O futebol que sabota a paixão

POR GERSON NOGUEIRA

Há pelo menos 40 anos estabeleceu-se um descompasso entre o futebol jogado no país e o que a Seleção Brasileira mostra nos torneios que disputa. Tudo porque os jogadores reunidos no escrete jogam nas principais ligas do mundo, bem distanciados do que ocorre no tedioso Campeonato Brasileiro e na igualmente pobre (tecnicamente) Copa Libertadores.

Os mais conformados irão dizer que as coisas são assim mesmo, não há nada a fazer além de aceitar a realidade. Fico no grupo dos insatisfeitos. É possível imaginar uma realidade em que a Seleção tenha identificação e seja espelho do que se passa no Brasil. Mas, para que isso aconteça, obviamente, o nível das competições nativas precisa evoluir muito.

Nos dias atuais, não é possível ter um selecionado com jogadores colhidos nos grandes clubes brasileiros. Quase todos que atuam aqui, salvo exceções pontuais, estão presos a um modelo absolutamente desconectado do que é o futebol competitivo no mundo, sem que mostrem as qualidades que fizeram do Brasil um celeiro de craques. 

Há um empobrecimento acentuado da técnica e um sufocamento progressivo do talento. Tudo porque prevalece o anti-futebol, moldado na força bruta, nos lançamentos longos, no rodízio de faltas como tática de defesa e no predomínio das bolas paradas como arma ofensiva.

Tome-se por exemplo o confronto entre alguns dos principais times do país nas quartas de final da Libertadores. Na terça-feira, Flamengo e Corinthians jogaram no Rio. A parte válida do confronto limitou-se ao primeiro tempo, quando os dois times duelaram com equilíbrio, embora com pobreza de recursos e baixa organização tática.

Ontem, Palmeiras e Atlético-MG se enfrentaram em São Paulo. Jogo pontilhado por faltas, pancadas para todo lado e nenhum lance de mínima habilidade. Dribles parecem definitivamente riscados do mapa, é como se fossem ofensivos à lógica do pragmatismo.

Técnicos nativos ou importados agem com a mesma despreocupação em relação ao lado estético do jogo, um festival de chutões e arremessos laterais, o que é desalentador porque a origem da paixão pelo futebol está no encanto que os embates provocam. As ligas europeias, cheias de craques, são disputadas no limite máximo, mas garantem bons espetáculos.

Aqui no país que já se orgulhou de ser a pátria da bola impera hoje a negação dos princípios que fizeram do futebol uma atração para multidões. Fica difícil imaginar alguém se encantando com os jogos sofríveis, sem lances espetaculares e com economia de gols.

A garotada, quando não busca alguma das incontáveis opções de diversão que o mundo virtual oferta, dedica-se a cultuar os times repletos de artistas da bola que as ligas internacionais apresentam. Duvido que um menino nascido na era da interatividade caia de amores por um futebol tosco e desinteressante, disputado quase no tapa e sem emoções genuínas.

Palmeiras e Atlético, dois dos times mais poderosos do país, entregam em campo um produto paupérrimo, que ofende os sentidos e desafia a paciência. Se os que podem ter bons jogadores são assim, não precisa forçar a mente para imaginar a pobreza dos times mais modestos – 95% dos que disputam os torneios nacionais.

Um veterano artilheiro buscando recomeçar

O atacante Pipico chegou ao futebol paraense com pelo menos dez anos de atraso. Explico melhor: o Pipico goleador, arisco e oportunista, era sonho de consumo da dupla Re-Pa por volta de 2010. Gestões foram feitas para tentar contratá-lo, sem sucesso. No ocaso da carreira, já sem muitas opções no mercado, ele finalmente aceitou vir defender o PSC.

Parte da torcida torceu o nariz para a contratação. A outra metade aplaudiu, saudosa daquele artilheiro que tantas vezes impressionou pelos gols que fazia com as camisas de Bangu, Vasco e Santa Cruz, principalmente.

A memória prega peças. No futebol, então, isso vive acontecendo. O torcedor costuma situar o foco de sua atenção no período áureo de um jogador, muitas vezes acreditando num hipotético elixir da juventude, capaz de fazer com o tempo pare e o encanto sobreviva.

Pipico, do alto de seus 37 anos, enfrentou naturais adversidades na tentativa de se encaixar no time do PSC. Mesmo contra defesas frágeis foi pouco contundente. Depois de passar em branco em duas ou três chances no time titular, perdeu espaço e quase caiu no esquecimento.

De repente, em 15 minutos, a velha chama ressurgiu. Diante do Altos-PI, sofreu um pênalti e conseguiu marcar o primeiro gol pelo Papão, bem ao seu estilo – posicionamento perfeito para aproveitar um rebote do goleiro.

O técnico Márcio Fernandes saudou de imediato a recuperação do atacante. Sabe, por experiência própria, que goleadores vivem de momentos especiais e precisam ter confiança. Por isso, o reencontro de Pipico com o gol deve ser devidamente valorizado.

Significa que, a partir de agora, ele já não entrará em campo com a imensa cobrança sobre os ombros. A pressão nem precisa ser da torcida. O próprio jogador fica a se cobrar, insatisfeito consigo mesmo.

Caso se firme nos próximos jogos, Pipico pode representar uma opção interessante para um time que explora jogadas em velocidade para invadir a área adversária. Diferentemente dos centroavantes corpulentos, ele sempre explorou a rapidez dentro da área e a boa colocação para receber bolas.

Quanto à importância da paciência que a torcida deve ter com ele, basta lembrar exemplos icônicos no clube, como o de Vandick, que em 2002 precisou do apoio resoluto de Givanildo Oliveira para se estabilizar e partir para uma sequência de gols que estão definitivamente na história do Papão.

Ninguém exige ou espera que Pipico seja um novo Vandick, mas, se contribuir com gols ao longo do quadrangular decisivo da Série C, já terá cumprido sua missão na Curuzu.

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 11)

Um comentário em “O futebol que sabota a paixão

  1. Gerson, depois do confronto entre Palmeiras e Atlético Mineiro eu fiquei a me perguntar como o Galo das Alterosas havia faturado o título da Série A e da Copa do Brasil no ano anterior. É um time aloprado, sem vida inteligente no meio campo, com “gratas surpresas” como Jair e Ademir que correm mais do que a bola, tropeçam nela e jogam de cabeça baixa; são incapazes de olhar para o lado e erram passes laterais.. Os alas não chegam à linha de fundo e prevalecem os chuveirinhos despretensiosos da intermediária. Para times bem treinados e ofensivos, algo comum nas grandes ligas da Europa, um confronto em que seus oponentes estão com dois jogadores a menos no campo de jogo é sinônimo de massacre e até de vitória por placar elástico, mesmo que os times em campo sejam equivalentes. Esse deserto de ideias no repertório do campeoníssimo time mineiro nos faz questionar o nível de nossos futebol jogado dentro de nossos quintais. E o mais curioso é que praticamente ninguém da imprensa esportiva do Sul Maravilha levantou essa questão, ao contrário, prevaleceu o enaltecimento à resistência não tão heroica de um Palmeiras que não perdeu mais pela indigência técnica e tática do Galo do que pela dedicação e entrega alviverde.
    Triste futebol brasileiro.

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