Jogo fraco, resultado forte

POR GERSON NOGUEIRA

Copa do Mundo é um torneio curto (sete jogos para cada time, no máximo), tão curto que Mané Garrincha em 1958 ficou espantado e tascou a frase imortal: “Que campeonato mais mixuruca”, chateado porque os jogos estavam acabando. É mais ou menos assim que todo mundo se sente num mundial. Os que jogam e os que trabalham em torno dos jogos.

Fiquei pensando nisso ao ver o Brasil garantir pelo menos quatro jogos na competição com a vitória sobre a Suíça, ontem à noite. Passou da metade da quantidade máxima, com a vantagem adicional de que poucas seleções já asseguraram classificação à próxima fase.

Busquei esse caminho no mais deslavado estilo nariz-de-cera para chegar ao que interessa: foi uma vitória e tanto sobre a Suíça. Sob qualquer ponto de vista, o Brasil só se deu bem. Siga meu raciocínio. O triunfo concede um tempo precioso a Tite para esperar Neymar.

Classificada, a Seleção não terá que se exasperar diante de Camarões, último adversário desta fase. Pelo desnível entre os times, Tite pode fazer experimentações importantes, principalmente na formatação do meio-de-campo, o grande nó deste time – e de quase todos os times do planeta.

Sem seu camisa 10, por enquanto, ele pode treinar no próximo jogo as variações e estratégias para as oitavas-de-final – que serão contra Portugal, Uruguai, Coréia do Sul ou Gana. Detalhe: ninguém consegue treinar a sério durante a Copa. São apenas brincadeiras de bobos, uso de campo reduzido e cobranças de faltas e penalidades.

Feito esse intróito, vamos ao jogo. O primeiro tempo foi nulo, com o Brasil girando em torno de si mesmo, sem conseguir agredir de verdade. Só Vinícius Jr. e Richarlison lutaram um pouco mais, assanhando a torcida Nutella que está por aqui. (Não temos torcedor-raiz para sustentar hinos de arquibancada; os argentinos, por exemplo, têm de sobra).

Como Paquetá errou muito, Tite lançou Rodrygo no segundo tempo, o que deixou o time menos previsível. Driblando, avançando e forçando jogadas em cima dos grandalhões da defesa suíça, ele criou momentos interessantes, com a participação de Vinícius e Anthony, que havia substituído o improdutivo Raphinha.

Vinícius fez um belo gol, unindo velocidade e pontaria, mas o VAR, esse estraga-prazeres, foi lá e acusou o impedimento milimétrico. Minutos depois, quando o desespero já batia à porta, outra jogadinha de Rodrygo e Vinícius deu a Casemiro a chance de disparar. Ele pegou em cheio na bola, sem defesa para o goleiro suíço e a situação estava resolvida.

Rodrygo ainda teve o segundo gol nos pés, mas a defesa interceptou na hora H. O jogo terminou festivamente, nem poderia ser diferente, mas um olhar mais ponderado recomenda que os próximos dias sejam de trabalho intenso para corrigir falhas que serão fatais na fase eliminatória.

A pergunta que não quer calar: Neymar fez falta? 

Sim, é um jogador de grandes recursos técnicos e habilidade acima da média. É nosso principal craque porque abre espaço nas linhas inimigas ao insistir sempre no drible. Particularmente, acho que faria mais falta ainda se prendesse menos a bola, mas aí já é um outro papo.

Passar da primeira fase era a meta inicial da Seleção. Conseguiu isso e agora precisa estar à altura dos desafios e perigos da segunda.

Portugal vence com brilho, Gana e Espanha se destacam

Ao todo, 27 seleções ainda estão brigando para se classificar nos diversos grupos do Mundial. Algumas, porém, ganharam fôlego nas rodadas recentes. Portugal passou como um foguete sobre Uruguai (2 a 0) e está com jeito de que pode ir longe, até porque tem Cristiano Ronaldo – e, ainda por cima, mordido com o United, o que o torna mais perigoso ainda.

Gana meteu 3 a 2 na Coréia do Sul e desponta como melhor time africano, embolando a briga no grupo H.

O mesmo deve ser dito sobre a Espanha, apesar do empate diante da Alemanha no domingo. O que chama atenção é o jogo consistente da equipe treinada por Luis Enrique, ex-ídolo de Barcelona e Real Madrid.

Craque belga não engoliu prêmio sem merecimento

O ‘Troféu Sincericídio’ da Copa até o momento é todo de De Bruyne, o talentoso meio-campista belga, que não hesitou em questionar sua escolha como melhor do jogo na partida contra o Canadá.

“Deve ser por causa do meu prestígio”, disse, aparentemente sem entender o motivo da distinção. Foi um dos jogos mais apagados de De Bruyne pela Bélgica, que ainda assim venceu por 1 a 0 a fraca esquadra canadense.

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 28)

Missão Qatar: com embaraços, Seleção mata no final e garante classificação antecipada

POR GERSON NOGUEIRA

Não foi a atuação esperada. O time parecia sem pegada, cercando a área suíça de longe, o que dificultava ataques contundentes. Teve uma boa chance no primeiro tempo com Vinícius Jr. Passou um ligeiro aperto no início da segunda etapa, mas começou a se erguer quando Vinícius Jr. balançou as redes. O gol acabaria anulado pelo VAR, mas teve o efeito positivo de fazer o time despertar da sonolência. Já na reta final do jogo veio a jogada com Rodrygo, Vinícius e Casemiro, culminando com o disparo forte do volante para o fundo das redes.

É importante observar que a Seleção, mesmo sem jogar bem, foi superior ao time da Suíça, armado claramente para buscar o empate. A vitória adquire contornos mais expressivos porque significa uma evolução em relação a 2018, quando na segunda rodada o Brasil tinha conquistado apenas 4 pontos. Desta vez, já soma 6 pontos, está garantido nas oitavas e pode fazer um jogo de experimentações contra Camarões.

Depois disso, Rodrygo recebeu assistência perfeita de Vinícius, mas a zaga suíça interceptou o chute. O Brasil terminou o jogo em alta, com o time agressivo e insinuante, como é a vocação natural dos garotos que Tite tem à disposição para o ataque. Anthony entrou muito bem na direita, fazendo com que Militão entrasse no jogo ofensivo também.

Neymar fez falta? Claro que sim. Um jogador do nível dele sempre faz falta a qualquer equipe. Mais ainda na Seleção, onde ele concentra as jogadas no meio e sai com a bola, tentando abrir caminho entre os marcadores. Esse estilo, criticado pelos excessos costumeiros, tem o mérito de forçar as equipes adversárias a usarem dois, às vezes três, jogadores para tentar anular o camisa 10. Ao agir assim, sobra espaço para os demais atacantes brasileiros. Isso ficou patente na partida de ontem.

Há uma alternativa óbvia para substituir Neymar com um mínimo de conhecimento sobre a função. Everton Ribeiro comeu a bola na temporada, conduzindo o Flamengo a grandes vitórias. Dificilmente, porém, será aproveitado porque o técnico não confia em jogadores que não passaram pelo crivo técnico das competições europeias. Por esse critério, Everton e Pedro – outro que podia ter entrado – não têm grandes perspectivas de entrar em campo.

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Alguns outros aspectos da noite no 974 me chamaram atenção.

Primeiro, o silêncio angustiante da torcida nos momentos difíceis vividos pela Seleção no primeiro tempo, quando a insistência não era suficientemente forte para superar a forte marcação suíça. Confirma a velha tese de que torcedor brasileiro em Copas do Mundo não é o mesmo que frequenta estádios no país, apoiando seus times. No Qatar, é pior. Só estão aqui os abonados, que não sabem como torcer direito. Isso faz uma enorme diferença, pois futebol exige interação entre campo e plateia. Os argentinos, sábado, em Lusail, fizeram um carnaval nas arquibancadas; os mexicanos também. Não temos torcida que saiba incentivar quando é necessário segurar a onda. A explosão só vem com o gol.

Outra curiosidade: que estádio diferente, inteligente e bem idealizado é este 974. Todo construído com contêineres, é uma verdadeira obra de arte, uma instalação gigante. O problema, que já tinha se manifestado na África do Sul (em 2010) é as superdimensionadas distâncias entre rampas de acesso e portões de entrada. Cerca de 12 quilômetros entre o estacionamento e a primeira guarita de acesso. Penei para chegar aos portais que levam à tribuna de honra, suando como um maratonista.

(Ah, pela primeira vez em Copas, o Brasil venceu a Suíça. Antes, em 1950 e 2018, s jogos terminaram empatados. Não é nada, não é nada…)

Crédito de imagem: Robert Cianflone/Getty Images

Brasil x Suíça: um paiol de incertezas

POR GERSON NOGUEIRA

As dúvidas que pairam sobre a escalação da Seleção para o confronto desta noite (19h, no Qatar; 13h no Brasil) contra a Suíça se estendem das cercanias da concentração brasileira em Doha até a massa torcedora. Líder do Grupo G, após uma estreia auspiciosa, o escrete de repente mergulhou no perigoso terreno das incertezas.

Sem Neymar e Danilo, lesionados com gravidade diante da Sérvia, Tite terá que dar tratos à bola para reorganizar o setor de meio-de-campo, com efeito direto sobre o formato ofensivo. Tudo o que foi cuidadosamente projetado para a Copa do Mundo caiu por terra quando Neymar teve que ser excluído – e ainda corre risco de corte.

Tite terá que achar solução para um problema que tangenciou na convocação. Levou um único reserva para o setor de criação. Everton Ribeiro, de excelente desempenho na temporada do Flamengo, mereceu ser chamado, mas é daqueles jogadores convocados para não jogar. Parece incoerente – e é –, mas acontece sempre em mundiais de futebol.

A condição de jogador que veio ao Qatar para enfeite fica mais ou menos óbvia quando as especulações sobre o substituto de Neymar jamais incluem o meia rubro-negro. Já se fala até em Rodrygo numa função mais centralizada, que ele não costuma executar, mas Everton não entra nas especulações. Outra hipótese é a entrada de Fred, com o adiantamento de Paquetá para o papel de meia ofensivo.

É bem provável que Tite não abrace a ousadia, mas seria interessante ver em campo um time com Casemiro, Paquetá, Rodrygo, Raphinha, Richarlison e Vinícius Jr. Os treinos não definem nada, pelo menos aos olhos dos repórteres e analistas, condicionados a ver um curto período de movimentação, não mais que 15 minutos.

As anotações sobre a Suíça irão determinar se Tite banca Daniel Alves ou se opta por Militão. Daniel foi premiado com a convocação pelo passado de vitórias, mas na letra fria do jogo não tem mais pulmão e nem pernas para suportar um ponteiro arisco e rápido.

Desconfio, não mais que isso, de uma escalação ligeiramente diferente. Rodrygo entra de cara completando o triângulo no meio, com Paquetá exercendo as mesmas tarefas de auxílio a Casemiro na marcação. Na lateral, para não dar a mão à palmatória, o técnico começa com Daniel Alves, apesar dos perigos que envolvem essa escolha.

Zebra faz estrago e Argentina volta a respirar

Lionel Messi não precisou dar show. Muito marcado, valeu-se de um pequeno espaço em frente à área para encaixar o chute perfeito, abrindo caminho para a vitória sobre o México, no sábado à noite, em Lusail. Clima de decisão, torcidas delirantes, brigas dentro e fora e um futebol de alta intensidade, impressionante.

Aliás, foram 90 minutos de velocidade, marcação e disputa por cada metro do terreno. O México começou insinuante, a Argentina sentia o peso da responsabilidade de precisar vencer a qualquer custo.

Tudo mudou depois do belo gol de Messi, que me pareceu defensável. A inferioridade técnica dos mexicanos ficou mais exposta e o segundo gol veio naturalmente, através de Enzo Fernández. 

O triunfo foi um alívio, mas o perigo não cessou por inteiro para o time de Lionel Scaloni. Terá que vencer a Polônia para não depender do resultado do embate entre sauditas e mexicanos.

E a zebra voltou a passear com Garbo, ontem. Marrocos meteu 2 a 0 numa Bélgica anêmica e apática. 

À noite, Espanha e Alemanha fizeram um jogo digno da grandeza de suas histórias.

Glória e respeito aos gênios imortais

Chico Buarque e Gilberto Gil, gênios inquestionáveis da música brasileira, foram covardemente insultados neste fim de semana, de modos diferentes e igualmente inaceitáveis. 

Sorte que, como diz a letra imortal de Chico, vai passar. Falta pouco.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 28)