Pelé, o maior passaporte que um brasileiro poderia ter

Por Jamil Chade, no UOL

Ir para a região de Darfur, no Sudão, exigia uma operação especial de segurança. Um visto especial por parte de uma ditadura, o “acompanhamento” permanente de um membro do regime no poder e um medo constante diante das notícias diárias de execuções. O local havia sido o palco do primeiro genocídio do século 21, uma barbárie que acabou levando, anos depois, à condenação de Omar Al Bashir, presidente do Sudão, no Tribunal Penal Internacional.

No auge da crise, fui até o território com a intenção de ver com meus próprios olhos o que era um genocídio e suas consequências. Eu tinha um compromisso de falar com todos. Vítimas e governo. Uma dessas autoridades era de especial interesse na minha agenda: o governador do Darfur Norte que, em pleno deserto, mantinha um sistema de irrigação em sua casa que permitia que o político desfrutasse de um jardim florido e gazelas.

Depois de muita negociação e insistência, eu fui informado de que eu seria recebido pelo governador do Norte de Darfur, Mohamed Osman Kibir. Anos depois, Kibir seria interrogado pelo massacre que, segundo a ONU, fez pelo menos 300 mil mortos desde 2003. Mas, naquele momento, era o homem mais poderoso – e temido – da região. Fui conduzido ao pequeno aeroporto de Al Fasher, capital do Norte de Darfur. Ali seria a entrevista.

Enquanto aguardava pelo governador, reparei que na sala ao lado comandantes e políticos se divertiam vendo TV. Eles assistiam, descalços, ao desenho animado Tom & Jerry. E soltavam gargalhadas como crianças com as maldades dos personagens. De repente, por uma das portas, entra o poderoso governador, que me oferece uma das poltronas. Mas antes de eu abrir a boca, ele me explica a situação.

“Eu apenas aceitei esse encontro por querer, na minha vida, conhecer alguém do mesmo país que Pelé”, disse. Com os olhos que brilhavam, o governador suspeito de promover um massacre falava com todo o entusiasmo do mundo sobre o “maior jogador de todos os tempos”. Rejeitava qualquer comparação com Maradona e insistia que conhecer um brasileiro era um privilégio para ele. Pelé, num dos locais mais perigosos do mundo, me abriu portas. Inclusive com um genocida.

Outra situação também foi reveladora. Eu estava na fronteira entre a Rússia e Abecásia, uma das repúblicas separatistas da Geórgia e de reconhecimento internacional absolutamente limitado. Um policial na aduana, que jamais tinha visto um passaporte brasileiro, parecia sem saber o que fazer quando eu me apresentei para cruzar aquela fronteira. Até que um dos chefes do comando da região desembarcou no posto. Sujo, cansado e aparentemente mal-humorado, o homem caminhava em minha direção com um ar ameaçador.

Quando se aproximou, porém, abriu um sorriso e disse: você trouxe o Pelé? A conversa acabou ainda mencionando Jorge Amado. Enquanto preparava minha documentação, o comandante que cantarolava um bolero, convencido de que estava dando um clima tropical para aquele encontro. Instantes depois, minha passagem por aquela remota fronteira do mundo estava garantida.

Ao longo de 20 anos percorrendo mais de 70 países, entendi que Pelé foi o maior passaporte que um brasileiro poderia ter.

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