A dívida de uma geração

POR GERSON NOGUEIRA

A Copa acabou para o Brasil e também para uma geração inteira de jogadores, Neymar à frente de todos. É claro que em 2026 o camisa 10 pode vir a ser convocado ainda e até disputar o Mundial, mas seguramente não será mais protagonista ou candidato a isso.

Talvez chegue à Copa como um Cristiano Ronaldo, mas dificilmente conseguirá repetir a trajetória admirável de Lionel Messi, que se preparou para fazer de sua última Copa (esta) um acontecimento único, e está conseguindo.

Há cinco Copas, o Brasil não consegue chegar às semifinais dos mundiais. Coincidência ou não, é sempre eliminado por uma seleção europeia. Em 2006, na Alemanha, caiu diante da França. Na África do Sul, em 2010, não resistiu à Holanda. Em 2014, foi humilhado pela Alemanha. Na Rússia, em 2018, perdeu para a Bélgica.

Desses mundiais, Neymar participou dos últimos três. Saiu lesionado no meio da Copa de 2014, chegou fora da melhor forma em 2018 na Rússia e agora, finalmente, parecia pronto para disputar sua grande Copa.

Tudo conspirava nesse sentido. O Brasil pegou um chaveamento favorável e a chegada às semifinais era líquida e certa. Faltou avisar a Croácia.

Neymar sofreu uma entorse no tornozelo que o tirou de dois jogos, mas voltou bem contra a Coreia do Sul. Diante da Croácia, na sexta-feira, a expectativa era de que seria a consagração dele. O bonito gol, de pura habilidade, na reta final do jogo deu essa falsa impressão.

O problema é que a Seleção fracassou como conjunto e levou junto seu principal jogador. Neymar não fez uma partida primorosa, mas buscou o jogo o tempo todo e acabou achando o caminho do gol no momento mais difícil do confronto. Um erro bobo pôs tudo a perder.

Não apenas Neymar deve lamentar o desfecho ruim na Copa do Qatar. Outros jogadores da sua geração, como Daniel Alves, Casemiro, Marquinhos (foto acima), Danilo, Fred e Tiago Silva, saem perdendo. Com as mudanças que forçosamente irão ocorrer na Seleção esse grupo dificilmente terá novas oportunidades.  

Os mais jovens saem ligeiramente chamuscados, mas não descartados. Rodrygo, Vinicius Jr., Richarlison, Eder Militão, Alex Sandro, Gabriel Martinelli (que deveria ter entrado contra a Croácia), Raphinha, Antony e Paquetá estarão em condições de jogar daqui a quatro anos.

A dívida que fica junto à torcida é mesmo a da geração de Neymar, incluindo o grupo da fatídica Copa de 2014 no Brasil. Prometia muito, mas não conseguiu vencer nenhuma competição importante, a não ser disputas limitadas à América do Sul.

Bola na Torre

O programa começa às 19h30, na RBATV, com apresentação de Guilherme Guerreiro e participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião, direto do Qatar. Em pauta, as eleições no PSC e os preparativos do Remo para o Parazão. A edição é de Mariana Malato.

Uma voz discordante e incômoda, ainda bem

De postura militante como jogador, Casagrande não mudou um milímetro depois que deixou os gramados. Renunciou ao papel de ex-atleta conformado e domesticado. Ao longo do tempo, tem disparado corajosamente contra os reacionários que formam a imensa legião de atletas e ex-atletas, viciados em apoiar a estrutura ultraconservadora que controla o esporte mais popular do país.

Exceção por não se calar diante das patuscadas dos milionários que o futebol produz, Casão paga um preço alto. É frequentemente agredido de maneira sórdida, não com os mesmos argumentos que usa, mas sob a forma de condenação moralista e cruel à doença contra a qual segue lutando.

A pobreza de raciocínio de seus desafetos só evidencia o acerto do posicionamento do ex-atacante corintiano. Tem sido voz quase solitária na cruzada contra bizarrices como o jantar do bife de ouro, que Ronaldo Nazário e mais quatro jogadores da Seleção degustaram aqui em Doha.

Não fosse por ele o episódio certamente se perderia nas brumas da normalização, fenômeno típico de períodos de Copa, quando o país fica particularmente condescendente em relação aos “meninos da Seleção”. Casão não amaciou e deu ao fato o nome adequado: uma vergonhosa ostentação de meninos ricos, indiferentes ao drama da fome no Brasil.

Levou paulada de todo lado. Os últimos embates têm sido travados com Tiago Leifert, que representa o extremo oposto em termos de visão de mundo. O importante disso tudo é que Casagrande dá a cara a tapa, não foge dos debates e diz sempre o que pensa. É um personagem raro na pasmaceira do jornalismo esportivo brasileiro.

Aos poucos, uma fatia considerável do público começa a despertar para os alertas que ele faz. O novo fiasco da Seleção, que ele chegou a projetar, talvez faça com que seja ouvido e lido com mais atenção. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 11)

4 comentários em “A dívida de uma geração

  1. É Gerson, enquanto jogador brasileiro não aprender a ter disciplina tática, vamos continuar armagando esses vexames, ficar fazendo amistosos seleções da África, América central, paises sem representatividade nenhuma no futebol mundial, vamos aprender o quê? Nunva vamos ficar sabendo o nível de nossa seleção, e também o nível técnico e tático de nossos jogadores, para encarar os times europeus, nosso futebol e nossos técnicos não evoluíram em conhecimento, dependem muito da habilidade do jogador brasileiro, o duro disso tudo é ter que esperar mais quatro anos, copa do mundo é um torneio tão bom que deveria ser disputado a cada dois anos e no máximo três, fica aqui a minha expectativa que a CBF contrate um bom técnico estrangeiro, do nível tipo Guardiola, se vai dar certo o tempo dirá, mas pelo menos vamos sair da mesmice que há vinte anos temos tido com técnicos brasileiros sem títulos.

      1. SIM. Supondo (torcendo) que um treinador estrangeiro agirá com independência na convocação.

  2. NÃO é só futebol, segundo o Guerra.
    Tem a dancinha dos pombos, tem o estrelismo, tem o Adenor, tem a CBF, tem a carne folhada a ouro, tem o gato…

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