Nada de novo sob o sol do Qatar

POR GERSON NOGUEIRA

É mais ou menos consenso aqui, em Doha, que o futebol está definitivamente nivelado e raros são os times que conseguem agir fora do script manjado de saída pelos lados, cruzamentos na área e tentativas de chegar à linha de fundo. Não que essa receita seja ruim. Pelo contrário: o futebol dos primórdios apostava nesses atalhos para buscar o gol.

Com o passar do tempo, teorias começaram a ser criadas no sentido de sofisticar e impor método a um jogo que sempre encantou pela simplicidade. Surgiram então os esquemas táticos, configurações para tentar explicar como uma equipe se distribui em campo.

Ao mesmo tempo, por óbvio, apareceram também os teóricos, sempre prontos a oferecer um discurso compatível com a prática dos times em campo. Nem sempre isso significou avanço prático no sentido de melhorar e tornar o futebol mais interessante.

A primeira grande mudança, ainda nos anos 1950, fez com que o jogo priorizasse as ações ofensivas, com escalações que incluíam dois médios no meio-campo e quatro ou cinco atacantes. O Brasil foi quem mais se beneficiou, pela extrema habilidade de seus dianteiros. Isso ficou patente nas duas Copas vencidas em sequência, 1958 e 1962.

Nos dias de hoje, sem muitos segredos sobre como cada time se comporta em campo, quase todos se copiam e fingem se reinventar dando voltas em torno do próprio rabo. Depois que Rinus Michels botou em prática o conceito de futebol total, em 1974, que foi a última revolução visível no sistema de jogo, quase todas as equipes saíram a imitar o modelo holandês.

Quase ninguém conseguiu sequer chegar perto daquele combo de altíssima disciplina na marcação com temperos de pura técnica nas soluções em busca do gol. Além da necessidade de um preparo físico excepcional – só possível num torneio de curta duração como a Copa – faltava craque para executar a ideia. Vale lembrar que Michels tinha sob seu comando Johan Cruyff e vários excepcionais jogadores, todos engajados na causa.

Nos anos 2000, a Espanha descortinou um caminho novo. O toque curto em velocidade, repetido exaustivamente com o objetivo de confundir os adversários. Exigia, como na Holanda de Michels, condicionamento acima da média e jogadores qualificados. O Barcelona impôs esse conceito a partir do comando de Pep Guardiola, que nunca negou que a inspiração veio da observação dos timaços brasileiros dos anos 50/60.

Depois disso, nova onda de imitadores assolou o planeta futebol, mas pouquíssimos times – além do Barça e da seleção espanhola – conseguiram fazer da incessante troca de passes uma forma de imposição técnica.

Nesta Copa repleta de resultados surpreendentes um detalhe chama atenção: todas as seleções jogam de maneira mais ou menos parecida. Raras se distinguem na multidão. Quem consegue tem, em geral, dois ou três jogadores de alto nível, capazes de dar ordenamento ao caos.

Brasil, Argentina, França e Portugal são exceções, apresentando iniciativas criativas na busca pelo gol. Partem de seu campo com até quatro jogadores de frente e sabem utilizar dribles e inversões de posicionamento para o último avanço sobre a área. Fazem assim porque contam com atletas excepcionais – Vinícius Jr., Rodrygo, Di María, Messi, Mbappé, Griezmann, Bruno Fernandes, Cristiano Ronaldo.

Os demais times formam um exército cinzento, previsível na mimetização de estratégias, sem contar com executores capacitados. Contra a Argentina, a Polônia agiu exatamente assim, inutilmente. Saía tocando a bola, mas raramente completava três passes, perdendo-se em erros primários até no domínio da bola, sem jamais ameaçar o gol de Martinez.

Nesse jogo e no Brasil x Suíça, observei que o esforço dos times emergentes em imitar a distribuição de jogo e o formato dos favoritos não é suficiente para reverter a diferença de nível. Têm mais chance de surpreender os que se assumem franco-atiradores, como Marrocos, Senegal, Japão, Tunísia e Camarões – o Brasil que o diga.

Quem esperava por alguma revolução tática ou métodos mais inventivos nesta Copa, deu com os camelos n’água. O torneio é um desfile de obviedades em campo, com a velha ordem hierárquica prevalecendo:  quem tem craques quase sempre leva a melhor sobre os que têm apenas obreiros.

Bola na Torre

Giuseppe Tommaso comanda o programa, a partir das 19h30, na RBATV. Participação de Valmir Rodrigues e deste escriba de Baião, em entrada ao vivo direto de Doha (Qatar). Em pauta, preparativos e contratações dos clubes para o Parazão 2023 e as últimas da Copa do Mundo. A edição é de Mariana Malato. 

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 4)

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