Dois artistas da bola em ação

POR GERSON NOGUEIRA

A semifinal dos sonhos, hoje, no estádio de Lusail, seria Argentina x Brasil. Nem precisa disfarçar. O mundo esperava por um jogo assim há décadas. Talvez a Copa do Mundo não esteja preparada para isso. O fato é que a Seleção Brasileira não fez sua parte e estragou o que seria a mãe de todas as semifinais. A Croácia, na moita, chegou e se estabeleceu. A Argentina, mesmo com todos os problemas de um time desigual tecnicamente, cumpriu o script dos favoritos.

Diante disso, a coisa vai ferver no embate entre um time que se construiu a partir de um cracaço (Lionel Messi) e de uma seleção mediana que se transforma em temível a partir da liderança de Luka Modric.

Nas quartas de final, a Argentina quase protagonizou um papelão diante da Holanda, do marrento Van Gaal. Em menos de 10 minutos, conseguiu entregar dois gols e permitir uma prorrogação que parecia improvável. Nos penais, porém, a velha flama se mostrou viva. Um time interessante por essas facetas contraditórias. Ao contrário dos comandados de Tite, o gol de empate sofrido no final não abalou os argentinos na cobrança de penais.

Messi tem a ver com isso. Sua liderança técnica é indiscutível. O time joga por ele, isso fica claro na distribuição das jogadas, no esforço de marcação dos jogadores de meio para que o astro possa ter tranquilidade ao tocar na bola. Há uma reverência sadia. No Brasil, Neymar também é líder, mas sem a mesma influência sobre a forma de atuar da equipe.

Já foi dito, com razão, que a diferença fundamental nesta Argentina imperfeita é que Messi joga para o time e o time joga para ele. Uma sincronia de interesses e aspirações. Em determinados casos, pode se tornar um projeto de time campeão.

Na Croácia, há organização e método, mas o maestro é Modric, sempre passeando pelo campo sem funções marcadoras e cuidando de municiar os companheiros. Um craque a serviço da companhia. Discreto e capaz de simplificar os passes mais sofisticados.

Há arte nisso. Modric é um cultor do grande lançamento, um expert em passes, como tantos que o Brasil já teve – o Gerson de 1970 é o principal exemplo, mas Ademir da Guia também fazia das suas na Academia, assim como Dirceu Lopes no Cruzeiro campeão de tudo na década de 1970.    

Em 2018, quando foi escolhido o Melhor do Mundo da Fifa, Modric atraiu críticas daqueles eternos fanáticos por craques artilheiros. Muitos desprezaram a fina categoria com que o baixinho croata desfilou na Copa da Rússia. A escolha foi justa, o prêmio merecido.

Na sexta-feira traumática em que o Brasil dançou do Mundial, poucos tiveram tempo ou estrutura emocional para perceber o jogaço que Modric realizou, atuando de uma área à outra, sempre com a bola sob controle e sem errar um passe. Um esteta do futebol. Poucos se igualam a ele na arte de fazer o jogo girar e acontecer com tanta fluidez.

Vou acompanhar com atenção o choque entre esses dois monstros da bola. De suas decisões em campo vai depender o destino da semifinal. A única certeza é que o mundo terá o privilégio de ver frente a frente dois dos melhores jogadores que o futebol já produziu.

Mais do mesmo nos debates pós-fracasso

Constrange, pelo excesso de desinformação e chutes, o debate armado logo depois da queda do Brasil na Copa. É um tal de arranjar culpados, eleger responsáveis pelo fiasco e buscar motivos – os mais bestas possíveis – para justificar o desfecho negativo.

Nos últimos dias, já apareceu gente criticando os jogadores que pintaram o cabelo de loiro, como se a tinta fosse determinante para tantos gols perdidos ou para a amarelada nas penalidades.

Outros criticam a estratégia de deixar as famílias perto dos jogadores, um sistema muito utilizado por seleções europeias em todas as Copas modernas. Holandeses, alemães e ingleses vivem fazendo isso e ninguém sai esculachando a ideia como inoportuna.

O segundo passo é a discussão sobre o futuro comandante do escrete. Além dos defensores dos “professores” nacionais – Dorival Júnior, Fernando Diniz, Mano Menezes –, aparecem os fanáticos por técnicos lusos – Abel Ferreira, Jorge Jesus e até José Mourinho.

Em meio a isso, irrompe o debate surreal sobre o que deveria ser o treinador ideal e nomes cintilantes (como Carlo Ancelotti e Zinedine Zidane) entram na roda como uma sem-cerimônia que espanta. Há quatro dias, boa parte da mídia esportiva trata a possibilidade de um técnico estrangeiro como fato consumado.

Para quem conhece a lerdeza dos dirigentes da CBF é espantoso imaginar que da cúpula da entidade irá sair algum plano de mudança tão radical do futebol brasileiro e da Seleção. O fim da interferência na escolha de jogadores seria a primeira discordância séria com um técnico de prestígio internacional, imune a pressões rasteiras.

Por isso, os iludidos devem frear os sonhos de grandeza. O mais lógico é pensar que a Seleção continuará em mãos submissas e manipuláveis, como ocorre ininterruptamente há quase um século.  

(Coluna publicada na ediçã do Bola desta terça-feira, 13)

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