Ex-fotógrafo da Folha critica jornal por escolha de foto de Lula para a capa: “Shownalismo”

Eder Chiodetto é fotógrafo, editor e curador especializado em fotografia. Atuou como repórter-fotográfico (1991-1995),  editor (1995-2004) e crítico de fotografia (1996-2010) na Folha de S.Paulo. Nesta quinta-feira (19), ele valeu-se de seu perfil no Instagram fez um texto criticando o jornal e a fotojornalista Gabriela Biló, dizendo que a foto “deve ser lida sob a luz da linha editorial tortuosa que a Folha adotou nos últimos tempos”:

“O fotojornalismo, atividade ligada à reportagem, tem historicamente a função de reportar visualmente os fatos para o leitor. É uma forma de transportar esse leitor para o interior dos eventos noticiosos. Sim, sabemos que toda fotografia é e sempre será uma interpretação que pouco guarda de similaridade com o fato em si.

Ao fotógrafo cabe a escolha do ângulo, do foco, da luminosidade, do contraste, do recorte, etc. E, sobretudo, pensar todo entorno da cena que será ocultado em privilégio de um detalhe, um gesto. Logo, toda fotografia sempre é o fruto da decisão estética, ideológica e do repertório visual e político do fotógrafo.

Não há fotografia isenta de opinião. Vamos combinar que a natureza da geração de imagens já possibilita elementos mais que suficientes para que fotógrafos moldem a expressão daquilo que fotografam como entenderem que devem a partir de seus princípios. Obstante a isso, Gabriela Biló, fotógrafa de grande desenvoltura e com cacoete de youtuber, com mais de 65 mil seguidores no insta, sentiu-se impelida a usar uma dupla exposição para reunir na mesma imagem um retrato do presidente Lula com a vidraça do Palácio do Planalto estilhaçada pelos terroristas.

Esse gesto, por si só, tira a imagem da natureza do fotojornalismo e a desloca para o âmbito da ilustração. Colagem, montagem, justaposição, são práticas de artistas e ilustradores, não de fotojornalistas. Logo, tal artifício desloca Biló da função de repórter e a coloca como cronista, articulista, ilustradora, editorialista, funções que na redação da Folha – na qual trabalhei 13 anos (1991 a 2004), sendo 09 anos como editor de fotografia -têm liberdade para expressar opiniões próprias à revelia da linha editorial (só em tese, sabemos).

Que Biló deseje ultrapassar limites éticos e estéticos à revelia das normas que regem a prática do fotojornalismo, na ânsia de ser, talvez, uma artista, é uma questão dela. O problema está na Folha em bancar essa atitude. A mesma Folha que demitiu a voz dissidente de Janio de Freitas e se lançou em mais um factóide burlesco ao criar a nomenclatura da “PEC da gastança” para a PEC da Transição, numa falta total de sensibilidade com o contexto.

Logo, a escolha editorial de estampar a imagem-ilustração de Biló na 1a página – decisão que passa pela direção do veículo, como vivenciei em 09 anos na função que me era devida – é só mais uma que vem dentro dessa lógica de fazer “shownalismo” de crítica ao governo que ainda está começando. Uma imagem dúbia de gosto suspeito que amplifica possibilidades interpretativas à direita e à esquerda, com a intenção de “lacrar”, momentos após o país passar por uma tentativa de golpe, não é o jornalismo que queremos ou precisamos. No lugar de suscitar o debate, se contenta em por fogo no circo num momento tão complexo para a democracia.

Essa imagem na primeira página também não pode ser vista fora de contexto pois isso pode levar a ilusão de leituras softs tipo “Lula está blindado”, “Lula inatingível” e outras que circulam por aqui. A imagem é código aberto a interpretações, mas deve ser lida sob a luz da linha editorial tortuosa que a Folha adotou nos últimos tempos. Saudade do Otavinho, o OFF, sempre tão ponderado e cuidadoso na linha editorial do jornal, ainda que sujeito a erros. Para resumir, esse caso parece espelhar de forma canhestra o 08 de janeiro. A repórter fotográfica fez o ataque, mas a pena maior deve ser imputada a quem patrocinou e legitimou tal ato”.

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