O triunfo da obstinação

POR GERSON NOGUEIRA

Um gol espetacular, coroando a goleada do Palmeiras sobre o Cerro Portenho, na quarta-feira à noite, sacudiu o país de ponta a ponta. Uma bicicleta clássica, executada com arte e inspiração pelo paraense Rony, virou uma notícia até mais importante do que o próprio triunfo palmeirense sobre o time paraguaio.

Rony é um atacante absolutamente diferente de seus pares no futebol brasileiro. É rápido, dribla sempre na vertical e busca o gol o tempo todo. Poucos agem assim. Ele também não jogava assim, mas mudou de estilo a partir da experiência com Abel Ferreira, técnico do Palmeiras.

A obstinação tem marcado sua carreira desde que deixou o Atlético-PR e encarou o desafio de jogar no futebol paulista. Aos 27 anos, aperfeiçoou fundamentos, ficou mais atento às necessidades táticas do time e tem melhorado nas finalizações.

O sonho de fazer um gol de bicicleta acompanha Rony desde que começou a jogar ainda nas divisões de base do Remo. Sempre balançou as redes com facilidade, mas o gol especial teimava em não acontecer. Quis o destino que viesse a ocorrer num jogo importante, valendo pela Libertadores, o que gerou ainda mais repercussão.

É bem provável que a bike de Rony seja selecionada para o Prêmio Puskas da Fifa, que destaca o gol mais bonito da temporada. O cruzamento veio à meia altura, sob feição para que o ágil dianteiro girasse no ar e apanhasse a bola com um tiro forte, indefensável, no canto esquerdo da trave do Cerro.

Curiosamente, quando chegou ao Palmeiras, há três anos, Rony enfrentou uma campanha ruidosa por parte da crônica esportiva paulistana. Chegou a ser visto como um reles perna-de-pau, com pouco futuro na Academia.

Foi queimando etapas e trabalhando em silêncio para se estabilizar conquistando espaço no time titular, a partir de sua utilidade para o jogo coletivo. Com Abel Ferreira no comando, essas virtudes foram amplificadas. Na final do Mundial de Clubes, diante do Chelsea, Rony chegou a jogar como ala esquerdo, acatando orientação do técnico.

No Palmeiras atual, é o atacante mais agudo. Marcou 18 gols no principal torneio continental, ultrapassando a marca do Rei Pelé. Não parece disposto a se acomodar, evolui sempre. Tem em seu favor um tipo físico talhado para o jogo de velocidade e exibe uma persistência infinita na busca por resultados.

Vários atacantes têm passado pelo clube desde que Rony chegou, mas ele segue absoluto no ataque, com total apoio e confiança de Abel. Para o garoto de Magalhães Barata que quase desistiu diante das dificuldades iniciais na base do Remo, Rony mostra evolução e maturidade.

Tem características a aperfeiçoar, mas não perdeu a essência agressiva que é o principal trunfo de seu futebol. Além disso, já demonstrou humildade para aprender e assimilar tudo que lhe é repassado. Precisa, obviamente, torcer para que o mentor Abel Ferreira esteja sempre por perto.

Artilharia resulta de esforço pessoal e jogo coletivo

Marlon é, há pelo menos duas temporadas, o melhor atacante do PSC. Tem uma trajetória que lembra até seu antecessor na galeria dos goleadores do clube. Nicolas também não chegou à Curuzu como atacante de área. Era um jogador de lado, partindo do meio-campo. Aos poucos, pela facilidade para marcar gols, virou um falso centroavante.

O meia-atacante Marlon não é um exímio cabeceador como Nicolas, mas compensa isso com qualidades de definidor. Chuta muito bem de média e longa distância, aliando rapidez e boa ocupação de espaços.

Sob o comando de Márcio Fernandes, ele ganhou mais importância no modelo de jogo praticado pelo PSC na Série C. Tornou-se protagonista de um time sem centroavante fixo. Compensou a ausência de atacantes de área com eficiência na definição das jogadas.

Há tempos merecia esse destaque, embora os técnicos insistissem em colocá-lo como um jogador de beirada, quase sempre distante da área adversária – e do gol. O mérito de Márcio Fernandes é encontrar um lugar adequado para Marlon botar em prática suas qualidades.

Contra o Confiança, amanhã, tem boa chance de quebrar o atual jejum de vitórias e de ampliar sua marca na artilharia do campeonato.

Gusmão prepara o Remo, mas mudanças são tímidas

O Remo vem treinando para acertar o passo e remendar problemas visíveis no setor de meio-campo. O técnico Gerson Gusmão tende a manter Jean Patrick como segundo volante, junto com Anderson Uchoa, Erick Flores e Fernandinho. Um quadrado que até hoje parece clamar por eficiência.

Essa formatação foi utilizada pelo antecessor, Paulo Bonamigo, durante mais da metade da fase de classificação, com resultados questionáveis. Dos quatro jogadores do setor, somente Uchoa mostra regularidade e capacidade inventiva.

Os demais tropeçam na instabilidade, acabando por contaminar o resto do time. Quando assumiu o comando, há 12 dias, Gusmão trazia a esperança de mudanças pontuais na equipe. Afinal, se era para continuar jogando no padrão Bonamigo, não havia necessidade de trocar de técnico.

Até agora, porém, só uma tímida mudança foi efetivada: a troca de Daniel Felipe por Igor Moraes na zaga. Nas demais posições, o Remo segue igual, e igualmente confuso, como se viu no Re-Pa.

Para o confronto decisivo com o Atlético-CE, no próximo domingo, o time precisará ser mais criativo nas ações ofensivas e mais forte na marcação. Com dois meias de ofício no elenco, Albano e Anderson Paraíba, parece esquisito manter a meia-cancha entregue apenas a jogadores de combate – que nem sempre combatem de verdade.

A novidade está no ataque, onde Brenner deve reaparecer após um período lesionado. O problema é que o atacante, para ser útil, vai precisar de jogadas elaboradas para ele. Do contrário, seguirá (como Vanilson, seu substituto no Re-Pa) tendo que se afastar da área para conseguir pegar na bola. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta sexta-feira, 08)