Penúltimo dia da grande festa

POR GERSON NOGUEIRA

Cheguei a Doha na madrugada de 24 de novembro, a tempo de ver o Brasil estrear (mais ou menos) contra a Sérvia. Animado, tinha a sensação de que a Seleção, recheada de jovens atletas, podia finalmente dar o pulo tão sonhado e voltar à decisão depois de 20 anos. Ledo engano. Não deu nem para beliscar uma vaguinha na semifinal.

São cinco Copas com eliminações sucessivas perante seleções europeias. No que eles melhoraram tanto, se alguns de seus melhores times são fortalecidos por jogadores brasileiros? Por que a Seleção, por mais bem preparada (aparentemente), sempre amarela no funil das Copas? A cor da camisa – tão vilipendiada nas ruas – parece ter virado sinônimo de frouxidão.

Nem adianta ficarmos apelando para a memória vitoriosa dos anos dourados – lá vem o amarelo de novo. Copas de 58, 62 (aquela vencida pelo ataque do Botafogo + Nilton Santos) e 70. Tricampeonato no México, 52 anos atrás.

É uma façanha formidável que tenhamos alcançado a marca simbólica do tri há meio século enquanto os rivais de domingo, França e Argentina, lutam por ele só agora.

A contrapartida, porém, é dolorosa demais. Ao contabilizar 52 anos do tri no México, é obrigatório reconhecer que os tempos modernos não fizeram bem à Seleção e ao nosso futebol.

Surgiram novas potências. Em 1970, sem a miscigenação abraçada a partir de 1990, a França era um selecionado da quarta prateleira na Europa. Nos últimos 22 anos, porém, os Bleus se fortaleceram e passaram a liderar o continente europeu. Foram dois títulos nesse período e quatro participações em finais nas últimas sete Copas.

Nos anos 70, a Argentina nem sonhava em ganhar uma Copa. Ocupava-se com a Libertadores, ganhando quase todas, mas não achava jeito de formar um bom time para representar o país. Só em 1978, militares fazendo o diabo no país de Gardel e dando um jeito de levantar a primeira taça, sabe-se lá como – o Peru que o diga.  

Em seguida, veio o fenômeno Diego Maradona, e tudo mudou da água para o vinho. Afortunados, os hermanos perderam Dieguito, mas logo irrompe Lionel Messi, tão bom quanto e muito mais centrado, o que o torna mais valioso para a Seleção. Não ganhou uma Copa sozinho, como Maradona em 1986, mas está a caminho da primeira. Se vencer, terá vencido quase sozinho também, pois o time é pouco mais que mediano.

Além do crescimento de dois novos rivais – antes, a briga era com Itália e Alemanha – o Brasil vê uma geração inteira se perder em maneirismos da bola, inconsequências táticas e primarismos bobos. Um jogador do nível de Neymar perdeu a chance histórica de se ombrear a Romário e Ronaldo como vencedor de Copa. Dificilmente terá outra oportunidade.

Novos nomes surgem e assombram. A França terá Mbappé em alto nível por mais três Copas. A Argentina descobre esse estupendo Julian Alvarez.

Não se pode esquecer que países emergentes, como o incrível Marrocos, que hoje decide o terceiro lugar com a Croácia, estão pedindo passagem. E devem avançar muito mais na próxima Copa, com 48 seleções e incontáveis possibilidades.

Podia escrever várias teorias aqui, ainda em torno do assunto que nos incomoda e inquieta: o que fez o Brasil parar tanto no tempo, enquanto os outros progridem? A infinidade de explicações encheria de tédio o leal leitor que veio comigo até aqui.

Prefiro ficar com a tese de que o futebol é generoso, abrigando quem gosta dele e deixando de lado quem o espanca com a falta de ideias. Que venha a nova fronteira, trazendo africanos e asiáticos para abrilhantar a festa.

Natal traz um bom negócio para o Papão

O que se presumia, há dois anos, que era um mau negócio para o PSC terminou como transação satisfatória. O atacante Marlon, um dos artilheiros da Série C deste ano, atraiu o interesse do modesto Gil Vicente, da primeira divisão portuguesa.

O acerto foi bom para todas as partes. O PSC se viu aliviado recuperando o investimento feito no atleta e embolsando mais de R$ 1 milhão. Marlon, que aos 25 anos via se esgotar o prazo limite para tentar a sorte no exterior. E o Gil Vicente, que ganha um jogador ainda jovem e com possibilidades de evolução.

Vale lembrar que o time luso tem sido a porta de entrada para vários jogadores brasileiros, espécie de ponte para transferências mais vantajosas para os grandes clubes do país.

De boa técnica, capacidade de finalização de média e longa distância, como os europeus tanto apreciam, Marlon pode se dar bem no Gil Vicente. Basta reeditar o excelente desempenho da primeira fase da Série C 2022. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste sábado, 17)

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