O dono do jogo não é um tonto

POR GERSON NOGUEIRA

Quiseram os deuses da bola que o herói da estreia brasileira em gramados do Qatar fosse um jogador em evolução constante nas quatro linhas e um cidadão exemplar perante a vida. Humilde, pouco dado a arroubos marqueteiros. Richarlyson foi o jogador que mais batalhou – com as armas do mérito – para ser convocado. 

Sofreu uma contusão grave a um mês do Mundial. Recuperou-se a tempo de mostrar que era de fato uma peça extremamente útil. No jogo de ontem, ele custou a ser acionado. Marcado em cima por dois grandalhões sérvios, parecia irritado com a dureza dos embates. 

Veio o segundo tempo e a persistência foi premiada com sobras. Vinícius Jr., segundo melhor da Seleção, deu o tapa que obrigou o goleiro a espalmar. Como um legítimo centroavante-raiz, Richarlyson meteu o pé e estufou as redes.

Não demorou muito, lá vem Vinícius de novo entortando os marcadores. Deu uma freada e cruzou à meia altura. Na medida certa para Richarlyson aparar a bola no ar e emendar um voleio sensacional. Gol mais bonito da Copa até agora. Brasil 2 a 0.

O povo comentava perto de mim na tribuna de imprensa só estádio de Lusail que Richarlyson roubou a festa que, presumivelmente, estava preparada para Neymar. Com instinto matador que todo atacante deve ter, teve lampejos de Benzema e atitude de Ronaldo Nazário.

Quanto a Neymar, apesar do esforço, esteve abaixo de pelo menos cinco jogadores ontem. Tiago Silva, impecável na dura missão de  conter o ataque sérvio; Casemiro, sozinho como protetor da zaga; Paquetá, eficiente como segundo volante e disciplinado como meia de aproximação; Vinícius Jr., audacioso como sempre; Raphinha, único pecado foi o gol perdido no primeiro tempo; e Richarlyson. Por tudo o que já foi dito.

Neymar segue precisando conter os impulsos pela firula. Nem foi tão mal na partida. Chato é perceber que aprecia esse jogo de choque permanente com os marcadores e não tem a menor intenção de mudar o repertório. Renderia mais se usasse a técnica privilegiada a serviço do coletivo. 

Rodrygo e Gabriel Martinelli, apesar de pouco tempo em campo, mostraram que podem ser úteis nesta Copa. São inventivos e, acima de tudo, imprevisíveis. Nada mais moderno do que não ser previsível. 

Ah, sobre Richarlyson, cabe acrescentar que é um dos poucos jogadores da Seleção com cérebro antenado e que não deixa o pagode ser a única preocupação extracampo. Defendeu publicamente a vacina, o SUS e a ciência durante a pandemia. No país do ódio e da desumanidade, não foi pouca coisa.

Gente (ou ausência de) sempre faz a diferença

Desde que desembarquei no Qatar, ontem pela manhã, tenho procurado observar a cidade. Os hábitos e as pessoas, principalmente. É pouco tempo ainda, mas algo chama logo atenção. Há pouca gente caminhando nas ruas. O calor é a razão natural, embora eles tenham agora refrigeração brotando até do chão.

Fiquei imaginando como serão os papos entre vizinhos, amigos. Na verdade, deu tristeza ver que essas histórias talvez não existam na cultura qatari, e ninguém tem nada a ver com isso. Mas, para um paraense típico, isso soa estranho e irreal.

As construções carregam no tom clássico, até em simples residenciais populares. Não há distinção ou variação de cores. No máximo, as cores em tom pastel aparecem em prédios públicos ou comerciais.

O transporte é ágil e moderno, as ruas são limpíssimas, não há poluição visual e todas as vias são muito bem sinalizadas. 

O distinto leitor deve estar a se perguntar: qual o problema afinal? Bem, talvez seja essa mania de achar que gente é o que importa.

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 25)

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