Boas notícias? Calma, o bicho é menor do que parece

Por Leandro Demori

Eu sei, eu sei: você está arrasado. Mas calma, eu vou nadar contra a maré do catastrofismo. Um pouco, claro, pra exercitar “todo o músculo que sente”, como já disse o poeta. E também porque a noite de ontem, com o fim da apuração, não foi uma catástrofe como pode parecer. Serei breve, lanço alguns tópicos pra gente pensar juntos. Amanhã falamos sobre tudo isso no programa ao vivo, ok?

Primeiro, as más notícias

A extrema direita não está em decadência no mundo e não vai, por consequência, desaparecer. Mas isso você já sabe porque acompanha A Grande Guerra lá no You Tube. Giorgia Meloni acaba de ser eleita na Itália (Dio, Patria, Famiglia e Libertà, as exatas mesmas palavras usadas por Bolsonaro, eu traduzi um curto trecho de seu discurso aqui); Viktor Orbán está cada vez mais forte na Hungria; o partido de extrema direita Democratas Suecos ficou em segundo lugar nas eleições nacionais no mês passado; e o mundo está sempre sob a sombra do retorno eleitoral de Donald Trump. Há outros exemplos.

Sendo claro: ou você engrossa as filas de uma revolução, ou vai assistir a um filme longo e previsível pelas próximas décadas, cena por cena.

Agora, as boas notícias

Você acha que os bolsonaristas estão felizes com o resultado de ontem? Engano seu. O que se chama de “núcleo duro” do bolsonarismo foi dormir com a boca amarga. É sério.

Trago notícias da minionland: eles estão desolados. Absolutamente chocados que Lula tenha chegado em primeiro lugar e que Bolsonaro não tenha matado a eleição ontem.

O número que circulava nos grupos de zap, há meses, era esse: 70 milhões de votos pro Jair. A “previsão” foi espalhada nas redes. Caso Bolsonaro não fizesse essa votação, mesmo que vencesse, seria “fraude”. Em 2018 Bolsonaro teve 57,7 milhões de votos no segundo turno contra Haddad. Ontem, fez 51 milhões.

Eles não estão apenas indignados com o resultado, mas se perguntando onde foram parar os milhões de votos que Bolsonaro “perdeu”. (Eu sei, a comparação não tem lá muita lógica, mas a lógica não é forte nesse grupo da população. É preciso entender como pensam e por que estão abatidos.)

Você viu a cara do Bolsonaro no pronunciamento de ontem? Então veja.

E o PT, hein?

A principal manchete da manhã de segunda-feira foi esta.

E, bem, na minha opinião ela está errada.

❌ Não existe “o PL de Bolsonaro”. Esse aliança só existirá se Bolsonaro vencer a eleição. Claro que Bolsonaro terá a vida muito mais fácil nesse segundo mandato, mas antes precisa ganhar a eleição, e pra isso precisa de mais de 6 milhões de votos até o dia da votação, ou talvez até mais do que isso. Vamos deixar claro: Bolsonaro está em desvantagem.

O que existe, de fato, é o “PL do Centrão”, que vai atuar conforme seus próprios interesses a partir do ano que vem. Se Lula vencer, a chance de compor com a maioria é alta. Valdemar da Costa Neto, o mandachuva do partido, já foi aliado do PT. Há mais cargos e dinheiro no Governo do que na oposição.

❌ O PL saiu da eleição com 99 deputados federais. Voltando ao passado, o partido tinha 33 deputados federais em 2018. Ficou com 76 com o troca-troca antes da eleição, herdando a parte “bolsonarista” do PSL.

Uma conta básica: 99 – 33 = 66. Esse é o número de deputados “bolsonaristas” do PL, dando o benefício de admitir que absolutamente todos que se elegeram e migraram para o PL são fiéis a Bolsonaro, o que só será verdade se ele vencer a eleição. É um cenário ruim? Sim. É um cenário catastrófico? Não.

O bolsonarismo cresceu, como era de se esperar de um presidente com a máquina na mão que gastou bilhões de reais em compra institucionalizada de votos.

Vale lembrar – O PRN do Collor elegeu 40 deputados federais e cinco senadores, partindo do nada. E o PSL de 2018, esse sim um tsunami bolsonarista, saltou de 8 para 52 deputados na cola de Bolsonaro. Minha opinião: 2018 foi muito mais devastador do que agora.

E se por um lado tivemos eleitos repugnantes como Damares Alves, Mourão e Ricardo Salles, por outro lado olha quanta gente ruim ficou de fora (67 nomes).

No mapa, aliás, a comparação de 2018 com 2022 mostra que o PT avançou pelo país e recuperou terreno.

Teve muita gente boa eleita ontem. Vou deixar só um print. São Paulo vai levar isso aqui pra Brasília:

Tá bom, mas, afinal, o que pensam os bolsonaristas?

Eles estão decepcionados por que, para eles:

Quem matou 686 mil brasileiros foi o vírus da Covid, Bolsonaro não tem culpa. Lembre: muitos sequer acreditam que a Covid mata.

Vacinas: Bolsonaro mentiu, sem contraste, sobre ter trazido as vacinas ao Brasil e disse ter feito isso ao mesmo tempo em que o resto do mundo. Disse isso no debate da Globo, inclusive, e ninguém contestou. Então isso é “a verdade” nos grupos de eleitores mais extremistas: Bolsonaro trouxe a vacina na hora certa, e se vacinou quem quis, mesmo que a vacina “não funcione”.

Economia: culpa da guerra na Ucrânia e da pandemia. E Bolsonaro tem o mérito de ter ido à Rússia negociar fertilizantes.

Fome: culpa da economia, que por sua vez… (ver guerra/pandemia).

O PIB está se recuperando, “é um dos melhores do mundo”.

Nossa gasolina “é uma das mais baratas do mundo”, e isso só foi possível porque Bolsonaro negociou com o Congresso e baixou o ICMS, “sem canetada”.

Nossa inflação é “uma das mais baixas do mundo”.

Isso, e outras coisas, explicam o por que da decepção de ontem. Afinal, esse mito deveria ter feito 70 milhões de votos. Mentiras sinceras, é disso que vive o bolsonarismo.

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