Cobertura e perrengues da Copa do Qatar

POR GERSON NOGUEIRA

Companheiros que trabalharam na Copa do Qatar insuflam o escriba a comentar neste espaço sobre as aventuras e perrengues de um trabalho que foi diferente de tudo, até mesmo porque se tratou de um Mundial surpreendente e cheio de novidades, disputado num país do Oriente Médio, com leis e costumes próprios, alguns com tintas medievais.

Em primeiro lugar, assim como acontece nas guerras – apenas li sobre isso nos relatos de Ernest Hemingway, mas nunca acompanhei um conflito armado –, os jornalistas terminam por se agrupar. É um movimento natural, ainda mais em terras estrangeiras, e é inegável que o Qatar preenche todos os quesitos de estranheza e exotismo.

Depois, há o fato de que o trabalho exigia um considerável grau de esforço físico, ainda mais para o baionense aqui. Para alguns jogos, a Fifa fornecia tíquetes que obrigavam escalar até 50 degraus em estádios de estrutura muito alta, como Lusail, 974 e Education City.

Os amigos Tarcísio Franco e Rodrigo Silva, únicos representantes amapaenses na Copa do Mundo, cobrindo os jogos para o grupo Diário do Amapá, foram parceiros inseparáveis deste correspondente tanto na divisão de tarefas em locais mais distantes quanto na busca de soluções para problemas práticos do dia a dia, como a procura por alimentação mais adequada para os paladares amazônicos.

Além da dupla do Amapá, que esteve em quatro Copas do Mundo, mesma marca do escriba aqui, tive o auxílio do amigo Abner Luiz no esforço para localizar o endereço do meu hotel no labiríntico Al Mansoura, um dos maiores bairros de Doha. Foi quase uma madrugada inteira para chegar à rua 19, prédio 6 da quadra 25, feito só foi possível pela persistência inquebrantável de Abner, que saiu batendo em todas as portas se expressando por ruídos e muita mímica, como um autêntico paraense.

Aprazível, mas sem luxos, a casa de quatro andares onde me hospedei (via Airbnb) tem a administração de um indiano simpático, que se encarregou de ajudar com dicas de locais mais baratos para compras e até mesmo com os desafios de comunicação entre um caboclo da Amazônia e os mais diferentes representantes de povos que vivem na capital do Qatar.

Abner e o repórter fotográfico Tarso Sarraf ficavam do outro lado de Doha, o que fazia com que meus mais constantes parceiros de andanças fossem Tarcísio e Rodrigo. Foi com eles que fui cobrir o treino final do Brasil para enfrentar a Croácia nas quartas de final. Na foto principal, eles estão comigo e com o “ídolo” Wellington Campos, mineiro gente boa, verdadeira máquina de produzir notícias sobre a Seleção Brasileira.

O registro foi feito minutos antes da entrevista de Vinícius Jr. na qual o assessor aloprado da CBF agarrou um gato e atirou em direção ao chão, como se estivesse com nojo. A cena irritou os jornalistas e surpreendeu o próprio Vinícius, que tinha se encantado com a tietagem do bichano, sentado sobre a mesa.

Coincidência ou não, horas depois, o Brasil entrou pelo cano para Modric & cia. Penalidade é sorte, dizem uns; técnica e foco, afirmam outros. Eu prefiro acreditar que é um misto de coisas, que não excluem o poder misterioso de um gato mordido por ter sido escorraçado da coletiva de imprensa.

No dia seguinte à eliminação, fomos todos vitimados por um surto de depressão temporária, que acomete todo jornalista esportivo ante um fiasco do escrete canarinho. Já tinha vivido isso na Alemanha, com o fato atenuante de que a Argentina saiu da Copa um dia depois levando uma sova. Desta vez, porém, os hermanos seguiam firmes na briga e chegariam aos píncaros da glória.

Sem chance de antecipar retorno, pois a British Airways tascou um preço inacreditável para a perna de volta, tratei de me dedicar à cobertura integral da competição, acompanhando as semifinais, disputa de terceiro lugar e grande final. Com uma inveja tremenda de marroquinos, croatas, francês e argentinos.

Ao lado de outros poucos jornalistas brasileiros, torci por Marrocos na briga pela terceira colocação. Um jogo bonito, de briga tática e muita disposição das equipes. Não estava mesmo para torcer, pois a Croácia levou a melhor.

Na decisão, testemunha de um dos maiores espetáculos vistos numa Copa, tive a honra de acompanhar os 120 minutos de jogo ao lado de companheiros, como o carioca Jorge Rodrigues, assessor especial da Conmebol, e o paulista Luiz Antônio Prósperi, um veterano (9 mundiais) e articulista dos bons, todos acomodados a poucos metros da cúpula do estádio de Lusail.

Boas amizades, papos diários e companhia para consumir o tempo que faltava até o final da missão. Com direito a pernadas pelos shoppings (seguramente, os maiores do mundo) em dias de folga, busca por restaurantes de cardápio menos carregados no tempero picante e visita a pontos turísticos da capital catariana.

O trabalho certamente seria melhor se o Brasil tivesse avançado um pouco mais, saindo do círculo vicioso de tropeçar sempre nas quartas de final. Um outro jornalista, o colombiano Jair da Silva e Silva (em homenagem a Jairzinho, Furacão da Copa), dizia desde os primeiros jogos que o Brasil sempre era o seu favorito, mas que desta vez faltava a velha chama. Não estava errado.

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 03)

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