Eles têm Messi e muita garra

POR GERSON NOGUEIRA

Foram cinco lances agudos produzidos pelo ataque argentino em todo o jogo. Dessas jogadas surgiram os três gols da vitória, que se desenhou já no primeiro tempo depois que Lionel Messi e Álvarez marcaram e desarrumaram com a postura esquemática da Croácia. No segundo tempo, o craque irrompeu em jogada individual e deu um presente para Álvarez fazer o terceiro gol.

Um olhar apressado poderia enxergar um jogo vencido à base de oportunidades bem aproveitadas. É uma tese. Na verdade, a Argentina cedeu espaço para a Croácia nos primeiros 20 minutos. Era bola para lá, bola para cá e nenhum chute em direção ao gol de Martinez.

Modric fazia a atuação impecável de sempre, mas seus companheiros só giravam em torno dele, sem aprofundar os lances e facilitando o bloqueio defensivo da Argentina, que em alguns momentos se protegia com até sete jogadores atrás da linha da bola. Perisic, Kovacic e Kramaric eram os mais insistentes na troca de passes improdutiva.

Parecia um confronto destinado a ficar num 0 a 0 chato. Mas, de repente, um cruzamento na área alviceleste se transforma na primeira estocada séria do time de Lionel Messi. A zaga sai tocando de cabeça, a bola chega ao meio e dali é lançada espetacularmente por Enzo Fernández para Álvarez, pegando a última linha croata completamente aberta.

O centroavante entrou na área, ficou cara a cara com o goleiro e acabou trombando ao desviar a bola em direção ao gol. O árbitro dá o pênalti (que achei meio esquisito), Messi se apresenta e fuzila, sem chances para o goleiro Livakovic, que fechou o arco contra o Brasil.

Não demorou muito e lá vem a Argentina de novo. Lançado em profundidade entre os beques, Álvarez invadiu a área e enfrentou o combate de dois marcadores. O último era Modric, dando uma força lá na cozinha. Quis o destino que a bola tomasse caprichosamente o rumo dos pés do argentino, que só desviou para as redes.

Dois contra-ataques. Para um time que acumulava vantagens na posse de bola, a Argentina de ontem no Lusail foi surpreendentemente pragmática. Abriu mão de ficar com a bola, deixou com os habilidosos meio-campistas croatas. Lionel Scaloni intuiu que a Croácia cisca muito, mas não sabe de finalizar, tanto que avançou até as semifinais indo para as penalidades com Japão e Brasil, derrotando ambos.

O primeiro tempo terminou como os argentinos queriam. Placar de 2 a 0, adversário cabisbaixo e sem ânimo. No reinício do jogo, a Croácia foi para cima, mandou duas bolas perigosas na área argentina. Ficou nisso.

Aos 25 minutos, Messi assombra a marcação e mata o jogo. Pegou a bola na direita, gingou como Garrincha e colou a bola no pé. Com a faísca dos gênios, fez tudo isso atento à movimentação na área. Retardou ao máximo o passe, a tempo de encontrar Álvarez livre na pequena área. O toque saiu perfeito e a finalização também: 3 a 0.

A história da Argentina nesta Copa tem um desenho de felicidade, coroando a caminha de um time que é pouco mais que razoável, ganhando a grife de luxo pela presença deslumbrante de Messi no auge da disposição e da seriedade para buscar a maior conquista.

Foco, humildade, respeito, determinação, gana. Messi inspira os companheiros a jogarem cada vez mais, além de seus limites. Motiva Scaloni a ser criativo e a mexer no time que quase foi eliminado na fase de grupos, formulando variações interessantes, como a estratégia do contragolpe na vitória de ontem, com recorde de público em Copas (quase 89 mil pagantes). Temos um finalista – e com pinta de campeão.

Rumo ao tri, imprensa argentina se esbalda

A trepidante imprensa argentina se derrama em elogios a Lionel Messi e seus aplicados coadjuvantes. O Olé saiu com uma pérola, chamando de “delícia futebolística” o passe de Enzo Fernández para o primeiro gol de Álvarez, de fato uma pintura de lançamento.

Messi é reverenciado o tempo todo, quase um novo Dieguito, mas o trabalho de Lionel Scaloni não é esquecido. Suas mudanças, que levaram à barração de Di María e Lautaro Martinez, são aplaudidas. É o doce sabor do sucesso. “A um passo da glória”, cravou o site 442.

O tri já não parece um sonho impossível. Vale lembrar que os hermanos agora têm o mesmo número de finais que o Brasil, seis.

Mbappé & cia contra a audaz zebra marroquina

Depois de ver a sinfonia de Messi, estou ansioso por esta semifinal inédita entre França x Marrocos, programada para hoje à noite, no distante estádio Al Bayt. O barulho da torcida africana deve superar o que fez a apaixonada massa argentina no Lusail.

Ninguém apoia um time como faz a galera marroquina. Grita, berra e vaia incessantemente o adversário, perturbando e tirando do sério o mais frio dos jogadores. De qualquer forma, será o confronto entre a técnica dos franceses e o sólido sistema defensivo de Marrocos. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quarta-feira, 14)

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