Como é duro contratar

POR GERSON NOGUEIRA

Reforçar um elenco não é tarefa fácil para nenhum clube no Brasil e é ainda pior para os que disputam a Terceira Divisão. Como se sabe, a Série C é um campeonato sem expressão nacional – não tem transmissão TV (passa apenas um jogo por semana, na Band) –, os jogadores têm pouco interesse em defender a dupla de representantes do Pará.

No afã de justificar por que a maioria dos boleiros foge dos clubes daqui há quem justifique com a falta de praias em Belém. Ora, caso isso fosse verdade, os jogadores não topariam atuar em Goiás, Minas Gerais e São Paulo, só para ficar nesses exemplos.

Há 20 anos, com o PSC na Libertadores, o problema inexistia: alguns dos jogadores mais qualificados do país aceitaram trocar o Sudeste pelo Norte, sem maiores problemas, o que leva à conclusão óbvia de que é difícil contratar bons jogadores porque nossos clubes não têm visibilidade, estão fora das competições mais atraentes e lucrativas.

Assim como ocorre com os artistas, jogador de futebol não vive sem vitrines e holofotes. Disputar a Série C significa sumir de circulação. Sem jogos exibidos na TV, os jogadores deixam de ser vistos.

É comum ouvir nas emissoras de rádio e ler na internet torcedores cobrando reforços. Para eles, o time deve ser constantemente modificado em busca da perfeição. Quando vê um jogador brilhando com outra camisa, o torcedor logo fica a projetar como ele renderia em seu time.  

E tome pressão sobre os dirigentes. O lado mais desastroso disso é que, de vez em quando, esse cerco resulta em contratações destituídas de bom senso, que terminam por decepcionar, gerando efeito reverso. O torcedor que tanto cobrou reforços é o primeiro a reclamar das contratações.

Pipico é um exemplo típico. Com um nome marcante pelos gols marcados há mais de cinco anos, quando defendia o Santa Cruz, ele foi saudado por boa parte da torcida do PSC como aquisição importante para o ataque. Os 37 anos de idade e o longo período inativo foram esquecidos.

Quando não mostrou os vestígios do antigo artilheiro sobreveio a frustração. Como era previsível, o veterano não tinha mais mobilidade e presença de área para resolver os problemas que acometiam o ataque do PSC. Saiu daqui com o saldo irrisório de apenas um gol marcado.

Não é exclusividade alviceleste. O Remo trouxe Rodrigo Pimpão, um pouco mais jovem que Pipico, mas também fase descendente na carreira. Sem o ímpeto e a velocidade de seis anos atrás, quando foi destaque no Botafogo, Pimpão tornou-se titular exclusivamente pelo nome, mas o rendimento foi muito aquém do esperado.

Contratar ex-jogadores em atividade tornou-se comum por aqui diante da ausência de alternativas para os clubes. Em geral, por preguiça e desinformação, os gestores do futebol aceitam passivamente as indicações de técnicos e executivos e contratam sem o necessário cuidado de verificar histórico e até o condicionamento físico-atlético dos “reforços”.  

Isso leva a um outro ponto, talvez o mais importante: a gestão deve ser obrigatoriamente profissionalizada. Passou o tempo dos abnegados de plantão, baluartes e meros curiosos. Apesar da inegável boa vontade, são esses dirigentes que acentuam o atraso massacrante do futebol paraense.

Técnicos e executivos são pessoas detentoras de conhecimento, gestores precisam saber mais sobre futebol profissional, até mesmo para ajudar na prospecção de reforços (de verdade) para seus clubes.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, a partir das 21h30, na RBATV, com as participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Em pauta, os preparativos para a Copa Verde e os rumos da Segundinha. A edição é de Lourdes Cezar.

Esforço para manter José Aldo unifica correntes no PSC

Na entrevista que concedeu no meio da semana, o presidente do PSC, Maurício Ettinger, fez uma espécie de prestação de contas do mandato e especialmente do que ocorreu na temporada do futebol do clube. Admitiu que o planejamento falhou em função do pífio desempenho no quadrangular da Série C.

Apesar da boa campanha inicial, a segunda etapa foi um desastre. Com isso, o time amarga cinco anos batendo na trave sem obter o sonhado acesso à Série B. Entre explicações variadas, o dirigente concorda com a análise interna de que faltou força mental no momento culminante do campeonato.

Diante da iminência de fechar o ano de mãos vazias – perdeu também o certame estadual –, resta priorizar a competição final, a Copa Verde. O Papão tem um estímulo extra: o sonho de conquistar o tricampeonato.

O elenco é o mesmo da Série C, embora mais reduzido. Não haverá mais contratação, para preencher vagas que ficaram a descoberto. A preocupação é seguir buscando conquistas em campo, mas com responsabilidade financeira. Segundo o próprio presidente, o prejuízo mensal se avoluma, pois não há a receita dos jogos, desde que o time saiu da Série C.  

Contratações agora somente no final da temporada, após a Copa Verde, quando também ocorrerá a eleição para a presidência do clube. Vai depender do resultado do pleito a continuidade do projeto atual, incluindo a permanência do técnico Márcio Fernandes, que tem o aval de Ettinger.

Mas, para renegociar a extensão de contrato do volante José Aldo, principal jogador da equipe, será necessário um acordo de cavalheiros com os demais candidatos (devem ser dois nomes representando a oposição).

Os custos que envolvem a renovação com José Aldo assustam porque o jogador está na mira de outros clubes, Ponte Preta à frente. Como os que cobiçam o volante estão na Série B, a disputa pelo atleta tende a ser desigual. A única chance é apressar um acordo, evitando assim o assédio de outras agremiações.

Em nome do interesse maior, Ettinger teve uma ideia elogiável: convocou os candidatos das outras chapas para participarem da negociação em torno de José Aldo. A ideia é fazer com ele o mesmo acordo que garantiu a aquisição definitiva do atacante Marlon, há dois anos.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 09)

Um comentário em “Como é duro contratar

  1. O comentário sobre a dureza de realizar contratação de reforços pelos grande times de futebol do Pará é certeiro. Vem ao encontro de minha teoria que todos os envolvidos em nossa seara futebolística tem uma parcela de responsabilidade nos problemas apresentados. Reforço nessa questão a pressão da torcida por contratações e a má vontade desta com os jogadores regionais ou oriundos das divisões de base, para os quais não há perdão para eventuais erros que cometam exercendo a profissão dentro das quatro linhas. Parte da imprensa age da mesma maneira e ainda é recorrente em bajular torcidas e dirigentes, não atuando de forma crítica em relação as estes. Felizmente, vozes distoantes na mídia se levantam ultimamente para evidenciar o desastre que são as gestões de nossos grandes clubes e como estas os levaram ao limbo do futebol nacional. Um grande clube vive de vitórias e títulos e não adianta dirigente se gabar de contas em dia como se fosse um síndico de condomínio, cujo objetivo maior é pagar as despesas e fazer com que a arrecadação seja suficiente para cobrir os gastos. Renda de jogos, venda de camisas e adereços e programas de sócio-torcedor ajudam, mas na cobrem as despesas de clubes médios como a dupla Re-Pa. Esta dupla deveria voltar seus olhos para a formação de jogadores para suprir suas necessidades e também vendê-los, auferindo lucros sobre cada transação. Deveria também prospectar bons jogadores regionais como já vimos em tempos passados. Mas o que observamos mesmo, em todo início de temporada, é o mais do mesmo, primeiramente a contratação de um mascate, com o nome pomposo de executivo de futebol, encarregado de trazer uma barca de jogadores, com nomes que possivelmente constem do caderninho ensebado do tal executivo. Essa prática danosa está enterrando o nosso outrora competitivo futebol do Pará.

Deixe uma resposta