Marrocos carnavaliza o futebol

POR GERSON NOGUEIRA

Andar por Doha é um desafio permanente quanto à localização de endereços, já comentei sobre isso aqui nas primeiras colunas sobre a Copa do Mundo. Existem ruas recém-criadas, porque a cidade vive em permanente construção. Nem o Google acha alguns lugares, nem os motoristas de uber conhecem. É preciso sair tateando para encontrar.

O povo é educado, gentil e prestativo quanto a informar e ajudar nas buscas diárias. Às vezes, esse périplo cansa um pouco, mas é um dos preços a pagar pelo privilégio de conhecer um país absolutamente exótico e diferente de todos os que já sediaram Copas do Mundo.

Por conta disso, ao tentar chegar aos vistosos cartões postais de Doha, o táxi tomou outro rumo e me conduziu por acidente à área próxima aos distritos onde vivem os operários dos estádios, gente que suou a camisa em situações inclementes para levantar as suntuosas arenas. Quase todos vivem em trailers estacionados ou em tendas ao ar livre.

Não é possível se aproximar ou entrevistar. Fica óbvio que os olhos da monarquia são tão eficientes quanto a segurança que as ruas oferecem, apesar da babel de povos. (A explicação se faz necessária em função de várias pautas sobre isso, sugeridas por leitores do blog).

Na véspera da semifinal Argentina x Croácia, um passeio pelo bairro de Souq Waqif permitiu descortinar um mundo bem diversificado. Ao contrário dos viadutos e espigões de aço e concreto, aqui é possível andar por vielas que oferecem cultura, aromas, artesanato, cantorias, sabores.

Em Souq Waqif tudo remete ao passado, às tradições catarianas, hindus e árabes. Um mercado gigantesco, maior que o nosso Ver-o-Peso, embora seja igualmente rico em surpresas para o visitante. Desde vendedores engalanados de chá de especiarias (com gosto de garapa) até artistas pintando em oficinas ao ar livre.

Nem todos aqui são nativos. Aliás, são poucos os nativos no Qatar – imigrantes são dois terços da população. Marroquinos, egípcios, etíopes, sauditas, nepaleses e paquistaneses são até bem comunicativos, mas esse fabuloso caldeirão ficou mais conectado por conta do futebol.

Em torno da saga de Marrocos reina hoje uma mistura profana, exposta ali em Waqif. Há um orgulho que invade as ruas, becos e até as modernas avenidas. Normalmente, o imigrante aqui é motorista de táxi, vigia, balconista, trabalhador braçal, mas todos pareciam estar à espera de um motivo para ir às ruas celebrar a alegria do futebol numa Copa que não lhes pertence – ingressos mais baratos custam 400 dólares.

Não festejam a Copa, mas cultuam a linda saga de Marrocos. A todo momento alguém surge com a bandeira vermelha estrelada de verde enrolada ao corpo. Vi isso em torno dos jogos de Marrocos, mas só entendi direito nos cortejos carnavalizados da noite de Souq Waqif.

E lá se vai mais um menino bom de bola

Bastaram seis jogos no time profissional para Endrick entrar na mira do Real Madrid, até ser negociado ontem por R$ 407 milhões. Um caminhão de dinheiro por um atleta de 16 anos, recém-saído das divisões de base e que pode ter o talento confirmado ou não. Só para se ter uma ideia da coisa, o valor desembolsado pelos espanhóis é superior ao dinheiro gasto por Ronaldo Nazário para adquirir o controle acionário do Cruzeiro.

Como a legislação impede que menores de idade joguem por times estrangeiros, Endrick só se apresentará no Santiago Bernabéu em julho de 2024. Até lá, ele seguirá jogando pelo Palmeiras.

Quando vejo negócios desse gênero, lembro que o futebol pode induzir a erros. Vários jogadores pelo mundo são descritos como craques e, com o passar do tempo, a previsão não se concretiza. Apesar disso, o Real resolveu arriscar, antecipando-se ao Manchester City.

Ao investir numa promessa como Endrick, o Real certamente já faz há algum tempo um acompanhamento minucioso do atacante. O desembolso de tanto dinheiro, sem retorno efetivo, só seria possível após um mínimo de segurança sobre as qualidades do atleta.

O fato é que o futebol profissional vem baixando a faixa etária dos jogadores. Cada vez mais, os grandes clubes buscam contratar o garoto e olham com desconfiança para o adolescente. Antigamente, a luta era para contratar jovens abaixo de 23 anos, limite máximo até o início da década de 2000, hoje uma idade considerada acima do ideal.

Os primeiros passos de Endrick foram promissores, mas sua imagem foi alavancada pela estupenda participação na última Copa São Paulo de juniores deste ano, quando marcou muitos gols e mostrou uma maturidade técnica rara em atletas iniciantes.

Seu cartel na base é impressionante: marcou 161 gols em 188 jogos. O tipo físico, forte e esguio, também ajuda. É capaz de disparar em velocidade, para desespero dos marcadores. Além disso, bem ao gosto do futebol europeu, muda de direção na corrida com extrema facilidade.  

É bom lembrar que, sem o êxito de Vinícius Jr. e Rodrygo, dificilmente a transação aconteceria. Ambos funcionam como selo de garantia. O Real sabe que o investimento em Endrick não é 100% seguro, mas confia na inesgotável usina brasileira de produzir grandes atacantes. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 16)

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