Homenagem na hora errada

POR GERSON NOGUEIRA

Tite elevou a participação do Brasil na Copa do Qatar ao nível de quermesse. Tributos e rapapés têm lugar apropriado para acontecer; Copa do Mundo, definitivamente, não é o palco adequado. O técnico vai aproveitar o jogo contra Camarões para homenagear (não se sabe por que) a Daniel Alves, convocado justamente com este propósito. Por superstição, sempre desconfio de propostas festivas em meio a uma competição tão importante.

Além de prestar reverência ao veterano, que será também o capitão da equipe, Tite decidiu escalar o time reserva, dando folga aos titulares após apenas dois jogos – Sérvia e Suíça. A não ser que os jogadores estivessem irremediavelmente estafados, não há sentido lógico em conceder descanso à seleção principal por tão pouco esforço.

Outra: o jogo com Camarões não é um mero amistoso. Vai determinar a primeira colocação do grupo, com efeito direto sobre o cruzamento das oitavas. Caso perca a partida, o Brasil poderá ter pela frente a forte equipe de Portugal, com Bruno Fernandes e CR7 à frente.

Preocupa a forma como o jogo é encarado pela comissão técnica. É como se fosse mero cumprimento de tabela, inspirando o descompromisso de botar os reservas em ação. Tudo bem que o time suplente do Brasil é tecnicamente melhor que boa parte das seleções presentes à Copa, mas há a questão do entrosamento, que pode fazer toda a diferença.

Enquanto o Brasil fará um jogo festivo, Camarões entrará em campo para buscar a vitória, pois ainda tem chances de classificação. O próprio fato de utilizar reservas passa, de certa forma, a ideia de soberba, sempre muito perigosa quando o assunto é futebol de alto nível.

As seleções têm pouco tempo para treinos durante a Copa. Por isso, jogos como o de amanhã são perfeitos para testar um ou outro jogador e também para fazer mudanças de ordem tática. Não mais que isso. Mexer por atacado não contribui para melhorar o rendimento do time titular, que foi bem na estreia, mas caiu de rendimento diante da Suíça.

Lembrei de 2006. Na Copa da Alemanha, depois de duas vitórias insossas, Carlos Alberto Parreira lançou um mistão contra Gana, preservando apenas parte dos astros. Meteu 4 a 1 e veio a sensação de que a Seleção estava pronta para decolar. Veio a França nas oitavas e todo mundo sabe o fim da história. Decolamos, mas de volta para casa.

Argentina vence e pega carne assada nas oitavas

A Argentina voltou a sobrar em campo, depois de ter derrotado o México na semana passada. E por 2 a 0, de novo. O adversário era a Polônia, que se limitou a dar caneladas e a tentar marcar, de forma atrapalhada, o time de Lionel Messi. O placar foi construído no segundo tempo, depois que o camisa 10 desperdiçou um pênalti na primeira etapa.

Uma consistente exibição coletiva salvou Messi do pelourinho. Coadjuvantes como De Paul, Mac Allister e Álvarez se encarregaram de conduzir a albiceleste à vitória e à classificação em primeiro no Grupo C em noite de pouco brilho de Messi e Di María.

Para um time que começou tomando virada da Arábia Saudita, a passagem às oitavas com méritos é a prova de que a longa invencibilidade de 36 jogos antes da Copa não é produto do acaso. Mac Allister abriu o placar logo no início do 2º tempo, batendo de primeira no canto direito da trave.

A Polônia se defendia feito barata tonta, chutando a esmo e atraindo a Argentina o tempo todo para sua área. Os gols só não saíram em maior quantidade porque Messi não estava em noite inspirada. Ainda assim, com participação dele, a bola chegou a Álvarez, que dominou entre dois zagueiros e mandou no ângulo para fazer 2 a 0.

Acompanhei o jogo para observar o nível de regularidade do time treinado por Lionel Scaloni, depois de ver a boa vitória sobre os mexicanos. Pode-se dizer que o sistema continua forte, bem sustentado nos volantes e meias, com destaque para De Paul, que assina praticamente todas as passagens de bola.

Ficou a impressão de que, se exigido, o time pode render mais. A fraqueza polonesa fez com que alguns jogadores exagerassem nos passes e firulas. Como terá pela frente nas oitavas a seleção da Austrália (sábado, 3, às 16h), um adversário de nível inferior, a tendência é que a Argentina cresça ainda mais na competição.

O jogo foi disputado no estádio 974, o mesmo que o Brasil está denunciando pelo gramado ruim. Mais de 44 mil torcedores (90% argentinos) compareceram. Quem não deu as caras foi o astro Lewandowski, perdido entre os zagueiros e sem receber nenhuma bola de seus limitadíssimos companheiros. 

(Coluna publicada na dição do Bola desta quinta-feira, 01)

2 comentários em “Homenagem na hora errada

  1. Jogar com time reserva, tendo o time titular em ótimas condições, só passa mesmo impressão de arrogância diante do time adversário. Isso é péssimo.

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