Daqui a pouco, Brasil começa a se livrar do maior erro que cometeu em sua história

Por Rudolfo Lago – Congresso em Foco

Antes de embarcar para os Estados Unidos no seu plano de fuga, o daqui a pouco ex-presidente Jair Bolsonaro decretou luto de três dias pela morte do brasileiro mais famoso e mais talentoso no seu ofício de todos os tempos, Pelé. Obviamente, se ele decretou luto, as bandeiras à frente das instituições públicas ficaram a meio pau. Ao ver a bandeira nessas circunstâncias em frente a um quartel, um grupo de bolsonaristas enxergou nisso o sinal de que o ansiado golpe com que sonhavam estava em curso.

E assim foi com canetas Bic colocadas de um lado ou de outro da mesa. Posição de estátuas colocadas ao fundo de lives. Olhadas no relógio. Um vídeo de Carlos Bolsonaro espancando por alguma razão com o garfo uma gororoba que comia. Uma profusão de tentativas de interpretação do que não significava nada tão grande que o deputado Otoni de Paula (MDB-RJ), fiel bolsonarista, chegou a pedir a Bolsonaro que parasse de falar de forma cifrada porque isso estava sendo um sofrimento para o povo, uma “covardia”.

A cada dia, cai para mais um bolsonarista a ficha de que Bolsonaro não usou mensagem cifrada nenhuma. De que ele, desde que foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais, realmente fechou-se num eloquente mutismo.

A busca de mensagens cifradas para tentar justificar um golpe de Estado que não veio e que não virá são, na verdade, a demonstração final do maior erro de interpretação que o Brasil cometeu na sua história. Talvez maior mesmo que o golpe militar de 1964, que enterrou o país em mais de 20 anos de triste ditadura. Porque se daquela vez houve apoio de parte da população a um ato desfechado pelas Forças Armadas, em 2018 tratou-se de um erro totalmente cometido pela escolha de fato da maioria dos brasileiros.

Desde o primeiro momento da opção por Bolsonaro em 2018 até o lance final do seu embarque para Orlando, onde se hospeda na casa de um lutador de MMA que tem um quarto decorado de mínions (a piada pronta é o traço cultural brasileiro mais característico), tudo o que se refere a essa escolha é baseado no erro. Bolsonaro nunca foi o que os brasileiros enxergaram nele. Começou e terminou não sendo.

Na cabeça dos bolsonaristas, Bolsonaro era o militar que colocaria ordem na casa e terminaria com a bagunça da era petista. Na vida real, Bolsonaro quando se elegeu presidente não era militar há 30 anos. E tinha deixado o Exército após diversos lances de indisciplina. Ficou 15 dias preso depois que escreveu um artigo para a revista Veja (sim, essa revista calhorda da imprensa comunista) reclamando de salário. Depois, participou de uma trama para colocar bombas em quarteis, a Operação Beco sem Saída, com o objetivo de fazer as mesmas reclamações salariais e desestabilizar o comando do Exército. Bolsonaro chegou a ser condenado pelo Conselho de Justificação Militar (CJM), mas acabou ao final absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM). Mas foi para a reserva em 1988. Ou seja, nem militar nem o mais qualificado para colocar ordem na casa.

Na cabeça dos bolsonaristas, Bolsonaro poria fim à corrupção do PT e do seu presidente “presidiário”. Vimos no parágrafo acima que prisão era algo que também fazia parte da experiência de Bolsonaro. E denúncias de uso indevido de dinheiro público na prática de rachadinhas, funcionários fantasmas, já povoavam a campanha de Bolsonaro e de seus filhos antes das eleições de 2018. Depois, durante o governo, estouraram escândalos de corrupção no Ministério da Educação e suspeitas em negociações para a compra de vacinas no Ministério da Saúde.

Na cabeça dos bolsonaristas, Bolsonaro joga dentro “das quatro linhas da Constituição”. Bolsonaro passou quatro anos fazendo ensaios de afronta à Constituição. Na verdade, todas as atitudes mais duras tomadas pelo Judiciário, especialmente pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, são reações a essas tentativas de ultrapassar as “quatro linhas da Constituição”. Na verdade, o que os bolsonaristas pedem nas portas dos quarteis fere de morte as “quatro linhas da Constituição”. Não há uma vírgula da Constituição que justifique os atos terroristas acontecidos no dia da diplomação de Lula como presidente e a tentativa de explodir uma bomba próxima ao Aeroporto de Brasília na véspera do Natal.

Na cabeça dos bolsonaristas, o país deveria “passar a boiada” na legislação ambiental porque, desmatando mais, abriria mais espaço para a agricultura e a pecuária e, assim, cresceria mais economicamente. O Brasil perdeu negócios no mundo. Importadores pararam de comprar produtos agrícolas brasileiros pela falta de garantias de proteção ambiental na sua produção. Regras e legislações foram endurecidas. O país perdeu recursos do Fundo Amazônia.

Na cabeça dos bolsonaristas, a covid-19 era uma “gripezinha”, para a qual a vacina nada servia e que podia ser curada com o uso de cloroquina. Não foram poucos os que morreram acreditando nessa lorota. Bolsonaro decretou sigilo de 100 anos para a sua caderneta de vacinação. Até mesmo um aliado de Bolsonaro, o governador Ibaneis Rocha, declarou, em uma entrevista acreditar que Bolsonaro tinha tomado a vacina embora dissesse que não.

Na cabeça dos bolsonaristas, Bolsonaro surgiria, enfim, para evitar a volta de Lula e do PT ao poder. Bolsonaro perdeu as eleições. E, na verdade, nunca de fato tentou contestar o seu resultado. Deixou a ensandecida trupe bolsonarista tomando chuva em frente aos quarteis enquanto embarcou para a mansão do lutador de MMA para o seu confortável autoexílio.

Foram quatro anos em que o Brasil pareceu viver no mundo de “1984”, o romance de George Orwell, onde todos os sinais eram trocados. O Ministério da Paz promovia a guerra. O Ministério da Verdade tratava de propagar a mentira.

Certamente, durante ainda algum tempo muitos não conseguirão sair desse transe coletivo em que entraram. Seguirão enxergando sinais onde sinais não existem. Esperando por 72 horas que se tornarão cem horas e depois mil.

Aos poucos, porém, o Brasil retornará à normalidade. E as feridas dos quatro anos em que convivemos com o maior dos nossos erros serão uma cicatriz. Que seja larga, feia e visível para que para sempre nós possamos olhá-la e nos lembrarmos dela.

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