O mistério de Edna: a viúva de Belchior que desapareceu como o gênio da MPB

Por Jotabê Medeiros

O maior segredo da MPB não é o acidente de infância de Roberto Carlos. O maior segredo da MPB não é onde foi parar o baralho que João Gilberto fez Elba Ramalho passar para si por debaixo da porta do seu quarto de hotel. O maior segredo da MPB não é a causa da morte de Gal Costa. O maior segredo da MPB não é o posicionamento político de Ivete Sangalo. O maior segredo da MPB é Edna.

Edna Assunção de Araújo, 55, é morena, tem cabelos cacheados, cerca de 1,60 m de altura, e não é vista nem ouvida em situações públicas há mais de cinco anos. Por que deveria? Ora, ela é a viúva do cantor Belchior, sobre quem escrevi o livro “Belchior — Apenas um rapaz latino-americano” (Todavia, 2017). Durante o período em que o artista ficou desaparecido do olho público, de 2007 a 2017 — até ser encontrado morto por um aneurisma da aorta aos 70 anos, no dia 30 de abril de 2017, em Santa Cruz do Sul (RS) —, Edna o acompanhou.

Ela o viu fazer shows para sortudas plateias de duas pessoas, acompanhou a produção de um misterioso e inédito disco que muitos juram ser “melhor que ‘Alucinação’ (disco de 1976, 16º colocado na lista dos 500 maiores álbuns da MPB, segundo levantamento de 2022 do podcast Discoteca Básica)”, assistiu concertos de outros artistas incógnita na plateia, testemunhou o marido fazer desenhos para uma já lendária tradução pessoal de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, e dormiu sob viaduto com o imortal autor de “Apenas um Rapaz Latino-Americano”.

Depois da morte de Belchior, Edna esteve presente nos ritos funerários e exéquias em tributo ao companheiro em Fortaleza e Sobral, no Ceará, terra natal do bardo da MPB. Até discursou para um teatro lotado. A partir daí, o paradeiro da paulista Edna passou a ser um indevassável segredo.

Desinteresse pela herança

Para os herdeiros de Belchior, esse desaparecimento passou a ser um grande problema — para a partilha de bens do artista e a gestão de seu legado, o sumiço da viúva complicava terrivelmente as coisas. Incomunicável, Edna foi alijada do inventário em 2019, devido à dificuldade da Justiça em citá-la (“Considerando os resultados negativos para intimação da viúva, nomeio, para o cargo de inventariante, Camila Henman Belchior”, assinalou o juiz, em referência a uma das filhas do cantor).

Em setembro de 2022, três anos depois do início do inventário e ainda sem notícias da viúva, a família de Belchior (suas três filhas, Camila, Isabella e Vanick e o filho, Mikael) entrou com um pedido de citação por cartas precatórias nos três únicos endereços que possuíam de contato, todos em São Paulo. Nenhum dos endereços apontados, entretanto, encontra-se ativo (a reportagem do TAB percorreu todos eles).

A irmã da viúva

No ano passado, surgiu uma pista mais consistente: o endereço de uma butique de moda na Zona Sul de São Paulo que pertenceria às irmãs de Edna, Hélia e Eda. As três, muito ligadas, certamente ainda manteriam contato. Após a confirmação do vínculo e da existência da butique, a reportagem empreendeu essa semana uma tentativa de estabelecer alguma comunicação:

— Bom dia. Você é a Hélia?

— Pois não. Com quem eu falo?

— Eu sou Jotabê Medeiros, repórter, jornalista. Eu estou aqui para lhe perguntar sobre sua irmã, Edna.

— Eu não te conheço, não tenho o que dizer, sinceramente. Como você chegou até mim?

— Bom, eu sou repórter, né? Deixa eu perguntar: Edna está viva?

— [Silêncio]. Eu não tenho nada para te dizer. Eu já vi muitas coisas que você escreveu e não concordo com nada. É o seu ponto de vista, é o que você acha. Se fosse um repórter sério, iria pesquisar e procurar saber a verdade antes de escrever.

— Eu procurei. Mas nunca me receberam. As pessoas que poderiam dizer “Olha, eu contesto o que você escreveu”, essas pessoas não deram sua versão.

— Eu agradeço sua visita, mas com todo o respeito, peço que você me dê licença.

Documentários e livros

Em meia década, esse foi o mais próximo que o mundo de Edna chegou do mundo exterior. Em breve, no entanto, informações inéditas poderão se abrir em torno da saga de Edna & Belchior, por intermédio dos filmes, discos e livros que estão por ser lançados. O lançamento mais iminente é o do documentário “Procurando Belchior”, dirigido por Eduardo Albergaria (com roteiro de Daniel Dias, Leonardo Edde e do próprio diretor, com estreia prevista no Canal Brasil no segundo semestre), que refaz o percurso do casal pelo Uruguai e o Rio Grande do Sul durante o auto-exílio de dez anos.

O resultado pode surpreender muita gente que tenha uma ideia pronta e bem acabada do que Edna teria representado para a vida e a obra do bardo de Sobral. O filme revê a trilha de Belchior e Edna pelo Sul do continente com a perspectiva de reencontrar o ponto de vista do artista, retratando a estrada, os muros, o que ele viu e sentiu e o que viram e sentiram as pessoas que conviveram momentaneamente com ele. Em sua investigação pela Rota Belchior, Albergaria e sua equipe descobriram imagens inéditas, colheram depoimentos preciosos e prometem mostrar um novo ângulo de visão da enevoada história.

Durante o tempo em que Edna esteve ao lado de Belchior, ela era conhecida como “Edna Prometeu”, curiosa alusão ao clássico grego de Ésquilo, “Prometeu Acorrentado”. A peça trata de uma maldição: após roubar o fogo de Zeus para dar aos homens, Prometeu é punido pelo deus e acorrentado a um rochedo, sendo condenado a permanecer ali por toda a eternidade.

Personagem de tragédia grega

Para os fãs de Belchior, que geralmente chamam a si mesmos de “belchianes”, o codinome de Edna permite uma dupla interpretação: o rochedo seria o próprio Belchior, uma força gravitacional poderosíssima; ou, na versão mais misógina, quem estava acorrentado ao rochedo, e ali ficou por toda a eternidade, foi Belchior (Edna, evidentemente, seria o rochedo).

Paranoica, superprotetora, inteligente, irascível, dura, doce, feroz, acolhedora, capaz de maltratar bichos e jogar escondido na Mega Sena enquanto impedia o marido de jogar, manipuladora, culta, profetiza, barraqueira: ao longo dos últimos anos, o retrato multifacetado e a lenda em torno de Edna cresceram mais que massa com fermento biológico. Já foi registrado que ela sofre de Síndrome do Pânico, que é daimista ou seguidora da religião União do Vegetal (UDV).

É possível notar, sem esforço, que parte expressiva das reações de desconfiança ou preconceito em relação à viúva de Belchior é o fato de que ela, como par romântico, não se enquadra no estereótipo clássico da mulher sedutora. O certo é que há mais gente magoada com ela do que gente saudosa.

Cálculo ou amor sincero?

Sua aproximação com Belchior, para parte da família do cantor, teria sido fruto de uma decisão, um cálculo minucioso. Em 2006, Edna trabalhava na produção de um show coletivo em Fortaleza. Cuidava dos artistas hospedados no hotel Caesar Park da capital cearense, do transporte e outras providências. “Jorge Mello, seu táxi chegou! Pode ir que eu cuido da papelada do hotel”, contou um dos parceiros e ex-sócio de Belchior, o cantor e compositor Jorge Mello, ao lembrar de quando a viu pela primeira vez.

Nesse período, Edna trabalhou como curadora de uma coletiva de artistas no Hotel Grand Marquise, em Fortaleza, mas não deixou saudades em todos: “Não posso falar nada sobre essa mulher, pois meu contato com ela foi muito rápido e lhe confesso que meu santo não bateu com o dela”, diz o pintor e escultor cearense Mano Alencar.

O cirurgião plástico Russen Moreira Conrado, de Fortaleza, genro de um dos irmãos do cantor, Nilson Belchior, partilhou meia hora de conversa com Edna no dia do funeral, em 1º de maio de 2017. Em seu livro “Belchior — O silêncio do Amor”, publicado um ano depois, ele escreve: “Talvez existisse nela uma certa vontade de sumir do espaço, pois alimentaram [Edna e Belchior] um isolamento duplo.”

Para muita gente, o sentimento de responsabilização de Edna pelo destino de Belchior é algo que persiste forte mesmo após tanto tempo transcorrido. “O que pensaria alguém que durante dez anos conseguiu isolar do mundo um gênio da canção, um homem de uma incomum cultura e saber?”, indagou Russen.

CPF ativo

A procura pelo paradeiro de Edna se deve a muitos fatores, do parágrafo insepulto à vaidade profissional, do judicial ao estético — afinal, a própria produtora, marchand, auxiliar de turismo e gestora de ONG pró-Palestina (as atividades que ela exerceu durante a vida podem se revelar díspares, conforme as fontes) confessou a interlocutores carregar consigo, em uma mala, a derradeira produção de um dos maiores nomes da MPB. Essa possibilidade mantém mais que aceso o interesse em torno de sua figura, além da atmosfera de romantismo da sua louca trajetória ao lado de Belchior.

O fato é que Edna não deixou rastro. O espanto que causa é: como estaria sobrevivendo? Sem acesso aos recursos da produção musical de Belchior, sem a rede de “Airbnb instantâneo” providenciada pelos fãs do cantor no país, como se mantém? Nessa meia década, ela não requereu aposentadoria, não recorreu ao Auxílio Brasil, não declarou imposto de renda, não vendeu ou comprou nada, nem abriu ou fechou empresas.

“Edna está viva?”. Àquela única pergunta que permitiu lhe ser dirigida, a irmã de Edna, Hélia, respondeu com um esboço de sorriso. Se os leitores permitem um tanto de impressionismo ao repórter, e usando sem o componente de sarcasmo uma expressão que o malogrado bolsonarismo popularizou, é líquido e certo que o CPF de Edna continua ativo.

(Transcrito do UOL)