O neolumpesinato 4.0 e as urnas “fraldadas”

Por Lenio Luiz Streck (*)

“E disse o pastor (depois de pedir o pix), invocando a palavra sagrada: “as urnas foram ‘fraldadas'”.

Cena inesquecível: tarde de terça-feira, dois dias após a eleição, 16 horas. A estética da loucura e/ou de uma ópera bufa mostra o buraco em que o país se meteu. Aconteceu em Porto Alegre. Um grupo de cerca de 100 vivandeiras estavam à frente do quartel da cidade bulindo com os granadeiros pedindo intervenção militar. O espetáculo do absurdo já poderia estar só nisso. Fim da coluna.

Mas piora.

Eis que, de repente, um deles pede silêncio às vivandeiras agitadas. Ele carregava uma notícia bomba que acabara de receber na neocaverna: “Alexandre de Moraes havia sido preso”. Choro, gritos, gente agradecendo aos céus, outros se abraçavam… Histeria. Catarse. Minutos depois, a realidade. A choldra fora vitimada pelo próprio veneno: fake da fake. Mentira da mentira. Já nem eles distinguem fake de fake de fake de fake. Meta-fake-news. As sombras da neocaverna já eram sombras das sombras. E a malta comemorando. Pão e circo. Sem nem ter pão ou picadeiro. Agora, palhaço… ah, tem.

Se esse tipo de episódio, aliado a Bob Jeff, Zambelli, fechamento de estrada por vivandeiras bulideiras e embandeirados sediciosos não servir para acender a luz amarela da falta de lucidez, nada mais conseguirá. O buraco parece que é sempre mais fundo. Sempre há mais espaço para a insanidade.

O que aconteceu? Onde foi que se deu o gatilho dessa explosão de insensatez?

Tentarei explicar.

O Brasil foi tomado por uma nova categoria: o neolumpesinato 4.0, produto da insensatez das redes sociais, como o exemplo de Porto Alegre demonstra muito bem.

O que é lumpesinato? Bom, lúmpen é… lúmpen. Bom, muito já se escreveu sobre esse conceito. Não tem projeto coletivo. Não forma grupos, a não ser de whatsapp. Individualismo ao máximo, empatia zero. Enfim, lúmpen não é classe social. É algo tipo… complemente. Você conhece vários lumpens na sua própria família.

Lumpesinato já é o paradoxo em si, porque é um rebanho que não é nem capaz de ser grupo (a não ser whatsapp!!!). Descrentes que precisam de um salvador, céticos que duvidam de tudo menos de fake news de Whatsapp.

Negacionistas que negam tudo, menos as mentiras nas quais estão inseridos.

As redes sociais deram vazão a esse neolumpesinato 4.0. Neolumpesinato líquido. Apostam no estado de natureza, da guerra de todos contra todos. Gostam do poder autoritário. Estão sempre à procura do messias. Misturam religião e política. Eternas vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e pedir extravagâncias ao poder militar, como já dissera Castelo Branco, o general.

Os lúmpens simplificam tudo, porque nada leem. Orgulham-se do negacionismo. E da burrice. Alimentam-se de drops. Xingam todo mundo. Fazem memes. Vivem disso. Só vivem disso. Um deputado se elegeu espalhando a notícia de que, ganhando Lula, os brasileiros comeriam seus próprios cães. E o que dizer de radialistas alvoraçados, bulindo e bivaquiando, falando “agora o comunismo será instalado” (bom, pelo que ouvi até poucos dias, achei que já estávamos no comunismo, uma vez que, para esses néscios de todas as espécies e querências, o STF era uma fração do partido comunista chinês). Cada coisa…

Mas, é claro: tudo em nome de Deus e da família. E da pátria, evidentemente. Fico pensando, como cristão: se Deus apoia esse tipo de coisa, esse Deus precisa ir para um divã. Ou está nos castigando. Testando.

E já invadiram o direito. Tomaram boa parte do direito. Vi vídeo de advogado meia-boca pregando AI-5. Outro falava de socialismo na California (EUA). É de rir. Ou de chorar. (Ch)oremos. Para termos uma ideia, vejam esse vídeo. Trata de habeas preventivo no STE (sic) contra, acho, decisão do STF. Tudo com base no art. 120 da Constituição. Deve ser a nova Constituição.

Sigo. Umberto Eco dizia: as redes sociais deram azo a uma multidão de idiotas. Acertou na mosca.

Não possuem superego. Dizem qualquer coisa, por mais ridículos que possam parecer. Aliás, não sabem o que é ridículo. Ridículo é não ser ridículo no neolumpesinato 4.0.

Do ridículo se pode ir ao trágico. Em São Miguel do Oeste centenas de pessoas pediram intervenção militar fazendo a saudação, pasmem, nazista. Sim, nazista. Vejam. Aliás, os advogados Mauro De Azevedo Menezes, Marcelo Cattoni, Ranieri Resende e este escriba, Lenio Luiz Streck, ingressamos com notitia criminis junto ao MPF de São Miguel do Oeste, para urgente apuração desses fatos e consequente punição.

Com um lúmpen é impossível discutir. Dão às palavras o sentido que querem. São lumpenhumptydumptyanos. Entrar na discussão já é perder. É jogar xadrez com pombos.

Disso tudo se tira que ou se dá um jeito nas redes sociais — Marcelo Coelho, na Folha do dia 2 de novembro, tem ótima posição sobre isso — ou elas acabam com a democracia.

Os gregos, quando inventaram a demo-cracia, nunca imaginariam que surgiria a whatsapp-cracia. A tiozão-cracia. A nescio-cracia.

Como disse um neolumpen — casualmente um pastor desses que adoram pedir pix e falar em demônios — as urnas foram “fraldadas”. Sim, foram “fraldadas”, pastor. Pergunte ao diretor da PRF. E a quem o mandou executar a operação de sabotagem nas estradas. As urnas foram “fraldadas” por quem agora alega a “fralde”. Brilhante, não? Mas é como eu disse: como discutir com um neolumpen? Como falar em “verdades” com gente que se ajoelha porque “Alexandre de Moraes foi preso”? Nem sentido isso faz. É frustrante.

Pois é, pastor. Urnas “fraldadas”. Aleluia, irmão.

Minha tese: devemos, como tarefa, assistir dez vezes o filme “1985”, estrelado por Darin (para quem não viu, ali um corajoso promotor [alô MP, onde estavas durante o dia da eleição que deixaram o diretor da PRF fazer gato e sapato com os eleitores nas estradas?] processa os golpistas argentinos).

E depois repetir a lição escrevendo num quadro, como se fazia antigamente com os alunos que aprontavam. “Não vou apatifar com a democracia, não vou apatifar com a democracia…” O promotor que faz a acusação no filme “1985” tem muito a nos ensinar. O filme tem muitíssimas lições que devemos aprender. Assistir dez vezes. Não vale ficar zapeando durante o filme.

Presta atenção.

Post scriptum: muito “interessante” que, enquanto a PRF fazia um amplo processo de sabotagem do direito de os eleitores comparecerem para votar, não houve, ao que se sabe, nenhum ato contrário vindo do Ministério Público Eleitoral. Quantos promotores eleitorais existem em todo o Brasil?

E outro dado: o MPF concedeu, no auge da crise do dia seguinte (segunda-feira) 24 horas para a Polícia Rodoviária Federal tomar providências. Quer dizer: 24 horas? Quando o caos estava se instaurando? 24 horas, doutores?

(*) Jurista e professor

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