Ipec: Lula chega a 47% e vantagem sobre Bolsonaro aumenta para 16 pontos

A menos de duas semanas da realização do primeiro turno das eleições, o Instituto Ipec divulgou, na noite desta segunda-feira (19/9), mais uma pesquisa de intenção de votos para a Presidência da República. O ex-presidente Lula (PT) subiu um ponto percentual, dentro da margem de erro, e chegou a 47%. De acordo com o levantamento, ele tem mais votos do que todos os concorrentes juntos, o que torna viável uma vitória no primeiro turno, em 2 de outubro. 

O presidente Jair Bolsonaro (PL) se mantém com 31%, e ficou 16 pontos percentuais atrás do líder nas intenções de voto. Mesmo enfrentando uma forte campanha de “voto útil”, Ciro Gomes (PDT) se manteve com 7%, enquanto a senadora Simone Tebet (MDB) oscilou para cima e chegou a 5%.

Felipe d’Avila (Novo), Vera (PSTU), Constituinte Eymael (DC), Léo Péricles (UP), Padre Kelmon (PTB), Sofia Manzano (PCB) não chegaram a 1% das intenções de voto.

O Ipec aponta que o ex-presidente Lula (PT) tem 54% de intenção de votos em um eventual segundo turno, enquanto o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) tem 35%. Brancos e nulos são 8%, e os 3% restantes não sabem ou não responderam.

  • Lula (PT): 54% (53% na pesquisa anterior, de 12 de setembro)
  • Bolsonaro (PL): 35% (36% na pesquisa anterior)

A pesquisa ouviu 3.008 pessoas entre os dias 17 e 18 de setembro em 181 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-00073/2022.

Ex-candidatos à presidência declaram apoio a Lula e Alckmin

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, da Coligação Brasil da Esperança, receberam, nesta segunda-feira (19/09), o apoio de ex-candidatos à Presidência da República em eleições anteriores. Entre os presentes estavam Marina Silva, João Vicente Goulart, Cristovam Buarque, Guilherme Boulos, Luciana Genro e Henrique Meirelles.

O encontro em São Paulo (SP) reforçou a unidade democrática em torno da chapa Lula-Alckmin contra a sombra do fascismo e os arroubos golpistas de Jair Bolsonaro, explicou Aloízio Mercadante, que é coordenador do programa de governo da Coligação.

O ex-presidente Lula afirmou que a reunião simboliza a vontade que as pessoas têm de recuperar a democracia. “Todo mundo sabe que a democracia não é um pacto de silêncio. Todo mundo, silenciosamente, vendo um governo governar. Não! A democracia é exatamente o contrário: é a sociedade se movimentando dia e noite na perspectiva de conquistar melhores condições de vida para o povo brasileiro, para mulheres, para homens, para aqueles que trabalham no país”, declarou.

E prosseguiu. “O que vocês estão fazendo no gesto de hoje, companheiros, é assumindo um compromisso. E não é um compromisso com o Lula. É um compromisso de que esse país vai voltar a viver democraticamente. A sociedade vai participar das principais decisões desse país. Essa reunião simboliza a reconstrução do Brasil”, completou.

Fernando Haddad, que herdou a candidatura quando Lula foi impedido de disputar as eleições de 2018, também esteve presente. Atual candidato ao governo de São Paulo, ele destacou que a mesa reuniu de socialistas a liberais, sendo a mais representativa da história democrática brasileira.

“Nós estamos aqui para celebrar, justamente, a liberdade e nossas diferenças. Do lado oposto o que existe é o autoritarismo. E não existe democracia quando uma força política que está no poder quer anular as diferenças”, declarou.

Haddad disse também que o Brasil tem sido vítima de golpes sequenciais, com o afastamento presidenta Dilma Rousseff “no arrepio do que diz a constituição”, e a perseguição do presidente Lula quatro anos atrás. “Agora, chegamos em 2022 com condições de colocar esse país de novo nos trilhos do desenvolvimento com justiça social e democracia”, completou o ex-prefeito de São Paulo.

Guilherme Boulos reforçou que a reunião de pessoas que representam campos distintos da política brasileira, com suas diferenças conhecidas publicamente, tem como objetivo preservar a democracia para derrotar “um candidato fascista que ameaça as liberdades”.

“Eu acredito que esse encontro vai ser lembrado mais adiante como um momento histórico. Há quase 40 anos nós tivemos um palanque que uniu pessoas diferentes exigindo eleições diretas para derrubar a ditadura. Uma geração antes da minha enfrentou censura, tortura, mortes, para que a gente pudesse estar aqui hoje e eleger nossos representantes. Então nós estamos juntos com o intuito dessas conquistas e liberdades não escaparem das nossas mãos”, disse.

Ex-presidente do Banco Central, Henrique Meireles afirmou que sua vida pessoal e profissional sempre foi baseada em fatos, citando que na primeira gestão de Lula milhões de empregos foram criados, além de 140 milhões de brasileiros saíram da pobreza, com o país tendo um crescimento médio de 4% ao ano.

“Durante aquele período tivemos um crescimento forte. Eu sei o que funciona e que pode funcionar de novo. Agora, o dinheiro que Jair Bolsonaro está colocando na economia de forma eleitoreira criará um problema para o ano que vem, mas nós podemos resolver”, afirmou.

Geraldo Alckmin recordou que os presentes no encontro desta segunda foram adversários em algum momento, incluindo ele, em sua disputa contra Lula em 2006, mas que todos tinham projeto e o que sempre prevaleceu foi a democracia.

“A gente percebe nos últimos dias um cenário positivo, a população entendendo a importância dessa eleição, e a nossa união, essa pluralidade, mostra espírito público, capacidade de união que o Brasil precisa nesse momento triste que a gente vive do ponto de vista democrático, social, ambiental e econômico”, afirmou.

Alckmin explicou ainda que o encontro desta segunda serviu para que cada um dos presentes, nessa reta final de campanha, dentro da sua área de atuação, faça um esforço redobrado para conquistar votos necessários para derrotar o antagônico. “Lula representa uma grande esperança para o povo brasileiro”, declarou.

Também participaram da reunião Randolfe Rodrigues, senador pelo estado do Amapá, Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL, e Edinho Silva, prefeito de Araraquara.

Segundo Luciana Genro, a frente que hoje se une é antifascista. “O projeto representado pelo Bolsonaro, embora ele não tenha conseguido implementar no primeiro mandato, é fascista. Ele quer eliminar seus adversários. Nos unimos em torno do Lula porque nós achamos que sua eleição vai permitir que a gente possa lutar por uma verdadeira democracia”, disse ela.

“Essa unidade no primeiro turno nos coloca esse desafio de impedir que a violência seja ainda maior no segundo turno e que a gente possa garantir as liberdades democráticas. As mulheres serão as grandes protagonistas da vitória do Lula. São elas que carregam o piano das famílias e são as que mais estão enxergando a necessidade de derrotar o projeto fascista de Bolsonaro.”

Ex-ministro da Educação e ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque afirmou que Lula é a melhor opção para governar o país e trazer coesão e rumo. “Nós precisamos barrar o assombro da eleição, dessa tragédia brasileira de ter Bolsonaro reeleito. Não é responsável ter um segundo turno por causa da violência na rua e das fake news por parte dos bolsonaristas.”

UNIR OS ANTAGÔNICOS

No encontro, a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, defendeu a reconciliação dos brasileiros. “É preciso uma reconciliação do Brasil consigo mesmo, e Lula reúne as melhores condições para nos ajudar a realizar. A banalização do mal é quando existem pessoas, diante da morte, que é um dos momentos mais difíceis da vida, tripudiando a dor daquele que está enlutado. Diante dessas circunstâncias, nós temos que ter condições de derrotar Bolsonaro e colocar um freio no bolsonarismo.”

João Vicente Goulart afirmou que o país vive um momento histórico tão importante quanto o vivido após o golpe de 1964. “Neste momento, todos aqueles que lutaram pela democracia, que tombaram no caminho da restauração democrática, todos que tiveram presentes nas reivindicações junto ao povo brasileiro estão apoiando a candidatura de Lula. Sabemos que a luta é difícil e a união se faz necessária porque o Brasil está na frente de todos nós, das nossas divergências. Lembro que lá no exílio fizemos aliança com a direita, com Carlos Lacerda, para derrotar a ditadura”, lembrou.

(Foto: Ricardo Stuckert)

Jornalistas relatam assédios, constrangimentos e censura na EBC

16 jornalistas, sendo 11 mulheres, contam situações humilhantes e constrangedoras no dia a dia da empresa

Por Rubens Valente – Agência Pública

Assédio moral, censura, clima de medo por perseguição no trabalho, desvalorização e falta de diálogo. Dezesseis jornalistas, dos quais onze são mulheres, da empresa do governo federal EBC (Empresa Brasileira de Comunicação) entregaram declarações por escrito descrevendo situações humilhantes e constrangedoras no dia a dia da empresa a partir da chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

De um total de 35 depoimentos assinados e por escrito, entregues a uma comissão de sindicância interna da EBC – aos quais a Agência Pública teve acesso –, 15 trazem relatos do gênero. Procurada na última quarta-feira (14) para explicar esses relatos, a empresa respondeu com apenas uma frase: “A EBC não se manifestará”.

Os depoimentos dos empregados foram anexados a uma sindicância aberta pela EBC contra a jornalista Kariane Costa, contratada por meio de concurso público em 2012 e eleita em 2016 e 2021, pelos colegas da redação, representante dos empregados no Conselho de Administração da estatal.

Após receber de seus colegas inúmeras queixas com conteúdo semelhante, em 2021 Kariane fez uma comunicação à Ouvidoria da EBC para pedir que tudo fosse apurado. Porém, ela rapidamente passou de denunciante a investigada, sob a acusação de 12 gestores, justamente os mesmos sobre os quais ela pediu uma apuração. Eles pediram providências contra Kariane por supostos “ataques”. Seis deles foram à Justiça comum para fazer uma interpelação criminal contra Kariane. Em 18 de agosto último, a comissão sugeriu a demissão da jornalista. A decisão final caberá ao diretor-presidente da EBC, o publicitário Glen Lopes Valente.

“Não houve qualquer ofensa por parte da sra. Kariane, que agiu no estrito cumprimento do seu dever legal. A denúncia não era um ataque aos gestores, mas um pedido de investigação diante das inúmeras reclamações recebidas pela empregada pública”, escreveu a advogada da jornalista, Tuane Farias, do escritório Advocacia Riedel, na defesa apresentada à comissão da EBC.

Em uma reunião realizada no último dia 5 sobre o tema, o Ministério Público do Trabalho recomendou à EBC “a imediata suspensão de todos os processos administrativos disciplinares em face de empregados que tenham relatado à empresa ou ao Poder Judiciário possíveis situações de assédio moral”. Da reunião participaram representantes da EBC, da comissão dos empregados da empresa, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal e do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Radiodifusão e Televisão do DF.

As procuradoras do Trabalho Caroline Pereira Mercante e Andrea da Rocha Carvalho Godim querem que os processos sejam paralisados para que seja analisado se a EBC está descumprindo uma decisão tomada pelo TRT (Tribunal Regional do Trabalho) da 10ª Região. Em março passado, os juízes da Primeira Turma do TRT condenaram a EBC por assédio moral e fixaram uma multa de R$ 200 mil por “danos morais coletivos”. Também ordenaram que a EBC estabeleça canais de diálogo para receber e processar denúncias do gênero sob sigilo e sem que o denunciante sofra retaliações, entre outras medidas.

Comissão diz sobre a empregada: “Assédio moral ascendente”

Na peça que protocolou na Comissão de Sindicância, a defesa de Kariane mencionou que uma outra área da própria EBC, o Setor de Correição, emitiu uma nota técnica que reconheceu: “Prevalecem indícios de irregularidades relacionados a i) possível assédio por parte de gestores da Dijor [diretoria de jornalismo]”.
Mais tarde, ao encerrar sua atividade, a comissão afirmou que não houve assédio dos gestores, mas sim o contrário: de Kariane contra eles. A comissão disse o seguinte: “Assédio moral vertical ascendente, por meio de ações indiretas realizadas pela indiciada em desfavor de seus gestores”.

A defesa de Kariane apontou que uma eventual punição da jornalista “contribuirá para a formação de um cenário de desestímulo e de temor quanto a demandas de servidores junto à Ouvidoria, ao Conselho de Ética ou à Correição, pois já não se sentirão seguros quanto à resposta institucional frente a denúncias legítimas e no âmbito adequado da institucionalidade”.

A defesa de Kariane anexou os 35 depoimentos de seus colegas para demonstrar que, ao contrário do afirmado pelos atuais gestores da empresa, ela sempre teve um bom relacionamento e era elogiada pelos colegas, incluindo ex-chefes em cargos de edição e de coordenação de repórteres. Ao escrever sobre Kariane, muitos dos jornalistas, que serão aqui identificados por números para que suas identidades sejam preservadas do público, também apresentaram detalhes sobre um ambiente sufocante na EBC.

A jornalista Um disse que procurou Kariane em setembro de 2021 para que o seu caso fosse denunciado à administração da EBC. Ela é concursada na EBC há mais de 14 anos e desde então exerceu cargos diversos, como repórter especial, chefe de pauta e de reportagem. Em 2020 e 2021, frequentou um curso de mestrado em documentário num país de esquerda. Em julho de 2021, foi eleita representante da Comissão de Empregados da EBC. Dois meses depois, foi transferida de setor “de forma arbitrária”, sem consulta, “sem qualquer conversa ou diálogo”.

“As transferências arbitrárias e que não levam em consideração as aptidões do empregado têm se tornado costumeiras na EBC. As perseguições a empregados que questionam a gestão atual ou que ocupam cargos de liderança, seja ela sindical ou não, também se intensificaram”, disse a jornalista. Ela conseguiu uma promessa de vaga em outro setor, mas sua transferência foi vetada. Para ocupar essa vaga foi depois contratada uma pessoa de fora da empresa.

“Infelizmente a prática de assédio e perseguições se tornaram corriqueiras na EBC. Empresa que mesmo tendo uma decisão desfavorável na justiça quanto ao tema, continua optando por essa forma de gestão”, escreveu a jornalista.

Jornalistas tratados como “subversivos”

A jornalista Dois, que atua na área de radiojornalismo, contou que sofria problemas desde, pelo menos 2015, no final do governo Dilma Rousseff (“tinha meu texto mudado durante a edição com informações diferentes do que eu havia apurado”), mas a situação piorou a partir de 2017, já no governo Michel Temer, quando foi diagnosticada com um problema de saúde durante a gravidez. Mesmo com a necessidade de restrições apontadas por médicos, ela era pautada para assuntos de rua (“ouvia com frequência que gravidez não era doença e que outros colegas trabalharam até o último dia de gestação desempenhando as funções de repórter”).

Em 2019, quando estava grávida pela terceira vez, já no governo Bolsonaro, ela passou “por situações semelhantes em relação às cobranças para render”. Ela e seus colegas “começamos a nos deparar com orientações para não divulgar certos dados e passamos a dar assuntos de muita relevância por meio de notas nos jornais, notas (quando assunto não é tratado com a devida importância)”.

Certa feita, disse Dois, “eu me neguei a gravar uma reportagem censurada”. O texto falava sobre o aumento do desmatamento na Amazônia. “A régua no radiojornalismo para se dar um assunto passou a ser o que agradaria ou não a Presidência da República. Sofríamos pressões veladas sobre [para] termos cuidado com os textos para que não fechassem a EBC – o principal discurso para justificar a censura no setor.”

“Por outro lado, em pauta assuntos cada vez mais governistas e que claramente deveriam ser tratados no braço institucional da empresa. Os colegas que eram mais incisivos com a questão de se manter a missão da comunicação pública e de pautar assuntos que eram relevantes e que foram deixados de lado, eram tratados como subversivos.”

A jornalista contou ainda que viu “colegas sendo retirados de coberturas que faziam com frequência”. Foi o caso da própria Kariane, “retirada do Palácio do Planalto, com a justificativa de que haveria um rodízio de repórteres, o que nunca ocorreu”. “Desde que o atual governo assumiu, a cobertura ficou cada vez mais sensível e pontos de tensão eram sempre retirados.”

A jornalista Três, que trabalha há mais de sete anos na EBC, escreveu que “a situação de assédio e censura no radiojornalismo é geral, ocorrendo em todas as praças [cidades onde a EBC tem representação]”.

“O histórico de censura no jornalismo da EBC — e também no radiojornalismo — é amplo. Eu particularmente tive diversos embates com a chefia por conta disso no período da pandemia. Tudo que de alguma forma fosse sensível ao governo era vetado, gerando grande desgaste. Importante registrar que nesse período estava grávida.”

Quando voltou da licença maternidade, a jornalista descobriu que fora transferida da reportagem para a produção. “Preferiram me colocar na geladeira a me manter na reportagem, onde diariamente travava embates contra as tentativas de censura vigentes. […] Ninguém foi deslocado para a função quando eu a deixei, o que evidencia a perseguição de que fui vítima. O que estava em jogo era me tirar da reportagem porque eu batia de frente com a censura constantemente”, disse Três.

O jornalista número Quatro contou que também já foi eleito representante dos empregados no Conselho da Administração, mas nunca sofreu perseguição como a vivida por Kariane. Ele disse que “inúmeras vezes levou ao conhecimento da EBC denúncias sobre assédio de 2015 a 2020”.

A jornalista Cinco disse que o afastamento de Kariane da cobertura do Congresso Nacional foi “um dos primeiros e sucessivos atos que pude presenciar de um longo processo de cerceamento do dever e do direito que a Kariane tinha de informar. Já são quase 4 anos em que o cerceamento — a censura — está no cotidiano da EBC.”

“Assim com a Kariane, eu também vivi essa rotina e guardo inúmeros casos em que meu trabalho foi censurado porque os fatos desagradavam a linha ideológica dos gestores. Violência policial, combate à pandemia de Covid e crise econômica são alguns dos assuntos que viraram tabu nesse período”, disse Cinco.

Ela descobriu por acaso, numa troca de mensagens em um grupo de Whatsapp, que seu nome estava “interditado para a cobertura de pautas consideradas delicadas”. “Eu já tinha ouvido falar dessa interdição pelos corredores da empresa, mas isso ficou explícito e documentado.”

Jornalista foi perseguido após “pergunta incômoda” ao Ministério da Saúde

Vários depoimentos citam o caso do jornalista Gésio Passos, que de uma hora para outra “passou a cobrir temas absolutamente irrelevantes”. Isso ocorreu, segundo vários depoimentos, depois que ele “questionou o Ministério da Saúde sobre a qualificação em saúde dos militares que estavam assumindo funções na pasta”, conforme explicou a jornalista Cinco.

O jornalista Seis disse que Gésio “só recebia pautas de pouca importância, irrelevantes, de temas que, no máximo, deveriam ser feitos por um estagiário”. Segundo o jornalista, tudo reflexo de uma “pergunta incômoda” que Gésio “fez à equipe do ministro Pazuello” no Ministério da Saúde. O jornalista Sete disse que as redes sociais dos jornalistas eram “vigiadas”, pois ouviu de uma chefe que Gésio não poderia trabalhar na cobertura sobre o Palácio do Planalto “porque ele fazia postagens de oposição ao atual governo”.

Seis, que também era dirigente sindical, disse que “se recusou a gravar uma matéria censurada” com base “no Manual do Jornalismo da EBC, no Código de Ética da EBC e no Código de Ética dos jornalistas brasileiros”. A partir daí, teve aberto contra si um “termo de ajustamento de conduta” que, na prática, “me impediria de me manifestar contra censura até mesmo durante o processo eleitoral deste ano”.

O jornalista disse que as reuniões de pauta acabaram “após os repórteres questionarem a ausência de reportagens sobre o marco de 400 mil mortes causadas pelo coronavírus e sugeriram um especial sobre as 500 mil vítimas”. A pedido de duas coordenadoras, disse Seis, “o assunto foi deixado para uma outra reunião, que nunca ocorreu. A equipe entendeu a atitude como um grave caso de censura sobre um tema de interesse público. Somente com o retorno do trabalho totalmente presencial, no fim do ano passado, voltamos a ter reuniões de pauta, mas somente uma vez por semana.”

A jornalista Sete disse que “a rotina do jornalismo é tensa quando a pauta envolve o governo federal. As situações de censura variam desde a trechos cortados ou a pautas importantes que, sequer, são levadas adiante. É comum tentar negociar algum trecho importante no texto, que é simplesmente cortado sob a desculpa do ‘tamanho do texto’”.

Uma outra jornalista, que exerceu cargo de chefia, contou ter presenciado diversas vezes uma ocupante de alto cargo de direção “se referindo aos empregados como preguiçosos, terroristas, burros”.

A jornalista Sete, com 17 anos de profissão, disse que foi “uma experiência que jamais vivi antes em nenhuma outra empresa de comunicação onde trabalhei”. Em determinado momento da pandemia da Covid-19, ela questionou num grupo de trabalho do WhatsApp a ausência de uma reportagem sobre a marca dos 400 mil mortos. A partir daí, disse ter sofrido “uma série de ataques pessoais por parte das chefias presentes no grupo”.

“Havia nesse momento da EBC uma leva de transferências contra a vontade dos empregados de vários setores e também retaliações dos mais diversos tipos. Muitos destes colegas eram […] diretores do sindicato dos jornalistas. Também nos outros casos, as pessoas transferidas também questionavam o conteúdo editorial de alguma maneira e ou estavam em regime de teletrabalho por decisão judicial.”

Em algum momento, conforme contaram os jornalistas, uma das ocupantes de cargo de chefia soube que colegas estavam dizendo que ela exercia assédio moral sobre os seus subordinados. A partir daí, ela “ficou ligando para todos os repórteres e perguntando se ela estava assediando a gente, claramente fazendo pressão. Me senti muito constrangido”, disse um jornalista.

As transferências abruptas, disse outro jornalista, ocorriam “à revelia em outros setores da empresa, o que criou um clima de ‘caça às bruxas’ entre os colegas”.

“Os desentendimentos eram motivados, na maioria das vezes, pela negativa das chefias em se pautar um repórter com determinado tema, dando prioridade a assuntos frios (que não aconteceram no dia) ou a efemérides.”

*Colaborou Bruno Fonseca

Reportagem originalmente publicada na Agência Pública

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A valsa da despedida

POR GERSON NOGUEIRA

O sonho do acesso acabou. Toda a esperança da torcida alviceleste em relação ao jogo com o ABC foi esmorecendo à medida que os minutos iam passando. Esperava-se um time empenhado na busca pela vitória ou estrategicamente preparado para explorar os contra-ataques. Nem uma coisa, nem outra. Estranhamente, o PSC foi medroso, acanhado e tímido em quase todo o primeiro tempo. Foi como se o técnico Márcio Fernandes estivesse preocupado apenas em não perder um jogo que precisava vencer.

A pressão imposta pelo ABC era esperada, mas o PSC não tinha nenhuma alternativa de aproveitamento dos contragolpes. Toda vez que a bola era retomada, o passe saía torto e caía de novo em poder do adversário.

O gol potiguar só não saiu no primeiro tempo por pura sorte – e incompetência dos atacantes do ABC. A bola rondou sempre a área bicolor desde os primeiros minutos. A dupla estreante Lucão e Naylhor até se saiu razoavelmente, espanando cruzamentos.

Na frente, um raro bom momento. Após escanteio, Naylhor desviou e quase conseguiu abrir o placar. O goleiro fez grande intervenção, espalmando para o lado. No mais, apenas cruzamentos sem perigo e os indefectíveis arremessos, única arma do PSC ao longo da partida.

Veio o 2º tempo e Márcio Fernandes fez a troca óbvia. Tirou o inoperante Serginho e lançou Danrlei. Aos trancos e barrancos, sem receber sequer um bom passe ou lançamento, o centroavante se movimentava e incomodava a defensiva do ABC. Era o único, pois Marlon não deu as caras na partida.

Com bom controle do meio-campo, o time da casa seguia dominante, trocando passes desde a sua intermediária até as cercanias da área do Papão. Jefinho, que entrou na segunda etapa, caía pela direita e explorava a insegurança defensiva no setor guarnecido por Patrick Brey.

Aos 22 minutos, o meia Guilherme Garré, que havia acabado de entrar, pegou rebote de um cruzamento de Daniel Vanssan na área e mandou no ângulo esquerdo do gol de Tiago Coelho, abrindo o marcador e fazendo o estádio explodir em festa. (Detalhe: Garré passou pelo Remo em 2019, sem deixar saudades; Vanssan também).

Logo em seguida, Danrlei desviou de cabeça e quase empatou o jogo. A partir daí, o ABC se dedicou ao contra-ataque e teve chances de ampliar o placar. Garré e Jefinho jogavam soltos, praticamente sem marcação.

O PSC se mostrava indeciso entre buscar o empate e se resguardar para não tomar mais gols. Nessa hesitação, não ia a lugar nenhum. Pipico entrou nos minutos finais, mas nada mudou no comportamento errático do time.

A meia-cancha, com José Aldo e João Vieira à frente, setor que funcionou tão bem na fase de classificação, foi um dos pontos negativos da atuação do PSC em Natal. Faltou inventividade, rapidez e apuro nas tentativas de armação de jogadas. Na prática, o time perdeu a capacidade de surpreender e se tornou presa fácil para um ABC apenas esforçado e focado.

Não há o que lamentar quando se olha a campanha desastrosa do Papão no quadrangular: quatro derrotas em cinco jogos. Não tinha como dar certo.

Técnico assume toda a responsabilidade pelo fiasco

Após a derrota, o técnico Márcio Fernandes mostrou-se abatido diante dos repórteres e assumiu toda a responsabilidade pelo fracasso do Papão na tentativa de conquistar o acesso. Preferiu adotar essa postura, segundo suas palavras, para não ficar se justificando e colocando a culpa nos jogadores.

Sim, em boa medida, a responsabilidade é do técnico. O time chegou cotadíssimo ao quadrangular, após campanha consistente na fase de classificação. Marcou 33 pontos, a mesma quantidade do líder Mirassol.

Como em anos anteriores, o time perdeu gás na fase mais importante da competição. Márcio, porém, não tem explicação para a drástica queda de rendimento. Agarra-se a um argumento discutível. “No quadrangular, se for ver bem, nos três jogos que perdemos fomos melhores”, analisa.

Não é bem assim. Boa performance só tem valor quando vem acompanhada de resultado. O ABC, por exemplo, é um time previsível, fechado e pouco dado a goleadas, mas vence seus jogos. É o que importa, principalmente num campeonato nivelado por baixo como é a Série C.

Sobre a postura conservadora, o técnico disse que tentou adotar uma estratégia de espera no 1º tempo para ir ao ataque na segunda etapa. Esperou tanto que acabou não tendo tempo de achar o caminho do gol.

“Não esperava tomar aquele gol”, confessou Márcio. Observação estranha para um treinador que viu seu time ser atacado o tempo inteiro. Era previsível que o gol acabaria saindo em algum momento.

No próximo sábado, o PSC recebe o Vitória, na Curuzu, para mais uma despedida melancólica, embora a valsa do adeus tenha sido dançada em Natal. A permanência de Márcio Fernandes deve ser definida durante reunião marcada para esta semana.

No futebol espanhol, ato racista é prática comum

Não adiantou muita coisa a intensa mobilização de atletas, técnicos e torcedores contra os insultos racistas proferidos contra Vinícius Jr. por um comentarista da televisão espanhola. Ontem, apenas três dias depois do episódio, o atacante brasileiro voltou a ser alvo de ataques. Desta vez, por parte da torcida do Atlético de Madri antes do clássico com o Real.

Em vídeo que viralizou nas redes sociais, a torcida do Atlético entoou cânticos ofensivos contra o jogador, chamando-o de “mono” (macaco, na tradução em português). “Eres um mono, Vinicius eres um mono”, dizem os torcedores espanhóis no vídeo da Rádio Cadena Cope.

A nova manifestação só confirma um racismo estrutural e explícito bastante comum no futebol espanhol, apesar dos esforços de autoridades e instituições para negar essa tendência. Longe de ser uma exceção, o preconceito contra Vini Jr. é regra.

O lado bom é que o jogador respondeu em campo e parece não ter se intimidado. Comemorou dançando o gol do companheiro Rodrygo no clássico. Cumpriu a promessa de que vai seguir festejando gols com dança e alegria. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 19)

Ato de campanha nos funerais da Rainha geram críticas e aumentam isolamento de Bolsonaro

Por Jamil Chade, no UOL

Consternação, indignação e até vergonha. Essas foram algumas das palavras usadas por diplomatas estrangeiros ao descrever o comportamento de Jair Bolsonaro em sua passagem por Londres para o funeral da rainha Elizabeth 2ª. Fontes nas chancelarias europeias indicaram que a presença de mais de 500 presidentes, líderes internacionais e representantes de governos era para ser marcada pela sobriedade. Em seu lugar, porém, Bolsonaro fez questão de transformar seu primeiro dia em um ato de campanha eleitoral.

Seu discurso na sacada da embaixada do Brasil, inclusive contradizendo as pesquisas e afirmando que iria vencer as eleições no primeiro turno, foi recebido com desprezo e incompreensão. Londres, ainda que saiba que o país vive um período eleitoral, esperava um certo protocolo por parte do brasileiro diante do momento de luto.

Diplomatas brasileiros confirmaram que não houve uma recomendação expressa sobre o comportamento de cada líder. Mas admitiram que a esperança era de que nenhum deles usasse o evento fúnebre para buscar votos ou convocar apoiadores. Tampouco haverá espaço para negociações entre os representantes que desembarcam na capital britânica. Bolsonaro, porém, usou seu discurso para criticar posições das alas progressistas e falou de tráfico de drogas, aborto e gênero.

Para diplomatas europeus, a passagem de Bolsonaro pela Europa aprofunda o mal-estar e desprezo por seu governo no Velho Continente. Salvo em países liderados pela extrema-direita, o brasileiro não foi recebido por nenhum dos chefes de governo das principais democracias da Europa ao longo de seu mandato. Não foi falta de pedidos do Itamaraty, que chegaram a consultar no ano passado o então primeiro-ministro Boris Johnson para saber se Londres receberia Bolsonaro. Os britânicos mantiveram um silêncio constrangedor.