Velhas novas aventuras no reino da gibilândia

Por André Forastieri

Eu não lembro de não ler quadrinhos. Minha mãe me ensinou a ler entre os quatro e os cinco anos. Painéis e balões ilustram minhas mais antigas memórias. Digito neste instante cercado por milhares de páginas ilustradas. Continuo lendo quadrinho de todo tipo e gibi de super-herói também, primeira e permanente paixão. 

Hoje sigo mais os criadores que as criaturas. Me interessa mais quem escreve a história, quem é o artista, do que personagem esse ou aquele. Se por acaso um criador de talento está passando uma temporada em Gotham City, ótimo. 

Normalmente as melhores histórias em quadrinhos são aquelas inventadas por pessoas, não por times coordenados por comitês a serviço de grandes corporações. Sim, gibi não é só pra criança. Mas vale pros gibis pra criança também.  

Não recomendo que seu cardápio quadrinístico se resuma a super-heróis, pela mesma exata razão porque seu menu cinematográfico também não pode se limitar a eles. O ponto é que super-herói, e aliás herói e heroína em geral, é coisa pra criança, sim; e criança gosta de repetição. Você não tem momentos em que bate desejo de comer o que comia quando era moleque? Ouvir aquela canção que te emocionava menina? Pois então.

Hoje está muito bem estabelecido, inclusive legalmente, que quando um talento coloca sua energia criativa a serviço uma marca, tem limites muito estreitos até onde poderá ir. Um quadrinista contratado pode fazer muita coisa com Homem-Aranha, Naruto ou Asterix, mas no final do dia não pode fazer nada que atrapalhe a venda de lancheira, camiseta, boneco e videogame. 

Fato é que muita gente jovem taí fazendo o velho, novo. O olho da escritora nipoamericana de 25 anos enxerga a Mulher-Maravilha de um jeito bem diferente que marmanjos de outras eras. Make it new, recomendava o poeta. 

Isso explica em boa parte a nova pesquisa que saiu esses dias, informando que nunca nos EUA se vendeu e faturou tanto com HQ. A maior parte em formato livro, vendido em livraria física e online, certamente a maior parte mangá. Mas tem pra todo público e com todo tema, segue vivo o formato gibizinho panfleto, e cresce o consumo da HQ digital. 

Os números estão aqui, e peguei no Twitter do indispensável Érico Assis.

É um sentimento muito confortável abrir uma revista (ou hoje, mais frequentemente um livro ou um tablet) e reencontrar velhos amigos e inimigos. Estão sempre vivendo aventuras que reconhecemos mas não são exatamente iguais às passadas. De vez em quando ganham roupagens fresquinhas, melhor ainda.

Muita gente que não lê gibi sente o mesmo prazer preguiçoso, gostoso, acompanhando universos ficcionais durante anos fora das HQs. Estão aí as infinitas franquias de livros, games, séries de TV, filmes. 

Quem não tem esse hábito pode ficar exasperado com esta repetição infinita, a cobra mordendo o rabo, uma história sem fim. 

O questionamento que resume melhor esta irritação, quando se trata de super-heróis, é: porque eles não resolvem as coisas de uma vez? Porque, santa leniência, o Batman não mata o Coringa e ponto final?

Tem duas boas razões porque o Batman não mata e jamais matará o Coringa. E te conto semana que vem, não perca o próximo bat-episódio!

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