Filosofia de pé-quebrado encanta alguns, enriquece vários e emburrece muitos

Por Nathalia Claro Moreira (*)

Há uns anos o brasileiro elegeu Leandro Karnal e Luiz Felipe Pondé como referências de uma intelectualidade irrestrita. Karnal tem trabalhos em História da América, que é sua área de formação, e Pondé, em Blaise Pascal. A situação ficaria calma se eles se mantivessem em suas lagoas.

Mas a conjunção astrológica de língua ferina, terno bem passado e pele branca transformaram ambos em uma espécie de Oráculo de Delfos.

Não era raro ver Karnal conversando com Fátima Bernardes sobre… qualquer coisa. Mesma coisa Pondé. Futebol? Marketing? Conflito entre duas tribos africanas em alguma região remota subsaariana? Pix? Budismo? Jesus? O retorno do KLB? Tudo. Um belo discurso, uma frase de Shakespeare, uma curiosidade histórica, um aforismo de Nietzsche, um ar de caviar com champanhe no Coco Bambu… vinha uma resposta encantadora.

E o brasileiro acolhia. A Globo acolhia. A GNT acolhia. A impressão é que esses caras passam 24h estudando “Atualidades”, mas a verdade é que seus últimos trabalhos são aqueles atrativos ruins da seção de Auto-ajuda (e que infelizmente pipocam os 10 mais vendidos do ranking da Veja).

Esses dias Karnal argumentou que mandar áudio em WhatsApp é coisa de analfabeto. Hoje, li um artigo sórdido do Pondé arguindo com seu jeito pobre de reflexão que “autismo é a última tendência do mercado”.

Como Édipo, os olhos sangram.

Em minha última aula de Metafísica na Uerj, um renomado professor disse rindo que a CNN havia ligado para o departamento perguntando se ele poderia falar sobre o conflito da Ucrânia com a Rússia.

“Ele perguntou se poderia falar sobre a ontologia da guerra. Desligaram.

É isso. Sapos intelectuais, fiquem em seus lagos.”

(*) Professora universitária e pesquisadora

Sob um fio de esperança

POR GERSON NOGUEIRA

O empate entre Vitória e ABC, domingo, reabriu a temporada de cálculos e chutes sobre as próximas rodadas do quadrangular da Série C. A torcida do Papão, como cabe a toda e qualquer torcida, acredita que ainda é possível conquistar o acesso. No âmbito religioso, a fé move montanhas. No campo esportivo, nem sempre. Apesar disso, é legítimo seguir apostando e dando força ao time. A receita para o êxito ficou mais simples: agora é vencer ou vencer.

Vencer os três jogos que restam não será suficiente para assegurar a vaga. Será necessário secar os adversários de grupo, torcendo para que empatem entre si. Domingo, por exemplo, enquanto enfrenta o Figueirense na Curuzu, o torcedor terá que torcer para que o ABC empate com o Vitória. Assim, ambos avançariam apenas um ponto, deixando aberta a possibilidade de serem alcançados pelo Papão.

Nas demais rodadas, será assim também. O PSC terá que derrotar o ABC em Natal e torcer por outro empate entre Vitória e Figueirense. Até que, finalmente, na rodada final, dentro de casa, possa enfrentar o rubro-negro baiano dependendo de uma vitória, além de torcer para que não haja uma vitória entre Figueira e ABC.

São projeções difíceis de concretizar, mas há sempre o necessário adendo: a sequência de resultados não é impossível acontecer. Nunca ocorreu antes, mas sempre há uma primeira vez, pelo menos no coração esperançoso do torcedor bicolor.

O grande problema de toda essa febril avaliação matemática está no próprio rendimento do PSC. Não vence há quatro partidas e no quadrangular não conseguiu pontuar. Um time assim tão desplugado em relação a resultados é capaz de reverter expectativas e dar a volta por cima? Nem o técnico Márcio Fernandes parece arriscar um palpite certeiro.

Ao ser indagado sobre isso, após o jogo em Florianópolis, ele preferiu botar as previsões nos ombros do destino. De qualquer maneira, se quiser mesmo trilhar essa saga de recuperação, Márcio precisa ajustar todos os setores do time, começando pelo gol. Tiago Coelho tem falhado seguidamente – a última foi a estabanada saída no lance do gol do Figueira.

O empate veio no momento errado, interrompendo a boa atuação do time, que saía em velocidade e criava seguidas chances na área catarinense. Diante da pressão da Curuzu lotada, domingo, o goleiro terá uma prova de fogo contra um ataque qualificado. Talvez a substituição pelo reserva Elias seja uma boa saída, até para preservar o titular.

O meio-campo terá que ser mais dinâmico e proativo, apesar da boa movimentação nos primeiros 30 minutos em Florianópolis. Já o ataque merece atenção especial. Robinho é indiscutível como homem de lado. Foi o responsável pela belíssima inversão que originou o gol de José Aldo, mas ele e Marlon precisam ter um parceiro mais centralizado, talvez Danrlei ou Toscano, de boa presença na área.

São soluções que o técnico buscará alcançar durante os treinos da semana. O torcedor, por seu turno, seguirá mergulhado em palpites e apostas, como forma de alimentar a esperança.  

Direto do blog campeão

“Falhas e incompetência. Mais um gol incrível perdido. Com tão poucas chances, as claras não podem ser desperdiçadas. Pipico perdeu um gol sozinho com o goleiro. O Tiago Coelho foi grotesco. Já vi montinho artilheiro encobrir goleiro no chão, mas em pé é a primeira vez. Mas não vejo o Paysandu inferior aos outros times, se vencer o próximo jogo, a classificação ainda é possível”. Roselino Almeida

“Embora existam pequenas possibilidades o pulso ainda pulsa! O maior adversário do Paysandu é ele mesmo. As três derrotas, não merecidas, seguiram a retórica de que a bola pune. A bola puniu o Paysandu pela incompetência nas finalizações, puniu por ser uma equipe de improdutivos toques laterais, puniu por jogar muitas vezes no sentido da própria área beneficiando os adversários facilitando seus sistemas defensivos e em outras oferecendo o gol a equipe oponente. Também tem o dedo do treinador deixar o Toscano e levar um ‘lesionado’ para motivar psicologicamente o time? Olha sem palavras…” Miguel Carvalho

Quem nasceu para Gabigol jamais chega a Romário

A marra sempre foi um atributo indissociável de Romário ao longo de sua profícua carreira. O lado marrento de sua personalidade pontificava em declarações firmes e abusadas, dirigidas a técnicos e jogadores caneleiros, e no tom desafiador com que tratava a cartolagem.

É bem verdade que o indomável Romário dos gramados sucumbiu aos ditames da baixa política, tornando-se um senador apagado, de raríssimos projetos dignos de menção na principal casa legislativa do país.

Cito Romário em comparação direta com Gabriel Barbosa, autointitulado Gabigol, ídolo da massa rubro-negra e alvo da antipatia das demais torcidas. Não que a ojeriza venha dos muitos gols que marca. Romário também fazia gols em profusão, mas era respeitado e admirado.

O problema em Gabigol é a arrogância no trato com árbitros e companheiros de profissão. Intimida dos apitadores e quase sempre se beneficia frente aos sopradores de apitos que se pautam mais pelo peso das camisas dos times em campo.

Rafael Claus, o árbitro que vai à Copa pelo Brasil, é um deles. Sofre nas mãos de Gabigol, que certamente já notou a tibieza do árbitro ante à torcida do Flamengo. De repente, porém, aparece um juiz menos medroso e acaba fazendo a justiça há muito esperada.

Foi o caso do árbitro Paulo Zanovelli da Silva (MG), que apitou Flamengo e Ceará, domingo. Diante das ostensivas reclamações de Gabigol, tomou a atitude corajosa de expulsar o encrenqueiro. Foi a 4ª expulsão do atacante desde seu retorno ao futebol brasileiro em 2019. Um recorde – certamente o único em que consegue superar o baixinho Romário. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 06)