos e afirma que “trabalha para proteger o meio ambiente e salvaguardar o bem-estar de milhões de pessoas afetadas por nossa cadeia de suprimentos, desde a mineração até as instalações onde os produtos são montados”. 

O relatório é de 31 de dezembro de 2021, ou seja, foi publicado dois meses depois da investigação da Polícia Federal que envolveu a Chimet e quatro meses depois da Ação Civil Pública contra a FD’Gold (fornecedora da Marsam) vir à tona. Vale destacar que as investigações da Polícia Federal identificaram que o ouro ilegal foi extraído da Terra Indígena Kayapó desde 2015.

“Aqui no Norte, somos cúmplices da destruição do garimpo no Brasil”, lamenta Christian Poirier, coordenador da Amazon Watch, organização que também investiga o setor. Para ele, apesar da dificuldade de rastreabilidade do minério, há pouca pressão por melhorias e maior transparência. Sobre as big techs, ele conclui: “Talvez seja hora de inverter o ônus da prova: essas empresas podem provar que não estão vinculadas a fluxos potencialmente ilegais de ouro do Brasil?”. 

DO LUXO ITALIANO AO LOBISTA BRASILEIRO

A Chimet é uma gigante do setor de refino de metais e ocupa a posição número 44 entre as empresas que mais faturam na Itália. Em 2020, ela teve a maior receita da sua história: mais de 3 bilhões de euros (cerca de R$ 18 bilhões), um aumento de 76% em relação ao ano anterior, como detalhou a Repórter Brasil em investigação publicada em fevereiro.  

O inquérito da Polícia Federal, a que a reportagem teve acesso, é baseado em relatórios de informações econômicas do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). A análise de dados confidenciais constatou que a Chimet remeteu, entre setembro de 2015 e setembro de 2020, R$ 2,1 bilhões para a CHM do Brasil, empresa que, por sua vez, é considerada pelos policiais federais como uma das principais “destinatárias do ouro ilegal vindo de terras indígenas no sul do Pará”.   

A defesa dos italianos da CHM foi feita por uma das maiores bancas de advocacia do Brasil, que tem entre os sócios o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. A nota enviada pelo escritório sustenta que a CHM: “nunca adquiriu ouro proveniente de terras indígenas”.  Diz ainda que a alegação não foi provada pela Polícia Federal e que: “não passou de mera suposição”. (leia a íntegra da resposta). 

Para os investigadores, no entanto, as transações financeiras “demonstram a falta de preocupação da Chimet em comprar ouro legalizado”, afirma o inquérito, “ao enviar valores elevados para garimpeiros, sem permissão de mineração, antecipando a entrega de futuros bens, como joias, pedras e metais preciosos”.

Procurada, a Chimet disse que rompeu as relações comerciais com a CHM assim que soube da investigação da Polícia Federal, em 29 de outubro de 2021. Quando questionada pela Repórter Brasil em janeiro, a gigante italiana alegou que o volume adquirido de ouro do Brasil era irrelevante em relação ao total (70 toneladas) refinado em sua fábrica.

Especialistas, no entanto, revelam a peculiaridade da cadeia: um grama de ouro ilegal, ao ser refinado, é misturado a todo o restante, contaminando toda a produção.

Esse também é o caso da Marsam, que tem como um de seus fornecedores a FD’Gold DTVM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), acusada pelo Ministério Público Federal de comprar ouro extraído de terras indígenas, principalmente dos territórios dos povos Kayapó e Munduruku, no Pará. A FD’Gold também é uma das principais compradoras do ouro ilegal da Terra Indígena Yanomami, segundo outra investigação da Polícia Federal, revelada pela Repórter Brasil.  

“A ré FD’Gold DTVM, portanto, promoveu compras de produtos, insumos, marcadas pela ilegalidade. Pior: obteve ganhos econômicos com essa ilegalidade, incorporando o minério ilegal em suas atividades econômicas regulares”, afirmam os procuradores na ação civil pública. O MPF pede a condenação da FD’Gold, a paralisação das atividades da empresa no Pará e o pagamento de uma indenização por danos materiais e socioambientais de R$ 1,75 bilhão. 

O fundador da FD’Gold é Dirceu Frederico Sobrinho, que além de presidente da Anoro (Associação Nacional do Ouro), é um dos principais lobistas para legalizar o garimpo em terras indígenas. Sobrinho transita com desenvoltura pelos gabinetes de Brasília: já esteve com o vice-presidente Hamilton Mourão e com ministros defendendo a exploração mineral em terras indígenas. Também foi candidato a 1° suplente do ex-senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) em 2018, quando declarou uma fortuna de R$ 20,3 milhões.

Apesar de Sobrinho já ter sido sócio da Marsam, quem hoje comanda a refinadora é a sua filha. A empresa compra pelo menos um terço do ouro que processa “em família”, ou seja, da FD’Gold, segundo informou um consultor externo da empresa, André Nunes, a uma reportagem da Associated Press.

Procurado, Nunes primeiramente negou relação entre a Marsam e a FD’Gold, mesmo com o fato de que seus sócios têm relação direta de parentesco. Em um segundo contato, Nunes disse que a FD’Gold é um dos “diversos clientes no portfólio da Marsam” e que a relação comercial é de “prestação de serviços”. A Repórter Brasil teve acesso a um documento, de julho de 2021, em que Nunes afirma que 36% do ouro processado pela Marsam vem da FD’Gold. 

Procurados, tanto Sobrinho quanto a FD’Gold não se manifestaram

O ouro ilegal, extraído de garimpos clandestinos ou de áreas protegidas, é “legalizado” no momento em que as DTVMs compram o produto. O vendedor do ouro (normalmente garimpeiros ou cooperativas de garimpeiros) preenche uma nota fiscal em papel e autodeclara de onde veio aquele minério – os fraudadores podem dizer que a origem é um garimpo legalizado, mesmo que não o seja. O problema é que a lei 12.844/2013, que regula a compra, venda e o transporte do produto no país, afirma que a declaração de origem do metal acontece a partir da “boa fé do vendedor” – isentando, dessa forma, qualquer responsabilidade dos compradores.

Já legalizado, o metal então pode ser vendido a grandes refinadoras, joalherias, bancos, governos e, inclusive, a algumas das marcas mais famosas do mundo. Ou seja, se você estava pensando em trocar a marca do seu celular, talvez não exista para onde correr. O seu carro, a sua câmera ou o filme de animação que você assiste vêm de empresas que podem estar adquirindo, ainda que de forma indireta, ouro de terras indígenas brasileiras.

*Colaboraram Mariana Della Barba e Gisele Lobato

Edição: Ana Magalhães

NOTA DA REDAÇÃO: O texto foi alterado no dia 26/07 às 16h31 para inserir nota enviada pelo Google.

Remo tropeça no Bragantino antes da estreia no Parazão

Remo e Bragantino empataram em 1 a 1 neste sábado, 21, em jogo amistoso realizado no Baenão. A partida serviu para manter as duas equipes em atividade, já que o início do Parazão 2023 foi adiado pelo STJD. A partida teve ritmo morno, com maior domínio remista na maior parte do confronto. Os gols só saíram no segundo tempo. Logo aos 7 minutos, Muriqui recebeu passe dentro da área e chutou em cima do goleiro João Paulo. No rebote, a bola voltou para o atacante, que tocou para o volante Richard Franco apenas empurrar para o fundo do barbante.

O Bragantino empatou no último minuto, após falha coletiva da defesa do Remo. Balotelli avançou pela direita do ataque e cruzou na metida para Moisés (ex-Paysandu) marcar de cabeça, praticamente sozinho dentro da área.

Os dois clubes irão aguardar o início do Parazão. O Remo estreia contra o Independente, enquanto o Bragantino visita o PSC na Curuzu.

Rock na madrugada – R.E.M., “Imitation of Life”


A história mais comum a respeito da origem do nome do R.E.M. diz que o cantor Michael Stipe abriu aleatoriamente um dicionário e gostou da sigla para “rapid eye movement” ou “movimento rápido dos olhos”, expressão que descreve uma das fases do sono. Verdade ou lenda, o fato é que o R.E.M. construiu uma carreira sólida desde que foi fundado em Athens, Geórgia, em 1980, pelo vocalista Michael Stipe, o guitarrista Peter Buck, o baixista Mike Mills e o baterista Bill Berry. Inicialmente brilhou no indie rock, mas depois ampliou seus horizontes e enfileirou grandes álbuns. Adquiriu a fama (justíssima) de banda que nunca errava e finalmente encerrou atividades em 2011, deixando órfã uma legião de fãs no mundo inteiro.

Futebol do fim do mundo

POR GERSON NOGUEIRA

A vocação para o desastre se estabelece de novo na história do futebol paraense. O Campeonato Estadual, que começaria neste fim de semana, foi simplesmente suspenso através de uma canetada do presidente do Superior Tribunal de Justiça Desportiva, Otávio Noronha. Pelos termos do texto no qual acatou o recurso de Paragominas, Castanhal e Itupiranga, fica óbvio que parecia bastante irritado com o procedimento do TJD paraense no caso. 

O tapetão triunfou outra vez, como sempre, semeando prejuízo e insegurança jurídica. A liminar assinada por Noronha não apenas interrompeu os preparativos para o Parazão 2023. Tem o condão de expor a realidade que ronda o futebol estadual, cada vez mais desprestigiado e refém de manobras tribunalescas. Bastou um clube, o Paragominas, se sentir prejudicado pela escalação de atletas supostamente irregulares em 2021 para que a Justiça Desportiva entrasse em cena.

A paralisação deve se estender por duas semanas, pelos cálculos mais otimistas, semeando prejuízos para todos os lados e deixando no torcedor a pior das impressões. A decisão indica a obrigatoriedade do Pleno do STJD julgar o caso. O tribunal estadual está em recesso, voltando a funcionar a partir de segunda-feira. É possível que o julgamento ocorra na próxima quinta-feira, mas há o risco de novo recurso ao STJD, caso os clubes se sintam prejudicados pela decisão.

O que chamou atenção foi a maneira abrupta e surpreendente, absolutamente sem cerimônia, com que o STJD agiu. Poderia ter decidido pela suspensão há duas semanas, sem que o campeonato tivesse que alterar datas e procedimentos. Ao contrário, optou pela medida drástica, anunciada na véspera da abertura do Parazão – o jogo Remo x Independente seria disputado no sábado à tarde, no Baenão.

É importante observar que a atual diretoria da FPF agiu corretamente ao tocar a execução do campeonato. Sabia do ajuizamento das medidas citadas na decisão de Noronha, mas não era parte do processo. Foi pega de surpresa como todos os demais envolvidos com a competição – times, patrocinadores e governo do Estado, patrocinador do torneio.

Os prejuízos decorrentes da paralisação chegam a R$ 150 mil, apenas com a logística dos clubes, muitos já em deslocamento para cumprir a tabela da primeira rodada. Na mensagem em que explicou seu posicionamento, a FPF informa que acata a decisão, mas pretende defender de todas as formas a competição e os resultados de campo. Este, aliás, é um dos pontos cruciais desse imbróglio. O Paragominas questiona a escalação de jogadores, mas postergou a reclamação, esperando para ver como se definiria o campeonato de 2022.

Como acabou rebaixado, por baixo desempenho em campo, o PFC sacou da gaveta as informações relacionadas a jogadores e partiu para o tapetão, esta instituição sempre à disposição de quem não resolve seus problemas dentro das competições. Há muito tempo que as batalhas de tribunal se intrometem num esporte que deveria primar pelo respeito aos resultados definidos pela qualidade e competitividade dos times.

A medida judicial é duplamente antipática porque pode vir a premiar um time que não teve competência técnica para se manter na primeira divisão estadual. Caberá agora ao STJD analisar e julgar o caso, de forma célere, até para afastar os riscos de uma medida de força. Na resposta ao pedido de reconsideração encaminhado pela FPF, Otávio Noronha usa expressões fortes ao se referir ao tribunal paraense, deixando nas entrelinhas a possibilidade de uma intervenção. Seria o cúmulo da bizarrice. Imagine-se um cenário de punição operado justamente pelo STJD, de tantas decisões equivocadas e de ações protelatórias das mais escancaradas ao longo da história.

E, em meio a tudo isso, que ninguém esqueça do torcedor, alheio às escaramuças e interessado apenas em torcer por seus times de coração. No fim das contas, é o fã de futebol que mantém acesa a chama da rivalidade e do interesse pelo, enquanto tantos outros atores se esforçam em sabotar.

Bola na Torre

O programa vai ao ar às 22h30 deste domingo, na RBATV, com Guilherme Guerreiro na apresentação e participações de Valmir Rodrigues e deste escriba baionense. Em pauta, a polêmica envolvendo a suspensão do Parazão e os amistosos da dupla Re-Pa. A edição é de Lourdes Cezar.

Leão e Papão aproveitam folga para testar formações

Enquanto a notícia da suspensão do Parazão ainda repercutia nas rádios e na internet, as diretorias de Remo e PSC já se movimentavam para não desperdiçar o fim de semana. Dois amistosos foram confirmados ainda na tarde de sexta-feira.

O Leão acertou com o Bragantino para o mesmo horário em que iria estrear no campeonato, sábado, às 17h, no estádio Evandro Almeida. Já o Papão fechou a realização de amistoso com o São Francisco, às 10h deste domingo, no estádio da Curuzu.

Duas decisões acertadas, pois permitiram aos times da capital continuar em preparação para a disputa do campeonato estadual. O PSC, que começou a fase de treinos por último, tem todas as razões para colocar o time em ação na manhã deste domingo.

A busca de entrosamento é a principal preocupação a essa altura. Jogar contra times que irão disputar também o Parazão representa um teste de verdade. A equipe de Márcio Fernandes só se exercitou uma vez, em Barcarena, contra um selecionado local, formado por atletas amadores.

Encarar o São Francisco acrescenta dificuldades que irão colocar à prova o nível do elenco alviceleste, fato valorizado pela presença do torcedor. Márcio terá a chance de testar jogadores e variações táticas para colocar em prática quando o campeonato começar de verdade. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 22)