Rock na madrugada – Peter Tosh, “Johnny B Goode” (Chuck Berry)

Versões ao vivo e de estúdio (abaixo) dessa releitura de “Johnny B Goode” que virou um clássico e sucesso no mundo inteiro, em 1983. O vozeirão do saudoso Peter Tosh, reggae man jamaiscano de primeira linha, emoldurado por solos de guitarra lancinantes e uma cozinha fantástica. A mais perfeita junção de rock e reggae de todos os tempos.

Obrigado, Pelé!

Mais de 230 mil pessoas passaram pelo estádio do Santos para se despedir de Pelé. O Rei do Futebol morreu na quinta-feira (29), depois de um mês internado. Fãs do Pelé, de todas as idades, acompanharam o cortejo pelas ruas de Santos. Um menino, inclusive, fez questão de ver a passagem do caixão com o corpo do Rei do Futebol com uma camiseta verde e amarelo e os dizeres ‘Pelé Eterno’. O sepultamento, em memorial ecumênico, aconteceu no meio da tarde, diante de seus familiares e amigos mais próximos.

O caixão com o corpo de Pelé chegou em frente a casa da mãe dele, Celeste Arantes. Ela completou 100 anos em 20 de novembro, dia da abertura da Copa do Mundo. E é dela que Dico, apelido de menino de Pelé, vai se despedir.

Dona Celeste mora em uma residência na Avenida Joaquim Montenegro, o Canal 6, na Ponta da Praia. Ela é cuidada pela irmã de Pelé, Maria Lúcia, e sua única filha viva. No momento em que o cortejo passou pelo local, a irmã de Pelé, parentes e vizinhos foram até a sacada de uma das residências do condomínio. A mãe de Pelé não foi vista.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve em Santos, no litoral de São Paulo, para o velório de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Ele estava acompanhando da primeira dama, Janja Lula da Silva. Em entrevista sobre o Rei do futebol, Lula ressaltou a humildade do ex-jogador e disse que o “Brasil deve muito a Pelé”.

Após a chegada do presidente, foi iniciada uma missa com o padre Toninho e padre Xavier, ambos de Santos. Acompanharam a celebração o prefeito de Santos, Rogégio Santos, o Ministro dos Portos e aeroportos, Marcio França, o deputado federal, Paulo Alexandre Barbosa, além de secretários municipais de Santos, vereadores municipais e o público que estava passando pelo estádio.

Durante o velório, Lula abraçou familiares de Pelé, que estiveram presentes na Vila Belmiro durante quase todo o velório. Por volta das 9h30, o presidente e a primeira-dama deixaram o local.

Em entrevista para a Santos TV, Lula contou que assistiu muitos jogos do Santos contra o Corinthians e que viu o Corinthians perder vários. Segundo ele, o Pelé tinha uma ‘obsessão de derrotar’ o Corinthians, o time do coração do presidente da república. “Ele obrigava a gente a ir em qualquer lugar assistir futebol, porque muitas vezes a gente não gosta só do nosso time, a gente gosta de alguém que dá espetáculo, alguém que é brilhante O Pelé simboliza tudo aquilo que é a ascensão da espécie humana. Tudo aquilo que a gente poder perceber da ascensão do ser humano foi o Pelé”.

O presidente também falou da personalidade de Pelé. Ele disse que o ex-jogador sempre foi um cidadão humilde e que sempre conversou de igual para igual com todo mundo. “Era um cidadão comum. Ele não se deixava levar pelo brilhantismo dele e pelo apogeu, nos maiores momentos de glória dele, quando encontrava com a Rainha da Inglaterra, quando ganhava um prêmio, ele era o mesmo de quando dava uma entrevista ou encontrava uma criança para conversar”, disse.

“O Pelé é uma figura muito especial. A gente não pode ficar comparando Pelé a ninguém, porque não tem ninguém comparável a Pelé em se tratando de jogador de futebol, de ser humano, e de comportamento, fino e educado que o Pelé tinha. Ele foi muito para o Brasil, foi muito para Santos, para a cidade de Santos, ele foi muito para São Paulo e ele foi muito para o Lula” , explicou o presidente.

Lula também disse que gostaria de que um documentário fosse feito mostrando para as novas gerações quem foi Pelé. E que as gravações fossem feitas em Santos.

“Além do futebol, ele vai ensinar um pouco de caráter, de humildade, de dignidade, e quem sabe vai ensinar um pouco as pessoas a serem mais humanistas, mais solidárias, mais fraternas. Foi tudo isso que Pelé foi. Por isso acho que o mundo deve ao Pelé muita coisa, sobretudo a dignidade de um homem que nasceu pobre, negro, em um país onde o preconceito é muito vivo, e o Pelé nunca se importou com isso. Ele sempre soube ser Pelé, o melhor e mais humilde”

Lula ainda disse que lamenta profundamente a perda do Rei do Futebol. Ele contou que teve a oportunidade de ir ao Pacaembu ver o Pelé jogar muitas vezes. “Não vou ver daqui para frente nunca mais o Pelé jogar, a não ser que eu fique assistindo filmes com gols do Pelé, que são muitos. Todos nós devemos um pouco ao Pelé, e o Brasil deve muito”, finalizou.

Membros de torcidas organizadas do Santos levam bandeiras do time em homenagem à Pelé durante o cortejo pelas ruas de Santos

(Com informações de UOL, Folha SP e Metrópoles)

Pelé, o maior passaporte que um brasileiro poderia ter

Por Jamil Chade, no UOL

Ir para a região de Darfur, no Sudão, exigia uma operação especial de segurança. Um visto especial por parte de uma ditadura, o “acompanhamento” permanente de um membro do regime no poder e um medo constante diante das notícias diárias de execuções. O local havia sido o palco do primeiro genocídio do século 21, uma barbárie que acabou levando, anos depois, à condenação de Omar Al Bashir, presidente do Sudão, no Tribunal Penal Internacional.

No auge da crise, fui até o território com a intenção de ver com meus próprios olhos o que era um genocídio e suas consequências. Eu tinha um compromisso de falar com todos. Vítimas e governo. Uma dessas autoridades era de especial interesse na minha agenda: o governador do Darfur Norte que, em pleno deserto, mantinha um sistema de irrigação em sua casa que permitia que o político desfrutasse de um jardim florido e gazelas.

Depois de muita negociação e insistência, eu fui informado de que eu seria recebido pelo governador do Norte de Darfur, Mohamed Osman Kibir. Anos depois, Kibir seria interrogado pelo massacre que, segundo a ONU, fez pelo menos 300 mil mortos desde 2003. Mas, naquele momento, era o homem mais poderoso – e temido – da região. Fui conduzido ao pequeno aeroporto de Al Fasher, capital do Norte de Darfur. Ali seria a entrevista.

Enquanto aguardava pelo governador, reparei que na sala ao lado comandantes e políticos se divertiam vendo TV. Eles assistiam, descalços, ao desenho animado Tom & Jerry. E soltavam gargalhadas como crianças com as maldades dos personagens. De repente, por uma das portas, entra o poderoso governador, que me oferece uma das poltronas. Mas antes de eu abrir a boca, ele me explica a situação.

“Eu apenas aceitei esse encontro por querer, na minha vida, conhecer alguém do mesmo país que Pelé”, disse. Com os olhos que brilhavam, o governador suspeito de promover um massacre falava com todo o entusiasmo do mundo sobre o “maior jogador de todos os tempos”. Rejeitava qualquer comparação com Maradona e insistia que conhecer um brasileiro era um privilégio para ele. Pelé, num dos locais mais perigosos do mundo, me abriu portas. Inclusive com um genocida.

Outra situação também foi reveladora. Eu estava na fronteira entre a Rússia e Abecásia, uma das repúblicas separatistas da Geórgia e de reconhecimento internacional absolutamente limitado. Um policial na aduana, que jamais tinha visto um passaporte brasileiro, parecia sem saber o que fazer quando eu me apresentei para cruzar aquela fronteira. Até que um dos chefes do comando da região desembarcou no posto. Sujo, cansado e aparentemente mal-humorado, o homem caminhava em minha direção com um ar ameaçador.

Quando se aproximou, porém, abriu um sorriso e disse: você trouxe o Pelé? A conversa acabou ainda mencionando Jorge Amado. Enquanto preparava minha documentação, o comandante que cantarolava um bolero, convencido de que estava dando um clima tropical para aquele encontro. Instantes depois, minha passagem por aquela remota fronteira do mundo estava garantida.

Ao longo de 20 anos percorrendo mais de 70 países, entendi que Pelé foi o maior passaporte que um brasileiro poderia ter.

Cobertura e perrengues da Copa do Qatar

POR GERSON NOGUEIRA

Companheiros que trabalharam na Copa do Qatar insuflam o escriba a comentar neste espaço sobre as aventuras e perrengues de um trabalho que foi diferente de tudo, até mesmo porque se tratou de um Mundial surpreendente e cheio de novidades, disputado num país do Oriente Médio, com leis e costumes próprios, alguns com tintas medievais.

Em primeiro lugar, assim como acontece nas guerras – apenas li sobre isso nos relatos de Ernest Hemingway, mas nunca acompanhei um conflito armado –, os jornalistas terminam por se agrupar. É um movimento natural, ainda mais em terras estrangeiras, e é inegável que o Qatar preenche todos os quesitos de estranheza e exotismo.

Depois, há o fato de que o trabalho exigia um considerável grau de esforço físico, ainda mais para o baionense aqui. Para alguns jogos, a Fifa fornecia tíquetes que obrigavam escalar até 50 degraus em estádios de estrutura muito alta, como Lusail, 974 e Education City.

Os amigos Tarcísio Franco e Rodrigo Silva, únicos representantes amapaenses na Copa do Mundo, cobrindo os jogos para o grupo Diário do Amapá, foram parceiros inseparáveis deste correspondente tanto na divisão de tarefas em locais mais distantes quanto na busca de soluções para problemas práticos do dia a dia, como a procura por alimentação mais adequada para os paladares amazônicos.

Além da dupla do Amapá, que esteve em quatro Copas do Mundo, mesma marca do escriba aqui, tive o auxílio do amigo Abner Luiz no esforço para localizar o endereço do meu hotel no labiríntico Al Mansoura, um dos maiores bairros de Doha. Foi quase uma madrugada inteira para chegar à rua 19, prédio 6 da quadra 25, feito só foi possível pela persistência inquebrantável de Abner, que saiu batendo em todas as portas se expressando por ruídos e muita mímica, como um autêntico paraense.

Aprazível, mas sem luxos, a casa de quatro andares onde me hospedei (via Airbnb) tem a administração de um indiano simpático, que se encarregou de ajudar com dicas de locais mais baratos para compras e até mesmo com os desafios de comunicação entre um caboclo da Amazônia e os mais diferentes representantes de povos que vivem na capital do Qatar.

Abner e o repórter fotográfico Tarso Sarraf ficavam do outro lado de Doha, o que fazia com que meus mais constantes parceiros de andanças fossem Tarcísio e Rodrigo. Foi com eles que fui cobrir o treino final do Brasil para enfrentar a Croácia nas quartas de final. Na foto principal, eles estão comigo e com o “ídolo” Wellington Campos, mineiro gente boa, verdadeira máquina de produzir notícias sobre a Seleção Brasileira.

O registro foi feito minutos antes da entrevista de Vinícius Jr. na qual o assessor aloprado da CBF agarrou um gato e atirou em direção ao chão, como se estivesse com nojo. A cena irritou os jornalistas e surpreendeu o próprio Vinícius, que tinha se encantado com a tietagem do bichano, sentado sobre a mesa.

Coincidência ou não, horas depois, o Brasil entrou pelo cano para Modric & cia. Penalidade é sorte, dizem uns; técnica e foco, afirmam outros. Eu prefiro acreditar que é um misto de coisas, que não excluem o poder misterioso de um gato mordido por ter sido escorraçado da coletiva de imprensa.

No dia seguinte à eliminação, fomos todos vitimados por um surto de depressão temporária, que acomete todo jornalista esportivo ante um fiasco do escrete canarinho. Já tinha vivido isso na Alemanha, com o fato atenuante de que a Argentina saiu da Copa um dia depois levando uma sova. Desta vez, porém, os hermanos seguiam firmes na briga e chegariam aos píncaros da glória.

Sem chance de antecipar retorno, pois a British Airways tascou um preço inacreditável para a perna de volta, tratei de me dedicar à cobertura integral da competição, acompanhando as semifinais, disputa de terceiro lugar e grande final. Com uma inveja tremenda de marroquinos, croatas, francês e argentinos.

Ao lado de outros poucos jornalistas brasileiros, torci por Marrocos na briga pela terceira colocação. Um jogo bonito, de briga tática e muita disposição das equipes. Não estava mesmo para torcer, pois a Croácia levou a melhor.

Na decisão, testemunha de um dos maiores espetáculos vistos numa Copa, tive a honra de acompanhar os 120 minutos de jogo ao lado de companheiros, como o carioca Jorge Rodrigues, assessor especial da Conmebol, e o paulista Luiz Antônio Prósperi, um veterano (9 mundiais) e articulista dos bons, todos acomodados a poucos metros da cúpula do estádio de Lusail.

Boas amizades, papos diários e companhia para consumir o tempo que faltava até o final da missão. Com direito a pernadas pelos shoppings (seguramente, os maiores do mundo) em dias de folga, busca por restaurantes de cardápio menos carregados no tempero picante e visita a pontos turísticos da capital catariana.

O trabalho certamente seria melhor se o Brasil tivesse avançado um pouco mais, saindo do círculo vicioso de tropeçar sempre nas quartas de final. Um outro jornalista, o colombiano Jair da Silva e Silva (em homenagem a Jairzinho, Furacão da Copa), dizia desde os primeiros jogos que o Brasil sempre era o seu favorito, mas que desta vez faltava a velha chama. Não estava errado.

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 03)