Terroristas, financiadores e agitadores: Palácio da Alvorada foi o epicentro da organização de atos golpistas

Palácio da Alvorada foi o núcleo central de encontro dos que planejaram um golpe de estado.

Por Lúcio de Castro, na Agência Sportlight

Terroristas, articuladores e financiadores se encontraram com o presidente Jair Bolsonaro na residência oficial da presidência diversas vezes entre 2021 e 2022.

TERRORISTA QUE PLANEJOU EXPLOSÕES, MORTES E CAOS EM BRASÍLIA FOI RECEBIDO NO ALVORADA

O terrorista Wellington Macedo de Souza, réu por arquitetar um atentado a bomba explodindo um caminhão tanque nos arredores do aeroporto de Brasília na véspera de natal, esteve no Alvorada por duas vezes em 2021. No dia 14 de abril, entrou às 7h24 e saiu duas horas depois, às 9h26. Um mês depois, em 11 de maio, passou um longo tempo. Os registros de entrada e saída do palácio nos anos Bolsonaro, obtidos pela reportagem através de Lei de Acesso à Informação, dão conta de que o golpista entrou às 7h43 e saiu somente no meio da tarde, às 15h53.

Wellington Macedo chegou a trabalhar no então Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado pela agora senadora Damares Alves, como assessor da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, entre os meses de fevereiro a outubro de 2019.

No mesmo 2021 em que esteve por duas vezes no Alvorada, Wellington Macedo foi preso por liderar e fomentar os atos antidemocráticos do 7 de setembro, tendo a soltura determinada em 15 de outubro pelo ministro Alexandre de Moraes. Um dos fatores que influenciaram a decisão foi uma vistoria de uma comissão da pasta de Damares Alves. Em nome do ministério da mulher, da família e dos direitos humanos, o relatório recomendava o envio de Wellington Macedo para prisão domiciliar. A comissão não informou que o preso tinha tido ligação com a ministra de então.

Nos planos frustrados de explodir, causar mortes e o caos, o visitante de Jair Bolsonaro foi o responsável por levar o carro com a bomba até o local do atentado e entregar para os comparsas. Caixa preta com acesso presidencial, Wellington Macedo está foragido.

APONTADO COMO UM DOS MAIORES MOBILIZADORES DO GOLPE, “RAMIRO CAMINHONEIRO” TEVE PORTAS ABERTAS NO ALVORADA

Ramiro Alves da Rocha Cruz Junior, o “Ramiro Caminhoneiro”, é citado com frequência como um dos maiores mobilizadores dos atos antidemocráticos desde 2021. Na tentativa de golpe do 8 de janeiro, era o nome que dominou os grupos de whatsapp e telegram usados para convocação de golpistas para irem a Brasília. De acordo com reportagem da Agência Lupa, variações em torno do nome aparecem 170 vezes nessas redes, sempre como organizador de caravanas.

Em 6 de agosto de 2021, “Ramiro Caminhoneiro” cruzou o portão do palácio às 7h53. Não há o registro com o horário de saída.

Já em 13 de janeiro de 2022, a entrada foi às 7h39, deixando o local às 8h37.

Em seu canal de youtube, onde publica vídeos conclamando golpes, desafiando e ofendendo ministros do STF e especialmente Alexandre de Moraes, deixou claro no dia 3 de janeiro deste ano que algo estava para acontecer. “A coisa vai começar nos próximos dias”, antecipando a tentativa de golpe de cinco dias depois. Não satisfeito, legendou: “09/01/2023 em diante o Brasil vai parar”.

Foi candidato a deputado estadual pelo PL-SP, mesmo partido de Jair Bolsonaro, sem sucesso. Recebeu, de acordo com dados do TSE, R$ 150 mil da legenda.

“Ramiro Caminhoneiro” também tem registro de entrada em 17 de abril de 2019, às 15h13. Na mesma hora, entrou também o blogueiro bolsonarista Oswaldo Eustáquio.

PROTAGONISTAS: NELSON BARBUDO E SEU ASSESSOR PARLAMENTAR RAFAEL KLAS DAL BO

Em seus 4 anos de mandato, o deputado federal Nelson Barbudo (PL-MT) discursou 43 vezes no plenário. Os temas se repetiram: a defesa entusiasmada de Jair Bolsanaro, ataques ao PT e a Lula, abraços e saudações para correligionários do seu estado. Na câmara, evitou discursos de teor golpista. Se no plenário agiu assim, fora incendiava com discursos golpistas. Como em 10 de dezembro de 2022, quando, com discurso ambíguo, deu entrevista a emissora de seu estado declarando que a transição e posse de Lula deveriam correr na normalidade mas que a normalidade era esperar o TSE se pronunciar sobre a “fraude nas urnas” por ele alegada sem qualquer prova.

Antes, em 22 de maio de 2020, em um vídeo, ameaçou promover um golpe militar caso fosse consumado a busca e apreensão do celular de Jair Bolsonaro encaminhada pelo então ministro Celso de Mello para a PGR. Como em outras ocasiões, sempre fora das luzes do plenário, valendo-se de vídeos e entrevistas.

Assim, indiretamente, longe dos olhos do parlamento e de registros, também parece se mover. Não tem nenhum registro de entrada no Palácio da Alvorada, mas seu assessor parlamentar Rafael Klas Dal Bo é uma das presenças mais notórias da então residência de Jair Bolsonaro.

Entre 2021 e 2022, Rafael Klas Dal Bo esteve 12 vezes no Alvorada. Oito delas em 2021 e quatro em 2022:

2021-

27/1-7h49 às 10h31

5/2- 17h09 às 18h50

25/2- 7h02 às 7h59

6/7- 16h57 às 18h03

13/7- 9h14 às 9h25

22/7-7h43 às 8h47

25/8- 9h18 às 9h45

23/11- 7h20 às 8h47

2022-

6/4- 07h32 às 09h07

 26/5- 08h09 às 08h34

21/6- 07h11 às 09h39

13/7- 07h44 às 09h56

Em agosto de 2021, Rafael Klas foi o anfitrião do caminhoneiro Marco Antônio Pereira, o “Zé Trovão”, na câmara. Na ocasião, ao lado do secretário parlamentar de Nelson Barbudo, o caminhoneiro prometeu uma guerra no mês seguinte, no 7 de setembro. Em entrevista, Rafael Klas emendou que “os guerreiros já estão aqui, estão se preparando, mas se Deus quiser vamos ter dias melhores nem que para isso a gente pague um certo preço”.

Naquele mês ainda, o deputado federal Alexandre Frota (PROS-SP) enviou notícia-crime ao STF  pela possibilidade de atos de violência marcados para acontecer nas manifestações do 7 de Setembro. Na peça, o parlamentar afirmava que o deputado Nelson Barbudo estaria organizando um protesto que teria como mote a “intervenção” no STF, a retirada de ministros da Corte e a “propagação de violência desmedida”.

As ações, de acordo com Alexandre Frota, também estariam sendo organizadas por Rafael Klas Dal Bo. “Como denunciado o Sr. Rafael Klas Dal Bo, vem utilizando meios e materiais públicos da Câmara dos Deputados para fazer a divulgação e, mais ainda, a organização desta manifestação antidemocrática, convocando pessoas a comparecerem armadas”, afirmava.

O registro de entradas no Alvorada mostra que julho e agosto, os dois meses que antecederam o 7 de setembro daquele ano, concentraram o maior número de entradas de Rafael Klas no palácio ainda habitado por Jair Bolsonaro.

DONO DE EMPRESA DE ÔNIBUS ENTRE OS PRESOS DO DIA 8 ESTEVE NO ALVORADA

Claudiney Assunção Albuquerque, dono da Rhema Viagens e Turismo, de fretamento de ônibus, está na lista dos 1.398 presos no dia 8 de janeiro e agora encontra-se no presídio da Papuda sob o prontuário 170812. Mas em 15 de abril de 2021 ele registrou entrada no Palácio da Alvorada pelo portão principal, ao lado de Rivelino Assunção Albuquerque, com entrada às 7h40.

10 DE AGOSTO DE 2021 FOI O 1º GRANDE LABORATÓRIO GOLPISTA DE BOLSONARO

O dia 10 de agosto de 2021 é chave para entender as duas datas de 7 de setembro que viriam depois também o desfecho com o 8 de janeiro de 2023, o capitólio brasileiro sonhado pelos golpistas, o dia do golpe fracassado. O grande laboratório. Foi quando o então presidente pela primeira vez ensaiou emparedar um país e botar de joelhos. Estava tudo ali: os personagens de bastidores das articulações golpistas, estratégias e modus operandi. Foi ali que os planos de ação e desejos golpistas de Jair Bolsonaro saíram da teoria e foram postos em prática pela primeira vez.

A data do laboratório não foi ao acaso: naquela noite, a câmara dos deputados iria votar a proposta de emenda constitucional que recriava o voto impresso, a falácia-bandeira a qual o ex-presidente se agarrou desde sempre para justificar eventual fracasso eleitoral, tumultuar, e, ato seguinte, dar o golpe institucional. Bolsonaro e todo o país sabiam que as chances da ideia prosperar no congresso eram de zero.

Logo pela manhã daquela terça-feira típica do inverno candango, o capitão expulso do exército por indisciplina deu o cartão de visitas. E teve o primeiro tiro pela culatra de uma coleção que iria tomar a forma definitiva no 8 de janeiro.

Numa clara tentativa de intimidar o congresso, transformou o que todo ano era uma entrega de convite para autoridades irem a um treinamento militar em Formosa, Goiás, a 80 quilômetros dali, em um desfile de tanques com o qual pretendia assombrar um país. O que se seguiu foi próximo a um bloco de sujos desfilando na Intendente Magalhães, a quarta divisão do carnaval carioca. Os tanques, que na cabeça presidencial iriam render um congresso e uma nação, se esvaiam em fumaça, se deslocavam aos soluços como quem agradece jamais serem testados em combate. A peça do ditador de república de bananas imediatamente virou humilhação suprema, dominando os assuntos do dia.

Não bastasse o vexame monumental, Bolsonaro tinha imaginado o segundo tempo. O ato definitivo que o alçaria para o comandante supremo de um país sem instituições, sem regras, sem leis. Sua tão sonhada “República de Rio das Pedras”, a milícia em forma de pátria.

Se pela manhã os tanques deveriam ter dado o tom, não fosse a inesperada vergonhosa performance, de noite era a vez dos caminhões. Bolsonaro articulou pessoalmente o cerco. Fez ali seu grande campo de provas para o que depois faria de novo em outros momentos, como os dois 7 de setembro vindouros.

Os personagens que seguiriam protagonistas da estruturação da mobilização do golpismo estavam todos ali: “Ramiro Caminhoneiro” encontrou-se com Bolsonaro no Alvorada poucos dias antes, no 6 de agosto. Em diversos vídeos, prometia cercar o congresso com a mobilização de caminhões e fazia bravatas contra congressistas e contra o STF. Se pela manhã os tanques desfilavam, ainda que em fracasso, na noite daquela terça os caminhões entraram na esplanada e barulhentamente tentaram intimidar o congresso. Sem sucesso.

Antes da votação, como mostramos anteriormente na reportagem, o caminhoneiro depois foragido, Marco Antônio Pereira, o “Zé Trovão”, teve como anfitrião no congresso Rafael Klas, ambos desferindo bravatas.

Outro protagonista do 10 de agosto de 2021 foi o ruralista de Mato Grosso, Antonio Galvan. Principal líder do Movimento Brasil Verde Amarelo, que conta com aproximadamente 300 associações e sindicatos ligados ao agronegócio, o produtor de soja esteve no Alvorada em 16 maio, entre 11h42 e 12h45. (Estivera também em 20 de fevereiro de 2019, às 12h25). Sua participação como financiador e agitador do dia da votação do voto impresso e na sequência a manutenção da mobilização para o 7 de setembro, fez com que 10 dias depois do 10 de agosto fosse alvo de busca e apreensão pela PF por liderar atos pregando a invasão do Congresso e a deposição dos ministros do STF. Foi apontado como um dos grandes líderes de arrecadação para financiamento dos atos. As investigações da PF miraram também a contabilidade da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), sob a suspeita de que a entidade, que tinha sido presidida por Galvan, tenha bancado parte dos atos. Próximo a Bolsonaro, chegou a ser candidato ao senado no ano passado pelo PTB-MT, sem sucesso.

CEAGESP TRANSFORMOU-SE EM CENTRO DE MOBILIZAÇÃO DE ATOS GOLPISTAS

Em outubro de 2020, Jair Bolsonaro deu uma tacada estratégica em seus planos golpistas: nomeou o coronel da reserva da polícia de São Paulo, Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, ex-comandante da Rota, presidente da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), estatal sediada na capital paulista mas pertencente ao governo federal.

O principal entreposto de abastecimento do país, epicentro de concentração de caminhoneiros no Brasil.

Os primeiros passos do coronel já apontaram na total militarização da entidade, nomeando policiais para todos os postos chaves.

A partir daí, passou a mobilizar, a partir da sede, apoio para atos golpistas pelo Brasil e afinar ainda mais a organização dos caminhoneiros. Que ali passaram a centralizar a organização.

Dois meses depois da nomeação do coronel, Jair Bolsonaro compareceu a uma festa no entreposto. Com o pretexto de inaugurar a nova pintura da tradicional torre do relógio da sede, repintada em verde amarelo, fez discursos golpistas e de mobilização.

No dia 22 de agosto de 2021, o coronel presidente da Ceagesp postou um vídeo com camisa da Rota conclamando “policiais veteranos” a “impedir a entrada do comunismo no país” e chamando os colegas a participarem dos atos do 7 de setembro. Que em São Paulo, naquele ano, ficou marcado pelo tom colérico e pelos xingamentos ao ministro do STF, Alexandre de Moraes.

Três dias depois do 7 de setembro de 2021, esteve no Alvorada (10/9), de 16h11 às 18h39.

É na Ceagesp também que “Ramiro Caminhoneiro” grava boa parte dos seus vídeos.

No dia em que esteve na estatal, Jair Bolsonaro aparece em um vídeo em meio a uma multidão, no pátio da sede, chamando “Ramiro Caminhoneiro” para perto dele. Depois, cobre o líder golpista com uma bandeira do Brasil.

Em diversas ocasiões, Ramiro, com a Ceagesp ao fundo dos vídeos, louva o entreposto e seu poder de mobilização.

No dia 1º de dezembro de 2022, com Lula já eleito, da mesma Ceagesp, Ramiro faz ameaças e afirma que caminhoneiros vão parar e que Bolsonaro vai, “dentro das quatro linhas”, decretar o artigo 142 em razão do roubo nas eleições.

Nota: os nomes acima são provavelmente uma amostragem. É muito provável a existência de outros tantos nomes com ligações semelhantes e presença em sedes do governo durante o período Jair Bolsonaro. Que tenham participado da articulação de golpes de dentro dos palácios nos anos de Bolsonaro.

OUTRO LADO:

Jair Bolsonaro:

A reportagem tentou contato com a defesa de Jair Bolsonaro, sem sucesso.

Rafael Klass e Nelson Barbudo:

A reportagem enviou e-mail para o gabinete do deputado mas não houve resposta.

Ramiro Cruz, “Ramiro Caminhoneiro”:

A reportagem não conseguiu contato. Caso exista alguma atualização, será acrescentado aqui.

CEAGESP:

A reportagem enviou e-mail para a comunicação da Ceagesp mas não recebeu resposta. Caso exista alguma atualização, será acrescentado aqui.

Wellington Macedo de Souza:

A reportagem não obteve contato. Até o momento da publicação, Wellington Macedo estava foragido da justiça.

Antonio Galvan:

A reportagem não conseguiu contato. Caso exista alguma atualização, será acrescentado aqui.

Claudiney Assunção Albuquerque: A reportagem tentou contato com a defesa, sem sucesso.

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