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A valsa da despedida

POR GERSON NOGUEIRA

O sonho do acesso acabou. Toda a esperança da torcida alviceleste em relação ao jogo com o ABC foi esmorecendo à medida que os minutos iam passando. Esperava-se um time empenhado na busca pela vitória ou estrategicamente preparado para explorar os contra-ataques. Nem uma coisa, nem outra. Estranhamente, o PSC foi medroso, acanhado e tímido em quase todo o primeiro tempo. Foi como se o técnico Márcio Fernandes estivesse preocupado apenas em não perder um jogo que precisava vencer.

A pressão imposta pelo ABC era esperada, mas o PSC não tinha nenhuma alternativa de aproveitamento dos contragolpes. Toda vez que a bola era retomada, o passe saía torto e caía de novo em poder do adversário.

O gol potiguar só não saiu no primeiro tempo por pura sorte – e incompetência dos atacantes do ABC. A bola rondou sempre a área bicolor desde os primeiros minutos. A dupla estreante Lucão e Naylhor até se saiu razoavelmente, espanando cruzamentos.

Na frente, um raro bom momento. Após escanteio, Naylhor desviou e quase conseguiu abrir o placar. O goleiro fez grande intervenção, espalmando para o lado. No mais, apenas cruzamentos sem perigo e os indefectíveis arremessos, única arma do PSC ao longo da partida.

Veio o 2º tempo e Márcio Fernandes fez a troca óbvia. Tirou o inoperante Serginho e lançou Danrlei. Aos trancos e barrancos, sem receber sequer um bom passe ou lançamento, o centroavante se movimentava e incomodava a defensiva do ABC. Era o único, pois Marlon não deu as caras na partida.

Com bom controle do meio-campo, o time da casa seguia dominante, trocando passes desde a sua intermediária até as cercanias da área do Papão. Jefinho, que entrou na segunda etapa, caía pela direita e explorava a insegurança defensiva no setor guarnecido por Patrick Brey.

Aos 22 minutos, o meia Guilherme Garré, que havia acabado de entrar, pegou rebote de um cruzamento de Daniel Vanssan na área e mandou no ângulo esquerdo do gol de Tiago Coelho, abrindo o marcador e fazendo o estádio explodir em festa. (Detalhe: Garré passou pelo Remo em 2019, sem deixar saudades; Vanssan também).

Logo em seguida, Danrlei desviou de cabeça e quase empatou o jogo. A partir daí, o ABC se dedicou ao contra-ataque e teve chances de ampliar o placar. Garré e Jefinho jogavam soltos, praticamente sem marcação.

O PSC se mostrava indeciso entre buscar o empate e se resguardar para não tomar mais gols. Nessa hesitação, não ia a lugar nenhum. Pipico entrou nos minutos finais, mas nada mudou no comportamento errático do time.

A meia-cancha, com José Aldo e João Vieira à frente, setor que funcionou tão bem na fase de classificação, foi um dos pontos negativos da atuação do PSC em Natal. Faltou inventividade, rapidez e apuro nas tentativas de armação de jogadas. Na prática, o time perdeu a capacidade de surpreender e se tornou presa fácil para um ABC apenas esforçado e focado.

Não há o que lamentar quando se olha a campanha desastrosa do Papão no quadrangular: quatro derrotas em cinco jogos. Não tinha como dar certo.

Técnico assume toda a responsabilidade pelo fiasco

Após a derrota, o técnico Márcio Fernandes mostrou-se abatido diante dos repórteres e assumiu toda a responsabilidade pelo fracasso do Papão na tentativa de conquistar o acesso. Preferiu adotar essa postura, segundo suas palavras, para não ficar se justificando e colocando a culpa nos jogadores.

Sim, em boa medida, a responsabilidade é do técnico. O time chegou cotadíssimo ao quadrangular, após campanha consistente na fase de classificação. Marcou 33 pontos, a mesma quantidade do líder Mirassol.

Como em anos anteriores, o time perdeu gás na fase mais importante da competição. Márcio, porém, não tem explicação para a drástica queda de rendimento. Agarra-se a um argumento discutível. “No quadrangular, se for ver bem, nos três jogos que perdemos fomos melhores”, analisa.

Não é bem assim. Boa performance só tem valor quando vem acompanhada de resultado. O ABC, por exemplo, é um time previsível, fechado e pouco dado a goleadas, mas vence seus jogos. É o que importa, principalmente num campeonato nivelado por baixo como é a Série C.

Sobre a postura conservadora, o técnico disse que tentou adotar uma estratégia de espera no 1º tempo para ir ao ataque na segunda etapa. Esperou tanto que acabou não tendo tempo de achar o caminho do gol.

“Não esperava tomar aquele gol”, confessou Márcio. Observação estranha para um treinador que viu seu time ser atacado o tempo inteiro. Era previsível que o gol acabaria saindo em algum momento.

No próximo sábado, o PSC recebe o Vitória, na Curuzu, para mais uma despedida melancólica, embora a valsa do adeus tenha sido dançada em Natal. A permanência de Márcio Fernandes deve ser definida durante reunião marcada para esta semana.

No futebol espanhol, ato racista é prática comum

Não adiantou muita coisa a intensa mobilização de atletas, técnicos e torcedores contra os insultos racistas proferidos contra Vinícius Jr. por um comentarista da televisão espanhola. Ontem, apenas três dias depois do episódio, o atacante brasileiro voltou a ser alvo de ataques. Desta vez, por parte da torcida do Atlético de Madri antes do clássico com o Real.

Em vídeo que viralizou nas redes sociais, a torcida do Atlético entoou cânticos ofensivos contra o jogador, chamando-o de “mono” (macaco, na tradução em português). “Eres um mono, Vinicius eres um mono”, dizem os torcedores espanhóis no vídeo da Rádio Cadena Cope.

A nova manifestação só confirma um racismo estrutural e explícito bastante comum no futebol espanhol, apesar dos esforços de autoridades e instituições para negar essa tendência. Longe de ser uma exceção, o preconceito contra Vini Jr. é regra.

O lado bom é que o jogador respondeu em campo e parece não ter se intimidado. Comemorou dançando o gol do companheiro Rodrygo no clássico. Cumpriu a promessa de que vai seguir festejando gols com dança e alegria. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 19)

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