Operação policial contra desembargadores levanta desconfianças sobre o verdadeiro objetivo da missão

Causou estranheza a deflagração de operação da Polícia Federal, em conjunto com a Procuradoria-Geral da República (PGR), nesta quinta-feira (04), a dois meses das eleições, destinada oficialmente a cumprir 30 mandados de busca e apreensão contra desembargadores do Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA) e servidores de diversos órgãos do Executivo estadual. O nome da operação “Q.I.” remete ao termo informal “Quem Indica”, em substituição à sigla original “Quociente de Inteligência”, e foi utilizado para descrever indicações baseadas nas relações pessoais e de amizade em detrimento conhecimentos formais e habilidades de candidatos a uma vaga de trabalho, circunstância que fere os princípios da administração pública.
Cerca de 112 Policiais Federais foram mobilizados para cumprir as medidas cautelares expedidas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo informe da Assessoria de Comunicação da PF, a operação teve a participação de procuradores da República. “A investigação teve início a partir da análise do material apreendido na Operação Para Bellum, ocorrida em junho de 2020 e que apurou fraudes na compra de respiradores pulmonares pelo governo do Pará”, diz o texto da PF. A ministra Nancy Andrighi, do STJ, expediu mandados de busca e apreensão, além dos gabinetes dos desembargadores, também na residência de Rômulo Marcelo Ferreira Nunes, irmão do desembargador Rômulo Nunes.
Em um dos telefones celulares analisados teriam sido localizadas mensagens, que demonstram que, de um lado, desembargadores do TJPA, teriam patrocinado, direta e indiretamente, interesses privados perante a administração pública, ao indicar “apadrinhados” (parentes e amigos) para cargos em comissão em órgãos do Executivo. A Polícia Federal continuará investigando os fatos. O tribunal ainda não se manifestou sobre a operação. Entre os alvos da operação estão os desembargadores Rômulo José Ferreira Nunes, seu irmão Ricardo Ferreira Nunes, Maria de Nazaré Silva Gouveia dos Santos e Vânia Lúcia Carvalho da Silveira. 

De todo modo, a surpresa vem do fato de que o chamado nepotismo cruzado – prática deplorável em qualquer nível da administração pública – é praticado à larga em todas as instâncias de poder no Brasil, incluindo, com destaque, órgãos de responsabilidade direta do Governo Federal. Outro aspecto que deixou muitas dúvidas é o momento escolhido para deflagração da operação, faltando menos de 60 dias para as eleições no país.

Sem esquecer que o governador do Pará é considerado como integrante do grupo de oposição ao atual presidente da República.

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