Por uma vitória nível A

POR GERSON NOGUEIRA

A opção pelo time B para enfrentar Camarões abre espaço para jogadores que dificilmente teriam chance na Copa. Daniel Alves, Everton Ribeiro, Fabinho, Pedro e Brener dependeriam de uma situação emergencial entre os titulares para que fossem lembrados. De repente, jogando pelo menos um tempo, podem se cacifar junto ao técnico, fazendo até com que mude conceitos e resolva alterar suas preferências.

Este é o lado positivo da opção de Tite por lançar o time reserva em plena disputa de uma das Copas mais imprevisíveis dos últimos 30 anos. A quantidade de resultados inusitados é a maior em muito tempo, o que permite dizer que podemos ter uma final inteiramente fora dos padrões.

Dúvida mesmo fica em relação ao modelo de jogo a ser praticado contra Camarões. O time nunca atuou junto e os treinos durante a Copa, como se sabe, são recreativos, sem muita preocupação com rigores táticos ou ênfase em jogadas ensaiadas.

É bem possível que tenhamos um desfile de individualidades. Cada jogador tentando fazer o melhor para mostrar serviço ao técnico, sabendo que é a única chance para isso. Caso esse esforço particular contribua para a evolução coletiva, a decisão de prestigiar os reservas terá valido a pena.

Na hipótese de emergir do banco de reservas um time marcado pela desorganização, como foi a França diante da Tunísia anteontem, a repercussão negativa pode impactar na caminhada da Seleção na Copa. Não esqueçamos que é um time representando o Brasil, com a camisa do escrete, independentemente de ser suplente ou não.

A busca pelo entrosamento, tão fundamental em torneios curtos como a Copa, foi deixada de lado com a folga concedida por Tite. É legítimo questionar qual o time que vai enfrentar Uruguai, Gana ou Portugal? Se um dos reservas arrebentar hoje, como ficará o titular imediato? Mata-mata é um campeonato à parte, e requer frieza, método e experiência.

Tite viveu isso, na Rússia, contra a Bélgica. Na ocasião, também desfalcado de uma peça importante (Casemiro), a Seleção se perdeu em erros bobos por 45 minutos. Tempo suficiente para que o adversário impusesse um placar que não permitiu a reversão, apesar da reação brasileira na etapa final.

Tudo o que de melhor pode acontecer, hoje, é uma vitória com autoridade técnica, sem contestações e que não deixe dúvida quanto ao poderio do Brasil para avançar no torneio. Camarões, cuja força se baseia na correria, não pode deter a Seleção, nem mesmo esta, de formação postiça.

Que o time B conquiste uma vitória nível A.

Japão vibrante, Bélgica apagada, Alemanha decadente

Os deuses da bola voltam a aprontar nos gramados do Qatar. Alemanha e Bélgica pegaram o bonde para casa e a Espanha andou correndo riscos também. O fato é que times como Marrocos, Senegal, Austrália e Japão furaram a bolha das grandes seleções. Mais gente grande pode rodar ainda nas rodadas que restam pela fase de grupos.

Sobre o jogo entre espanhóis e japoneses, uma coisa chama atenção. A passividade com que o time de Luis Enrique aceitou a virada. Aí você pensa um pouco mais e vê que a Espanha se livrou de um cruzamento azedo nas oitavas (Croácia), vai pegar Marrocos e sai da alça de mira de Brasil e Argentina, além de ter ajudado a despachar um adversário forte, a Alemanha.

Não se pode falar que a Fúria entregou, mas ficou no ar um cheiro de manobra. Nada a ver com o belíssimo jogo do Japão, que saiu perdendo e foi inferior no 1º tempo. Reagiu, virou o placar e terminou vencendo com todos os méritos. Bem verdade que a Espanha não fez nada para tentar se erguer após sofrer o segundo gol. Enfim, coisas estranhas.

Já a Bélgica foi incompetente e não conseguiu superar a Croácia. Foi assim desde a estreia. Nada fez que justificasse a presença no Qatar. Tomou a vaga de alguém, mas não honrou a presença na Copa. Sua celebrada geração dourada chega a um fim melancólico. De Bruyne e Courtois ainda se salvam, mas os demais parecem ter dado adeus a dias gloriosos.

Curiosamente, os dois países que eliminaram o Brasil nas últimas Copas saíram ontem, de uma tacada só. A Alemanha frustrou o sonho do hexa na Copa de 2014 com a avassaladora goleada de 7 a 1 no Mineirão. A Bélgica despachou o time de Tite na Copa da Rússia, há quatro anos.

Dizem, sobre os alemães, que a surra histórica no Brasil teria contrariado os orixás da velha Bahia. A delegação alemã ficou num hotel paradisíaco de Santo André (BA) durante a Copa. Coincidência ou não, desde aquela sapatada nunca mais venceram absolutamente nada. “No creo en brujas, pero que las hay, las hay”, como dizem os espanhóis. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 02)

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