Não é azar; apenas despreparo

POR GERSON NOGUEIRA

A Seleção Brasileira sai da Copa depois de ser derrotada pela Croácia na série de penalidades. O jogo chegou a isso porque o Brasil, ganhando por 1 a 0 e com o jogo controlado, cedeu um inacreditável contra-ataque quando tinha a posse de bola e permitiu o empate a três minutos do fim.

Um olhar mais apressado pode gerar a avaliação de que o resultado final foi injusto, levando em conta as chances que o Brasil teve ao longo dos 120 minutos. Pressionou, levou mais perigo e criou os lances mais agudos no ataque, mas abusou do desperdício, o que é sinal de incompetência.

O problema é avaliar o quanto a Croácia tolerou a pressão meio caótica da Seleção e o quanto ela se armou para criar esse cenário. Desde os primeiros minutos, era visível a tranquilidade do time, sempre optando pelas soluções certas na saída de bola e nas tentativas de chegar ao ataque.

Aliás, raramente a Croácia passava da linha do meio-campo. O projeto era conduzir o jogo para a prorrogação e, se possível, para os penais. Em termos de execução, a estratégia foi perfeita, mas só deu certo porque o Brasil contribuiu infantilmente para isso.

Dispersivos, os atacantes da Seleção erraram praticamente todas as estocadas pelos lados no 1º tempo. Ponto forte da equipe, essa agressividade demanda esforço e precisa ter resultado prático.

No 2º tempo, a Seleção aumentou o ritmo, mas as chances iam surgindo e não eram aproveitadas. Vinícius e Raphinha foram substituídos por Rodrigo e Antony, mas o problema crônico da finalização persistiu, parando sempre nas mãos do bom goleiro Livakovic.

Sabiamente, a Croácia cuidava de proteger a linha de zaga e esbanjava categoria na meia-cancha, liderada por Modric. Não lhe interessava sair no desespero em busca do gol. Já a Seleção não acompanhava a movimentação do adversário, pressionava pouco e marcava mal.

Com isso, o experiente meio-campo croata teve todo o espaço para atuar confortavelmente. E, no momento de maior desconforto para eles, no segundo tempo da prorrogação, o Brasil achou de colaborar entregando a bola para o contragolpe fatal.

São detalhes que fazem a diferença no futebol. O jogo podia ter outro desfecho se o time não jogasse tão afoitamente quando ia à frente. Havia tempo para construir jogadas, mas a Seleção se perdia na afobação.

Em certo momento, olhando lá do alto da tribuna do luxuoso estádio Education City, me ocorreu que a torcida brasileira acreditou numa ilusão: a de que tínhamos um time suficientemente preparado para as adversidades e desafios de uma Copa. Vimos ontem que não tinha.

Costumamos atribuir à sorte ou azar resultados que contrariam as previsões. No caso da Seleção, só houve despreparo.

Um comandante que não deixa saudades

Há quem destaque as duas campanhas do Brasil nas Eliminatórias de 2018 e 2022 como um feito magistral de Tite. É um equívoco. Eliminatórias são etapas de classificação. O que vale mesmo é a Copa. E é preciso avivar a memória das pessoas. Tite foi o único treinador brasileiro a perder uma Copa América em casa – para os argentinos.

Foi também o único a ser derrotado por uma seleção africana em Copa do Mundo, ao escalar o fatídico time B contra Camarões. E igualou uma marca negativa que não rolava desde 1998, a de ser derrotado na fase de grupos.

Para agravar ainda mais as coisas, Tite convocou Daniel Alves (39 anos) para a Copa. Queria homenagear o lateral pelos seus bons serviços, coisa que nenhum técnico tem o direito de fazer numa competição tão importante, o que diz muito do estilo confraria que implantou na Seleção.

Seria difícil dar certo, como não deu. Em 2018, a derrota para a Bélgica aconteceu também nas quartas de final. A diferença ali é que os belgas tinham um belo time. Não se pode dizer o mesmo da atual Croácia.

A lição daquele jogo fatídico diante dos belgas parece não foi assimilada por Tite. A Seleção deixou o adversário, mesmo inferior tecnicamente, tomar conta de boa parte dos 90 minutos. Reagiu tarde, na prorrogação, mas entregou a rapadura a 4 minutos do fim.

Sem esquecer que o elenco tinha inéditos nove atacantes e, apesar disso, foi incapaz de fazer um gol em Camarões e ontem perdeu um caminhão de chances, consagrando o goleiro croata. A boa notícia é que a Copa do Qatar é a última de Tite e seu empolado dialeto particular.

Argentina supera desafios e vai à semifinal

Na finalização dos trabalhos aqui no Centro de Imprensa Fifa, ouço os gritos da torcida argentina, mostrada nos telões do Centro de Imprensa. Comemoração justa pela classificação à semifinal.

A seleção deles jogou com a tradicional valentia. Meteu dois, sofreu o empate, mas teve força mental para triunfar nas penalidades. E a torcida mais festiva da Copa não merecia mesmo ser despachada para casa mais cedo. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste sábado, 10)

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