Despedida em tom morno

POR GERSON NOGUEIRA

Deve ser sensação das mais esquisitas para uma torcida acompanhar um jogo no qual o seu time é apenas coadjuvante na festa do adversário. Foi a situação a que o apaixonado torcedor do PSC foi submetido, sábado à tarde, na Curuzu, na partida contra o Vitória. Não havia muito o que fazer, a não ser torcer por uma atuação decente e honrosa na despedida do Papão da Série C.

Nesse sentido, o torcedor não tem do que se queixar. O time fez a sua parte. Mostrou raça e vontade de vencer, embora não tenha sido organizado e criativo o suficiente para merecer um triunfo. Empatou um jogo que poderia até ter vencido, apesar dos muitos problemas coletivos e individuais expostos em campo.

Em termos de jogo coletivo, o time exibiu exatamente o que havia mostrado no quadrangular. Desarrumação em quase todos os setores, baixo rendimento dos laterais e especialmente do eixo mais criativo – entenda-se aqui José Aldo e Marlon. Aldo nunca mais foi o jogador dinâmico e criativo da fase inicial. Marlon esqueceu o caminho do gol.

Cabe observar que, ao contrário do que prega o técnico Márcio Fernandes, o PSC não foi superior aos demais times que brigavam pelas duas vagas do acesso. O PSC foi pior que todos. Não há número capaz de esconder essa verdade. A campanha atesta isso. Foram seis jogos, quatro derrotas, um empate e uma vitória; três gols marcados, seis sofridos.

A ginástica verbal utilizada para passar, mesmo que discretamente, a ideia de uma “injustiça moral” na eliminação do PSC não resiste a uma simples análise das atuações do time. Ao contrário do que diz o treinador, em nenhum dos seis jogos o PSC foi flagrantemente superior aos adversários. Quando venceu o Figueirense na Curuzu, o time conseguiu o resultado porque foi apenas mais objetivo.

E é essa a régua adequada para medir desempenhos na Série C. E, sob esse ponto de vista, mesmo não atuando brilhantemente, o time se comportou bem contra o Vitória no sábado. Podia ter vencido se fosse mais ousado e competente nas finalizações. Dioguinho, Danrlei e até Mikael tiveram chances no primeiro tempo.

O Vitória ameaçou somente uma vez, no lance em que a bola chegou a entrar, mas o gol foi anulado por impedimento. De resto, um PSC sempre entregue às suas indecisões e o visitante preocupado em se resguardar, sabendo que o empate lhe garantia o acesso – como acabaria se confirmando no final dos dois jogos da chave.

O gol marcado por Genilson revelou que a insistência ofensiva do segundo tempo era o caminho a ser seguido desde o início, levando em conta que o Vitória não queria se expor. Dioguinho foi quem melhor captou essa mensagem. Na primeira vez em que entrou como titular, o meia-atacante brilhou porque jogou sem bloqueios, partiu para o drible e arriscou chutes a gol. Em resumo, procurou ser ele mesmo.

Dionísio empatou num lance acidental, quando o Vitória era mais confuso do que reativo. A jogada serviu para Márcio Fernandes ressuscitar a teoria do Sobrenatural de Almeida rondando o PSC. Ocorre que o time também teve em seu favor muitos lances acidentais ao longo da disputa. E é assim que as coisas funcionam, para todos.

Avaliação generosa de um ano sem resultados

Caso tome ao pé da letra as declarações do técnico Márcio Fernandes depois do jogo de sábado, a diretoria do PSC tem poucas mudanças a fazer no elenco que disputou a Série C. Afirmou, com todas as letras, que agora há uma base construída, o que, em sua opinião, é altamente positivo para o processo de reconstrução do elenco.  

Márcio alega que o time tem um modelo de jogo consolidado e sugeriu que isso seria uma vantagem para a próxima temporada. Menos, bem menos…

Na prática, o PSC tinha um modelo que funcionou bem somente no começo da Série C, mas depois sucumbiu à sequência de jogos e desafios. Nem ele sabe dizer ao certo o que provocou a brutal queda de rendimento entre a etapa de classificação e o quadrangular, o que revela que o tal modelo não era tão consistente assim.

Ao mesmo tempo, é válido observar que a base não foi capaz de dar ao PSC o sonhado acesso e nem o título estadual da temporada – quando era tido como franco favorito na disputa. A conta não fecha. E a coisa piora um pouco quando Márcio considera ter dado oportunidades iguais a todos os jogadores do elenco.

O exemplo mais flagrante de falta de chances é Dioguinho, que só foi lembrado nos dois últimos jogos, sendo que jogou apenas por 30 minutos contra o ABC. Na partida final, que não valia mais nada, entrou de cara e ficou até a metade do 2º tempo, atuando muito bem. Se tivesse merecido oportunidades, seria certamente titular de um ataque que carecia de habilidade e capacidade de definição no quadrangular.

É legítimo que o técnico avalie como positiva a sua passagem pelo clube, mas o fato é que os resultados simplesmente não aconteceram. Resta, como última esperança de título em 2022, a Copa Verde. O problema é saber se Márcio vai permanecer no comando até lá.

Tite centra sua estratégia na dupla Vinícius-Neymar

A aposta está desenhada: a juventude e a inventividade de Vinícius Jr., um dos melhores atacantes do mundo na atualidade, conectadas à maturidade de Neymar. Tite concentra suas atenções no entrosamento da dupla para dar à Seleção Brasileira um perfil de alta ofensividade, como não se via há muito tem Copas do Mundo.

A Seleção tem seus homens de marcação (Casemiro, Fred), mas é hoje essencialmente formada por jogadores de vocação ofensiva (Neymar, Vinícius, Raphinha, Paquetá, Richarlison, Pedro, Everton Ribeiro).

O jogo com Gana mostrou por 45 minutos que essa estratégia pode funcionar no Catar, mesmo com a ressalva de que o adversário não é dos mais credenciados. De qualquer maneira, há tempo para que o duo principal se entrose e atinja aquele estágio de entendimento mágico que leva a jogadas perfeitamente sincronizadas. Aguardemos.

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 26)

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