Parceria entre Hospital Ophir Loyola e Polícia Científica aumenta doações de córneas no Pará

Mais de 100 córneas já foram captadas desde abril de 2022, ajudando a devolver a visão a pessoas que esperavam na fila de transplantes

Após a queda durante a pandemia de Covid-19, o número de doações de córneas voltou a crescer no Pará. O resultado é fruto da parceria entre o Banco de Tecido Ocular do Hospital Ophir Loyola e o Instituto de Medicina e Odontologia Legal (Imol), da Polícia Científica do Pará (PCEPA). A cooperação técnica foi retomada em abril deste ano, e já foram captadas 102 córneas até o momento. Uma parceria estratégica, que busca ampliar o número de transplantes realizados no Estado e zerar a fila de espera.

Os resultados, referentes ao período de abril a setembro de 2022, foram apresentados nesta segunda-feira (26), no auditório do Imol. A programação reuniu as equipes de ambas as instituições e pacientes, a fim de agradecer a todos os envolvidos no processo de captação de doadores. Responsável técnico pelo Banco de Tecido Ocular do HOL, o oftalmologista Allan Costa ressalta a importância de se estabelecer uma cultura de doação, para combater a falta de informação e, consequentemente, a fila de espera, que tem mais de 1.200 pessoas aguardando por uma córnea.

“Estamos trabalhando para qualificar equipes e quebrar tabus, como convicções religiosas ou receio da deformidade do rosto do cadáver. É necessário envolver toda a sociedade nesta questão de saúde pública. Precisamos atingir as famílias, e mostrar que muitas pessoas precisam desse ato de solidariedade. Os tecidos oculares são retirados com técnicas cirúrgicas que não deixam vestígios, e são devidamente reconstituídos. A aparência do doador não é modificada, e o corpo pode ser velado normalmente”, informa o médico Alan Costa.

Com o objetivo de mudar a realidade paraense, as equipes da Central Estadual de Transplante, Banco de Tecidos Oculares e Imol estiveram em agosto no Ceará, estado que possuía uma fila extensa de pacientes aguardando por córnea, mas conseguiu mudar esse cenário e hoje é um dos que mais realizam transplantes no Brasil. “Buscamos qualificar as nossas equipes com esse case de sucesso em nosso País, trazer essa expertise e colocar em prática aqui, reforçando a parceria com o Instituto Médico Legal, a exemplo dos Bancos de Tecidos Oculares de lá. E já começamos colher os frutos dos nossos esforços”, destaca.

O diretor do Imol, Hinton Cardoso Júnior, também garante que há condições de reproduzir essa parceria com sucesso. “Somos uma fonte de captação de tecidos oculares e, após o desenvolvimento de algumas ações, conseguimos aumentar o número de córneas para transplante após a queda ocasionada pela pandemia. Em abril, retornamos com a cooperação técnica, treinamos no Ceará e já conseguimos acelerar nossas captações. Isso é importante para que possamos vislumbrar também, futuramente, a fila zero no Pará”, informa.

Riscos à visão – A córnea é um tecido fino e transparente semelhante ao vidro de um relógio, localizado na superfície do olho. Quando a transparência dessa estrutura é afetada por doenças como ceratocone, distrofia de Fuchs, lesões, infecções, queimaduras ou substâncias químicas, a visão pode ser reduzida ou totalmente perdida. O transplante é indicado para restabelecer essa transparência. Os casos extremos ocorrem com crianças após sofrerem acidentes e em idosos que perdem a visão por uma determinada enfermidade que, geralmente, acomete os dois olhos.

A agente administrativa da PCEPA, Leiliane Pinheiro, 36 anos, perdeu a córnea após usar uma lente de contato fora da validade, em 2010. Um dia foi retirar a lente e começou a sentir dor, que se estendeu por sete dias. Em 24 horas perdeu totalmente a visão do lado direito. A córnea estava muito machucada. Foi diagnosticada com uma bactéria irreversível e encaminhada ao Hospital Ophir Loyola, onde foi submetida ao transplante.

“Além de perfurar a córnea, a bactéria poderia migrar para o cérebro. Um tecido chegou a tempo de fazer a cirurgia e, com 15 dias após a retirada do tampão, eu já estava enxergando. Estou há 12 anos com essa córnea, e consigo levar uma vida normal. Se não fosse a doação de alguém, não sei como seria a minha vida. Hoje, a córnea está fraca, e provavelmente terei de passar pelo transplante novamente. Mas não tem uma noite que eu não agradeça a Deus, porque eu renasci”, conta.

Quem pode doar córnea – A doação pode ser realizada por qualquer pessoa que for a óbito, de 2 até 70 anos. Há critérios específicos de exclusão, como pacientes portadores de HIV e dos vírus causadores de Covid-19 e hepatites B e C. Os tecidos oculares podem ser retirados até seis horas após o óbito. Preservadas, as córneas têm até 14 dias para serem implantadas em um receptor. Para fazer a doação, a família pode entrar em contato com Banco de Olhos pelos fones (91) 3265-6759 e (91) 98886-8159 ou com a Central Estadual de Transplantes (91) 97400-6456.

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