Forças de segurança desmontam o acampamento bolsonarista na Almirante Barroso

As barracas e estruturas instaladas por manifestantes golpistas, na avenida Almirante Barroso, em Belém, começaram a ser desmontadas na tarde desta terça-feira (8). Eles montaram o acampamento, em frente ao 2º Batalhão de Infantaria da Selva (BIS), horas depois do segundo turno das eleições presidenciais, no dia 30 de outubro, que terminou com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Inconformados com o resultado, eleitores bolsonaristas decidiram acampar nas calçadas do II BIS, chegando a bloquear uma das pistas da Almirante Barroso.

A retirada ocorreu após a notificação dos manifestantes pela Prefeitura de Belém. A Polícia Militar e a Guarda Municipal de Belém foram acionadas para dar apoio e comunicar ao grupo que a permanência deles no passeio público não poderia continuar, principalmente depois das cenas agressivas e violentas de manifestantes bolsonaristas contra estudantes do Colégio Pedro Amazonas Pedroso, no começo da tarde de segunda-feira, 7.

Após rápida comunicação, por volta das 14h30, os acampados tiveram que retirar seus utensílios e móveis enquanto servidores da PM e policiais militares retiravam as estruturas das barracas. Pela Prefeitura participaram da ação a Guarda Municipal de Belém (GMB), Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (Semob), Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb), pela Organização Pública, e Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan). A Guarda atua em conjunto e na linha de frente da força-tarefa com 20 guardas municipais dos grupamentos de Ações Táticas (GAT) e Ações Táticas Com Cães (Atac).

Além disso, o grupamento motorizado, Ronda da Capital, está de prontidão para qualquer eventualidade. A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Segup) integra a ação efetiva por meio da Cavalaria e da Polícia de Choque da Polícia Militar do Estado do Pará (PMPA). A sala de controle e monitoramento da Segup conta também com a presença do inspetor-geral da GMB, Joel Monteiro, o subchefe da Divisão de Operações da GMB, Élcio Vale, deliberando ações conjuntas, e também da superintendente da Semob, Ana Valéria Borges. 

PREFEITO: COMUNICADO

Ainda na manhã de terça, 1º, o prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, em comunicado nas redes sociais, afirmou que a Prefeitura vinha trabalhando, em conjunto com as demais autoridades, para garantir a livre circulação na capital paraense. “A democracia garante a todos e todas o direito de livre manifestação. Mas violência e vandalismo com interesses obscuros devem ser coibidos pela lei. Apoiamos a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que ordenou o desbloqueio das rodovias para evitar maiores prejuízos à população”, enfatizou o prefeito Edmilson.

(Com informações da Agência Belém/PMB e Diário do Pará; fotos: Mácio Ferreira/Agência Belém/Comus)

Lula prepara “revogaço” de decretos de Bolsonaro

Nem Auxílio Brasil, nem aumento do salário-mínimo. A primeira medida do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao assumir o governo em janeiro deve ser um “revogaço” atingindo decretos e sigilos baixados ao longo de quatro anos pelo presidente Jair Bolsonaro (PL). Em sua maioria, as medidas que serão revogadas lidam com acesso a armas de fogo, restrição ao combate a crimes ambientais e sigilos de cem anos impostos a uma série de informações do governo. Por serem atos dos Executivo, podem ser feitos sem negociação com o Congresso. “O compromisso expresso na campanha foi revogar decretos que facilitam o acesso a armas e munições”, afirma o deputado Paulo Teixeira (PT-SP). (Globo)

De volta de um descanso na Bahia, Lula se reúne hoje, em São Paulo, com o vice eleito Geraldo Alckmin, coordenador geral da equipe de transição, e com a presidente do PT, Gleisi Hoffmann. Um dos principais temas da conversa será a estratégia para viabilizar promessas de campanha, como a manutenção do Auxílio Brasil em R$ 600. Lula deve ir a Brasília amanhã para visitas de cortesia aos presidentes da Câmara, do Senado, do STF e do TSE. (Poder360)

A composição completa da equipe de transição deve ser anunciada ao longo desta semana, mas três nomes já foram convidados para integrar o núcleo sobre economia: o ex-presidente do BNDES Pérsio Arida, André Lara Resende – os dois criadores do Plano Real – e Guilherme Mello, um quadro técnico do PT. Resende e Mello já aceitaram o convite. (Globo)

Lula tem dito a interlocutores que não pretende nomear para seu ministério pessoas que participarão da transição, revela Igor Gadelha. Na avaliação dele, este grupo estará na “linha de tiro”, podendo chegar a um ministério já em desgaste. Alckmin, Gleisi e Aloísio Mercadante podem ser exceções à regra. (Metrópoles)

Outra preocupação na composição do ministério é não enfraquecer a base do governo no Senado, especialmente após a eleição de nomes simbólicos da direita. Lula quer ter em sua equipe, por exemplo, Flávio Dino (PSB-MA), Wellington Dias (PT-PI) e Jaques Wagner (PT-BA), mas teme tirar esses políticos experientes do Congresso de deixar suas vagas a cargo de suplentes. (Folha)

E por falar… Em ministério, aliados da senadora Simone Tebet (MDB-MS) são contra ela assumir a Agricultura, apesar de seus laços com o agronegócio, conta Guilherme Amado. Eles consideram que essa pasta “anda sozinha”, dando pouca visibilidade ao ocupante. Sem mandato a partir de janeiro, ela precisaria de um cargo como boa exposição política, como Educação, Cidadania ou mesmo Meio Ambiente. (Metrópoles)

PEC EM DISCUSSÃO

A equipe responsável pela transição de governo decidiu usar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para garantir a manutenção do Auxílio Brasil em R$ 600 e o aumento real do salário-mínimo. O texto será apresentado ao presidente eleito Lula. Setores na base do futuro governo defendiam o chamado Plano B, a liberação de recursos através de uma Medida Provisória com aval do Tribunal de Contas da União, sem passar pelo Congresso. “A PEC dá mais segurança jurídica e política ao país”, disse o deputado José Guimarães (PT-CE) após a reunião com o vice eleito Geraldo Alckmin. A palavra final, porém, será mesmo de Lula. (Estadão)

O debate sobre a PEC e o Plano B é, na verdade, uma disputa sobre a negociação ou não com o Centrão. Ontem, um dos expoentes do grupo, o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), criticou a solução via TCU, dizendo que uma MP tornaria o Congresso “órgão acessório” do tribunal, quando a lei determina o oposto. Nogueira coordena a transição pelo lado do governo Bolsonaro. Pelo outro lado, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) voltou a criticar a PEC, afirmando que seu único objetivo é perpetuar o Centrão no poder. Renan tem um interesse pessoal na disputa, já que uma das exigências do Centrão seria o apoio de Lula à reeleição de Arthur Lira (PP-AL), inimigo político do senador, para a presidência da Câmara. (Poder360)

(Foto: Ricardo Stuckert)

A imensa lista de agradecimentos (sim, eles existem) ao genocida mequetrefe

É VERDADE QUE ele não foi muito feliz na condução da pandemia, da economia, da educação. Também é verdade que ele não costuma se responsabilizar pelo próprio governo, atribuindo a culpa da inflação, do desemprego, do preço alto da gasolina, de mercúrio retrógrado, etc. aos governadores, à imprensa, ao tempo, ao vírus, ao Congresso, ao Senado. É igualmente real que, sob seu governo, o país tenha atingido recordes de desmatamentos, que a carcaça de frango tenha virado item valorizado no supermercado e que a população vivendo com fome tenha, tristemente, aumentado.

Mas é preciso reconhecer – seja você de esquerda, progressista, liberal, social-democrata, centro-direita, conservador raiz ou nutela, etc. – que Jair Bolsonaro fez muito pela população brasileira.

Ouso dizer: fez por esse povo o que nenhum outro/outra chefe de estado já fez.

Quando falei a respeito com algumas pessoas, várias concordaram comigo e me lembraram de agradecer ao comandante do executivo por benesses das quais eu não recordava. Decidi reunir algumas dessas manifestações de gratidão ao presidente, e não é a sua baixa popularidade que vai me impedir de fazer isso publicamente.

Primeiro eu agradeço a Bolsonaro por finalmente ter acabado com a disseminada e internacionalizada ideia de que vivíamos em um país cordato e pacífico, onde violência era problema mesmo de morro e “comunidade”. Graças ao presidente, o mundo inteiro entendeu que boa parte daquele povo sorridente que lotava a Disney, fazia enxoval em Miami e queria “educação padrão Fifa” gosta mesmo é de segurar uma arma na mão, e não uma caipirinha.

Graças a Bolsonaro, identificamos como apesar de toda nossa óbvia mistura – realizada fortemente na base do estupro, como mostra esta pesquisa – há tanta gente evocando “pureza da raça”, fazendo apologia ao nazismo e fundando células criminosas como nunca antes neste país.

Eu agradeço a Bolsonaro por desmistificar a ideia de que as Forças Armadas são eficientes e estão a serviço do país. Por expor que boa parte do comando militar não atua pelo patriotismo, pela defesa da constituição ou soberania, e sim em benefício próprio, mirando a manutenção e multiplicação de seus benefícios. Por evidenciar que as FFAA são demasiadamente partidarizadas, com direito a general subindo em palanque sem ser constrangido pelo ato ilegal.

Eu agradeço a Bolsonaro por ter mostrado que, ao contrário do que se pensava, nunca fomos fruto de uma miscigenação festiva e requebrativa. Acabou-se o papo de que “somos todos iguais”, que “alma não tem cor” e que a empregada “é como se fosse da família”. Quando o presidente chama cabelo crespo de um negro de “criatório de baratas” e que “nem para procriar o quilombola serve mais”, ele expõe e finalmente libera esse racismo recalcado de nossa linda nação, aquela que ainda não superou dividir sala de universidade com gente preta ou pagar direito trabalhista a doméstica.

Eu agradeço a Bolsonaro por ser uma espécie de Marie Kondo de nossas relações sociais: ele nos ajudou a definir melhor como e com quem gastar nosso tempo, nossa energia e nosso amor. Agradeço a Bolsonaro por ele ter nos feito entender que parente não é necessariamente família, e que não é por compartilhar a mesma matriz sanguínea que estamos obrigadas ou obrigados a conviver com quem não vê nada demais (“ele só tava brincando!”) em um chefe de estado que boicota vacina, confraterniza com nazistas, grita com jornalista (preferencialmente se for mulher), tira onda com sofrimento alheio, desmonta a pesquisa científica brasileira e veta ajuda financeira para estudantes e professores de escolas públicas que precisavam acessar internet para continuar estudando em plena pandemia.

Eu agradeço a Bolsonaro por mostrar a cara do Conselho Federal de Medicina e de milhares de médicos e médicas que ganharam muito dinheiro e fama vendendo um inexistente “tratamento precoce”; agradeço por ter exibido, via CPI da Covid-19, o imenso balcão de negócios que são os planos de saúde no Brasil, com direito a empresa (alô alô, Prevent Senior!) chamar óbito de alta hospitalar. Agradeço ao presidente por ter deixado ainda mais evidente os motivos pelos quais boa parte desta classe repudiou o Programa Mais Médicos: saúde boa é saúde paga, queridinha, e de preferência no conforto das capitais, em hospitais com “suíte Dubai”.

Agradeço, não posso esquecer, por ele e seus ministros da saúde de competência restrita terem mostrado a mais gente para que serve um sistema de saúde universalizado e que chega a todas as regiões do país, o SUS.

Agradeço a Bolsonaro por escancarar ao mundo, em discursos na ONU ou outros púlpitos importantes do exterior, como nosso executivo é sustentado tantas vezes por mentiras, dados falsos ou distorcidos, publicados pela própria Secretaria de Comunicação do governo e por uma série de emissoras que costumam receber afagos do presidente.

Falando nisso, agradeço DEMAIS a Bolsonaro por mostrar de maneira simples, quase como um power point feito por Deltan Dallagnol, as diversas fragilidades e covardias da imprensa brasileira: primeiro, que o “apartidarismo” evocado com muita pompa era conversa para boi dormir, vide a assessoria de imprensa que grandes veículos nacionais prestaram a Moro e a Força Tarefa do MPF do Paraná; depois, que o conceito de democracia de nossos veículos de comunicação era (ou é) o mais pobre possível: enquanto o presidente e seus bolsonaretes estavam descendo lapada em gays, pretos, mulheres, transexuais, etc., ainda assim eram tratados pelos jornalistas como fazendo parte do “campo democrático”. Mas quando Bolsonaro começou a tratar muito mal toda uma sorte de repórteres e, por exemplo, a jogar bananas para eles em cercadinhos; quando falou em tirar concessões públicas de televisões, aí a água bateu na bunda e finalmente Bolsonaro se tornou um radical.

Agradeço a Bolsonaro por destruir definitivamente dois enormes “mitos” (com o perdão da palavra).

Primeiro: a ideia de que, após a redemocratização, o Brasil só veria o progresso ano após ano, em uma lógica bem linear. Toda uma geração quebrou a cara. Nossa democracia estava só começando a se fortalecer quando o capitão foi adotado pelo mercado, higienizado pela imprensa e Judiciário e assim eleito presidente. Homenageou Ustra? “Ah, mas ele tava só brincando”.

Segundo: sua eleição foi primeiramente endossada justamente por quem tinha mais escolaridade, o que mostra evidentemente que o conhecimento formal não garante uma opinião política defensável. Mesmo agora, tem muita gente formada em excelentes universidades com o dedo coçando para voltar a eleger um incompetente. Mas quem não sabe votar é nordestino pobre, não é?

Por sinal, falando em redemocratização, agradeço a Bolsonaro por trazer de volta a memória do processo constituinte, aquele texto que brigamos tanto para ver nascer, onde estava nosso já citado e querido SUS, por exemplo. Foi bom lembrar como era legal dançar rock de protesto da Legião Urbana e ainda nos ensinou que não se dorme quando há silêncio na casa do inimigo.

Preciso realmente agradecer a Bolsonaro por nos mostrar, através de seu ministro Paulo Guedes, que doutorado em Chicago às vezes vale tanto quanto uma bicicleta para um peixe: primeiro, o homem sugeriu fazer reformas em vez de oferecer auxílio em dinheiro aos pobres no começo da pandemia; depois, jurou que nossa crise econômica aconteceria em V: cairíamos feio, mas nos levantaríamos rapidamente logo depois.

Acredito que, para a Faria Lima, Guedes deve ter prometido fontes públicas de leite, offshore e mel (é a única coisa que explica a continuidade do tesão).

Quero agradecer especialmente ao ministro por mostrar que o receituário neoliberal para fazer a economia crescer é uma tremendíssima balela.

Tem mais gratidão, Bolsonaro: quero agradecer sinceramente ao presidente por mostrar para muito mais gente a qualidade de boa parte da classe política do nosso país: os que defendem sua permanência insistem em errar sem qualquer consequência, enquanto vários dos que opõem não agem mais efetivamente para enfraquecê-lo (o PDT e o PSB apoiando o calote dos precatórios que o digam).

Agradeço a Bolsonaro por me mostrar que vários amigos e muitos colegas de profissão, autodenominados progressistas, são na realidade ultraconservadores, apoiam a extrema direita e não fazem nada para uma transformação social no Brasil, na direção da dignidade coletiva e da diminuição do abismo social. Deles, tenho mantido uma saudável distância.

Agradeço a Bolsonaro por expor milhões de pessoas que estavam distantes do debate político e se sentiram convocadas para um ativismo muito particular: o da retaliação e destituição de uma eleição (e de um partido) e o desapreço por programas e pautas voltadas às políticas públicas que favoreciam o coletivo e o social. Por tirar a máscara dos isentões, dos que se faziam de alheios, desligados.

Agradeço a Bolsonaro por fazer com que conhecêssemos melhor os rostos do STF, do Senado, por nos mostrar que política é assunto de todas e todos; por entendermos melhor o que foram os crimes de Brilhante Ustra no período militar. Agradeço a Bolsonaro por evidenciar a imensa instrumentalização de Jesus Cristo, um nome mais fácil que nunca nos lábios de vendedores de armas, grileiros, lobistas e pastores que preferem ver uma criança estuprada parir um bebê a respeitar a própria legislação.

Agradeço a Bolsonaro por nos mostrar que manter o público engajado e alienado é mais importante e eficaz do que governar de verdade. Agradeço por ter revelado que muita gente que bota as mãos sobre o peito e manda um “gratidão” está conectada ao espírito da Deusa Interior, mas não à família em situação de insegurança alimentar da própria diarista. Esse povo gratiluz, que batiza o filho no Rio Solimões, coloca colarzinho de âmbar no bebê e, depois que ele dorme, vai ler os livros de Olavo de Carvalho.

Finalmente, quero agradecer a Bolsonaro e a seus filhos muito bem tratados pelo dinheiro público, acostumados a comer picanhas milionárias e a comprar mansões que tecnicamente não cabem em seus orçamentos, por mostrarem como é possível se escandalizar vendo uma porção de camarão em um espaço do MTST, mas nunca fazer o mesmo quando pessoas muito pobres apareceram catando ossos para comer.

Obrigada, Bolsonaro.

The Intercept

A piada chamada Daniel Alves

POR GERSON NOGUEIRA

Poucas vezes a Seleção Brasileira partiu para uma Copa com um jogador tão contestado em todos os aspectos de avaliação. Daniel Alves, 39 anos, não seria titular hoje em nenhum grande time brasileiro. Não seria sequer considerado por um time mediano europeu. No entanto, o técnico da Seleção decidiu que ele tem lugar cativo no escrete que buscará no Catar o sonhado hexacampeonato mundial.

Pode até conseguir alcançar essa meta. O futebol por vezes é surpreendente. Ocorre que as leis que regem o esporte das multidões não costumam ser tão flexíveis em relação a ex-jogadores em atividade. Daniel é um desses. Foi o grande jogador, há 10 anos, no máximo. Disputou (mal) a Copa de 2014 no Brasil arrastando-se em campo, sofrendo com a alta temperatura brasileira.

Como filhos de um país tão afeito ao futebol, temos uma relação única com o esporte. Ao contrário de torcedores de outros países, o brasileiro mantém um sentimento de íntima conexão com a Seleção. Não raro, de amor e ódio, aprovação e negação. Desta vez, quase tudo caminhava para uma relação perfeita, de fina sintonia.

Afinal, Tite deixou claro que – a partir da autorização para convocar 26 jogadores – que iria priorizar o ataque, convocando o máximo de jogadores para o setor. Realmente fez isso: chamou nove atacantes, número incomum na trajetória da Seleção em Copas. Nada mais agrada o apetite da massa torcedora do que ver o Brasil com uma esquadra indomável e agressiva.

O problema é que Tite, ao que parece, decidiu deixar exposto um bode na sala, sabe-se lá por que motivo. Insistiu desde o ano passado com Daniel Alves. Mesmo quando o Barcelona não quis mais saber do lateral e este saiu à procura de um time para jogar – sim, não encontrou espaço em nenhum clube digno de um craque da Seleção.

Acabou achando abrigo no Pumas do México, um time periférico. Terminou o Campeonato Mexicano na 16ª posição, com 14 pontos em 17 partidas – foram apenas duas vitórias, oito empates e sete derrotas. Fez 12 jogos, tendo vencido uma única vez. Deu 3 assistências e não fez gol. O último jogo profissional de Daniel Alves foi dia 23 de setembro.

O quadro dramático (para Tite e seus acólitos) só foi sanado emergencialmente com a chance de ficar se recuperando, a toque de caixa, no Barcelona. Lá, seguiu merecendo atenção especial da comissão técnica, que deslocou auxiliares por duas vezes para avaliar o estado físico-atlético do veterano.

Quando Tite disse ontem, no ato de divulgação dos convocados, que Daniel será um lateral construtor, numa de suas blagues inventadas do nada, confirmou as piores suspeitas. O técnico tinha um compromisso pessoal com o jogador, que não é por si só deletério, mas diz muito do nível de descomprometimento com o que realmente importa.

O Brasil vai ao Catar para uma Copa inédita, que jamais aconteceu na era moderna. Seleções europeias em ponto de bala, voando, em pleno meio de temporada. Lembrar aqui que os campeonatos europeus se encerram em junho, o que faz com que disputem as Copas convencionais em fim de temporada, com jogadores desgastados. Agora será diferente.

Imagine um Mbappe partindo para cima de Daniel Alves. Tite levará como capitão do escrete um jogador depauperado, de 39 anos, dado a vaidades fora dos gramados e prima-dona em campo. E nem há o alento de dizer que é um super craque, fato que justificaria – mesmo por memória recente – sua convocação. Não. Daniel sempre foi um lateral de primeira linha, mas jamais teve a aura dos grandes.

A convocação representa, ainda, um menosprezo evidente por jogadores de melhor nível em condições de aproveitamento na Seleção. O próprio Eder Militão poderia fazer eventualmente o papel de lateral direito. Marcos Rocha, do Palmeiras, tem jogado muito. Raudinei, do Flamengo, um tanto zonzo, seria mais útil. E há, ainda, o caso de Rafinha (São Paulo), que tem o traquejo e a expertise do futebol europeu, como Tite tanto preza.

Um erro grave, que certamente terá consequências, principalmente se houver a insistência bovina em botar Daniel Alves para jogar.

Desequilíbrio na lista é outra fonte de preocupação

Seis homens no meio-campo, nove atacantes, quatro laterais e quatro zagueiros de área. Havia uma desnecessidade de tantos atacantes de lado – Vinícius, Rodrygo, Antony, Raphinha, Martinelli, Richarlyson. O mais sensato era chamar um outro zagueiro, a fim de não se expor em excesso.

O meio-campo é outro ponto que inspira cuidados. Dos seis chamados não há um que personifique a figura do maestro, uma peça que a Seleção Brasileira sempre teve em Copas vitoriosas.

Falta o camisa 10 no sentido clássico do termo – Paulo Henrique Ganso é o único digno de ter esse papel. Everton Ribeiro, que será banco, é bom jogador, mas lhe falta a chama luminosa da personalidade.

Papão tem primeiro grande desafio na Copa Verde

O confronto de hoje em Manaus frente ao São Raimundo é, de fato, o primeiro teste de verdade para o PSC na Copa Verde. Os dois jogos anteriores, contra Humaitá e Tocantinópolis, foram simples amistosos. Vitórias tranquilas, sem maiores transtornos.

O São Raimundo é um time diferente, até porque é imprevisível. A vitória sobre a Tuna no Souza, por 3 a 0, chamou atenção para o futebol rápido e objetivo nas ações ofensivas. A presença de jogadores conhecidos no cenário regional também torna a equipe potencialmente mais perigosa.

Ao PSC, favorito no cruzamento, cabe jogar com seriedade e dentro de sua proposta de jogo. Na Série C, em várias situações, o time de Márcio Fernandes soube transformar a pressão do adversário em oportunidade para contra-ataques bem encaixados e letais.

É provável que isso se repita no confronto de hoje, desde que o time se mostre mais aplicado que nas duas primeiras partidas do torneio. O Papão só não pode permitir que o adversário consiga abrir vantagem para o confronto da volta, sábado, na Curuzu. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 8)