Missão Qatar: anotações de um caboclo da Amazônia sobre o misterioso país da Copa

POR GERSON NOGUEIRA

Ainda não havia dedicado maior atenção, pelo menos aqui no blog, às peculiaridades do Qatar, sede da Copa do Mundo, a primeira a ser realizada no Oriente Médio. Tentarei hoje me redimir, relatando algumas das minhas observações ligeiras após 12 dias aqui em Doha, com direito a dados que ajudam a entender este belo e pequeno país. Para um cidadão acostumado desde muito cedo a conviver com desigualdades e exclusão social, o país lembra em muitos aspectos a realidade brasileira, embora de forma mais concentrada e menos exposta.

Mais rico país do mundo quanto ao PIB (produto interno bruto dividido pelo número de habitantes) per capita, segundo o FMI, o Qatar é um mar de prosperidade cercado por chagas socioeconômicas graves. O PIB do país foi de US$ 166 bilhões, em 2017, e o PIB per capita em torno de US$ 124 mil. Em consequência disso, o custo de vida é relativamente alto em comparação com outros países.

As fontes da riqueza qatari são o petróleo e o gás natural. O país detém 13% de todas as reservas de gás natural e é o terceiro maior produtor mundial do produto. A grandeza econômica veio com a extração e exportação de petróleo, cuja descoberta ocorreu em 1939, com produção a partir de 1949.

A opulência da arquitetura, com prédios de altura vertiginosa e linhas arrojadas, são a ponta de lança de um certo exibicionismo brega, feito de fato para impressionar visitantes. E, de fato, impressiona, assim como o desfile diário de carros luxuosos das principais marcas do mundo.

O contraponto disso tudo é a realidade dos lugarejos periféricos, com vilas paupérrimas e pessoas morando em tendas. Trabalhadores vindos de outros países – Índia, Nepal, Filipinas, Etiópia, Egito, Bangladesh, Irã e Paquistão, principalmente – formam o exército de trabalho por trás das tarefas básicas, como pequenos comércios, biroscas, serviços gerais, táxis e entregas expressas. Nada muito diferente do que se tem no Brasil.

O salário mínimo pago a essa mão-de-obra importada é, após a reforma trabalhista de 2016, de 1.000 rial (R$ 1.490,00). Os estrangeiros formam a maioria absoluta da população de 2,9 milhões de pessoas. A elite dominante, formada por famílias tradicionais, reúne pouco mais de 250 mil pessoas. Vale dizer que qataris nativos não pagam luz, água, educação e nem assistência médica.

A religião predominante é o islamismo, embora outras religiões (budismo e hinduísmo) sejam aceitas. As regras de conduta são rígidas quanto a manifestações políticas e exibições de afeto em público. Talvez por isso mesmo a população nativa mostre-se quase sempre arredia e silenciosa com visitantes.

Um rápido passeio de carro pelo centro de Doha desnuda um cenário de filme de ficção, com longos espaços sem que se veja ninguém nas ruas. O calor forte seria uma das explicações para o recolhimento, mas novembro e dezembro têm temperaturas quase normais, em torno de 33 graus. Não estranhei porque Belém é quase sempre mais quente do que isso. Em ambientes fechados ou mesmo nos estádios o ar condicionado está sempre no último nível.

Algumas regras são seguidas à risca e surpreendem os visitantes. A restrição a bebidas alcoólicas é bem conhecida de todos, mas outras proibições também geram desconforto. Fotos de templos religiosos, áreas militares e construções são terminantemente vedadas. Antes de qualquer registro fotográfico ou filmagem é preciso pedir autorização. Outra curiosidade é a ausência de carne de porco no cardápio.

O prato típico catarense é o majboo, à base de arroz, especiarias (curry e noz moscada), batatas e frango. Há variações do majboo com carne bovina, de carneiro e até de camelo. É preciso ter estômago forte, pois os alimentos são sempre muito condimentadas e com sabor picante.

Ao contrário do mundo ocidental, a semana aqui começa no domingo. Por isso, lojas e bancos costumam fechar às sextas-feiras. Uma outra dica: atenção para os detalhes dos endereços. Ruas, vilas, zonas e bairros têm numeração confusa, o que dificulta a localização até no Google Maps.

A monarquia absolutista e constitucional é o sistema político e o chefe de Estado é o xeque Tamim Bin Hamada Bin Khalifa Al-Thani, emir do Qatar. Ele é o quarto filho do emir Hamad Bin Khalifa Al-Thani e assumiu o trono em 2013, após a abdicação do pai. Críticas ao emir e gracejos com a bandeira do país são considerados crimes contra o país e punidos exemplarmente.

O sistema jurídico é todo pautado na Sharia, um conjunto de leis islâmicas que limita direitos femininos a questões religiosas. A palavra do homem vale sempre mais que a da mulher.

Por fim, um detalhe que chama atenção é a sensação de segurança nas ruas. A presença da polícia é discreta, mas os índices de criminalidade estão entre os mais baixos do mundo.

Ao mesmo tempo, o controle da mídia não permite que se obtenha informações seguras sobre mortes de operários que trabalharam nas obras da Copa. A Anistia Internacional e outras organizações denunciaram maus tratos de operários. O jornal The Guardian noticiou a ocorrência de 6.500 mortes, na grande maioria de trabalhadores que vieram do sul da Ásia.

(Com informações de site oficial do Qatar e BBC Brasil)

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