Onde os fracos não têm vez

POR GERSON NOGUEIRA

Dia de final de Copa do Mundo é seguramente um dos mais importantes do calendário universal. É quando todas as coisas se encaixam, as placas tectônicas se acomodam, só para ver dois times em luta. O planeta vira mesmo uma imensa bola de futebol. Entendi a grandeza do momento aos 12 anos, ao ver a Seleção tricampeã no México.

Sabia da façanha de 1958 pelos relatos de meu pai José, em Baião. Não tinha noção de nada em 1962, quando o impávido ataque botafoguense (+ Nilton) conquistou o bicampeonato. Vim saber e valorizar anos depois. Não me frustrei, felizmente, em 1966, pois o futebol era apenas mais uma das coisas desimportantes que eu tinha em vista.

Aí em 1970 tudo mudou, os portais se abriram e o Brasil bom de bola entrou em cena na minha percepção de moleque. Gênios. Pelé acima deles, um ser de outro planeta. Os coadjuvantes inspirados estavam todos lá. Gerson, Jair, Rivellino, Tostão. Um time sem centroavante, mas onde todos podiam exercer essa função.

Uma seleção que precisou achar um lugar para Jairzinho jogar porque ele tinha mais vocação para entrar pelo meio da área. Felizmente, deram a ele a ponta direita, de onde, como furacão, ele avançou para fazer gols em todos os jogos daquele Mundial. Um recorde, até hoje.

Fiz todo esse intróito, meti o passado glorioso na conversa, só porque estou mesmo é morrendo de inveja de argentinos e franceses, que mal devem ter dormido nos últimos dias, na expectativa febril deste grande dia, quando até as guerras são paralisadas. Ao meio-dia, será como aquela volta interminável do relógio no clássico western “Matar ou Morrer”.

Didier Deschamps e Lionel Scaloni têm a honra e o privilégio de comandarem seleções que sobreviveram às intempéries do deserto catariano e aqui chegaram para a disputa derradeira. Deschamps tem Mbappé e Griezmann. Scaloni conta com Messi e Álvarez.

Caso o menino prodígio Mbappé vença, será bicampeão do mundo, como Pelé em 1958 e 1962. Caso Messi saia vitorioso, não haverá nada a acrescentar, pois Messi já é um fora-de-série. E o mundo sabe disso.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda a atração, a partir das 19h30, na RBATV, com as participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense, direto de Doha, com um balanço da Copa do Qatar. Em pauta, os preparativos dos clubes para o Parazão e a Copa Verde. A edição é de Lourdes Cezar.

Benzema recuperado: treta ou guerra psicológica?

Uma briga mal resolvida parece estar por trás do entrevero de Benzema com a seleção francesa, particularmente com o técnico Didier Deschamps, que o deixou de fora do elenco que disputa a Copa depois que um exame médico detectou lesão considerada grave. O problema é que, duas semanas depois, o melhor atacante do mundo reapareceu lépido e fagueiro em jogo-treino do Real Madrid.

Ora, é claro que tem gato na tuba, como se dizia lá pelos idos de 1950. Benzema já havia sido descartado da seleção da França em 2018. Agora é excluído de novo, aparentemente de forma apressada, pois a recuperação foi rápida.

Com indisfarçado incômodo, Deschamps fugiu do tema na entrevista de quarta-feira, na concentração da França. Dembelé também fez cara de desentendido ao ser indagado. Parece haver uma nuvem de silêncio envolvendo o assunto dentro do escrete francês.

Na prática, como não foi oficialmente cortado da relação de jogadores, Benzema pode até jogar contra a Argentina, amanhã. Como o objetivo francês é o tricampeonato mundial, não seria nada absurdo se Deschamps deixasse o orgulho de lado e chamasse o centroavante para a decisão.

Duro mesmo é convencer o próprio Benzema, argelino de nascimento e um sujeito reconhecidamente de temperamento forte. Consciente das feridas históricas que envolvem Argélia e França, ele costumeiramente evita cantar a Marselhesa, o hino francês. Os companheiros gritam a plenos pulmões e Benzema fica ali, quieto, na dele. Um posicionamento político que desagrada muita gente no país do iluminismo.

Por outro lado, a simples perspectiva de que o camisa 9 pode ser uma arma secreta para a final deve estar deixando a cabeça de Lionel Scaloni em polvorosa. E se em cima da hora ele for escalado? É uma dúvida razoável, afinal um título importantíssimo está em jogo. Benzema, ontem, foi direto e reto nas redes sociais: “Não estou interessado”.

Há quem desconfie que tudo foi acertado entre Deschamps e Benzema, o que poderia abrir caminho para o retorno do jogador, a tempo de reforçar a esquadra francesa diante da Argentina de Lionel Messi. O problema é que a França já encaixou um sistema com Giroud funcionando bem como definidor e pivô. Mexer nisso agora poderia desarrumar o time. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 18)

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