Comentários sobre o casamento de Lula e Janja revelam o lado podre do país

Por Ricardo Kotscho

“A única coisa que um cubano odeia mais do que o imperialismo americano é o sucesso de outro cubano.” (Leonardo Padura, romancista cubano de sucesso internacional).

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O mesmo se pode dizer de Tom Jobim, o nosso grande compositor, aplaudido pelas plateias do mundo inteiro, autor da célebre frase: “No Brasil, sucesso é ofensa pessoal.”

Conta Nelson Motta, que está escrevendo um musical sobre a obra de Tom:

“Um dia, Tom tomou banho e foi almoçar na varanda do restaurante Antonio’s, no Leblon. Assim que o prato de camarões chegou, um barbudinho que passava parou, olhou e o acusou como quem flagra um crime: ‘Ra-rá! Aí, hein, seu Tom Jobim. De banho tomado… comendo camarão…'”.

Em 1965, lembra Motta, “The girl from Ipanema”, com João Gilberto, Stan Getz e Astrud Gilberto, ganhou o Grammy de “música do ano” e “álbum do ano, concorrendo com os Beatles, Elvis Presley e Frank Sinatra, e provocou admiração mundial. E desprezo no Brasil.

“Nas esquinas e nos velórios, nos botecos e nas farmácias, como dizia Nelson Rodrigues, os lorpas e pascácios rosnavam suas frustrações: “Se vendeu para o capitalismo e o imperialismo”, “lacaio de Tio Sam”, “fica aí nos Estados Unidos mesmo que tu já é americano”.

Tom Jobim me voltou à lembrança ao ler os comentários raivosos, ressentidos e canalhas publicados estes dias, por uma legião de haters doentes nas redes sociais, sobre o casamento do ex-presidente Lula com a socióloga Rosângela da Silva, nesta quarta-feira, em São Paulo.

A felicidade dos outros chega a ser uma agressão para este lado infeliz e podre do Brasil, que se compraz com os ídolos caídos e desconta suas frustrações naqueles que são vencedores em seus campos de atividade.

São os mesmos idiotas que comemoraram a prisão de Lula, a doença e a morte de Marisa, do seu irmão Vavá e de um neto, incapazes de separar o político do ser humano e de demonstrar qualquer empatia com a tristeza ou a alegria alheia.

Bastaram sair as primeiras notas nas colunas sociais sobre o vestido de Janja, o local da festa, os comes e bebes que seriam servidos, para a malta enlouquecer e atacar os noivos como se eles estivessem cometendo um crime de lesa pátria, “torrando milhões de reais do nosso dinheiro enquanto o povo passa fome”.

Teve até quem criticasse Lula por se casar em meio à campanha eleitoral, conflagrada por esses mesmos néscios, como se uma coisa tivesse a ver com outra, e houvesse tempo certo para o casamento de um viúvo de 76 anos, que acabou de passar 580 dias na prisão, sem culpa formada, num processo político arbitrário e ilegal, já condenado pelo STF e pela ONU. Para essa gente, Lula simplesmente não tem direito de amar e ser feliz.

Assim como Tom Jobim, Lula é reverenciado em todos os países por onde passa, reconhecido pela sua luta contra a fome e a miséria no Brasil, durante seus oito anos de governo, pragas que agora estão de volta.

Mas aqui ele não tem direito nem de se casar em paz, numa festa singela e bastante emotiva, sem nenhuma ostentação, cercado apenas de parentes e amigos próximos, ao contrário do dito nos comentários rancorosos e maledicentes da fábrica de fake news instalada no gabinete do ódio, que me recuso a reproduzir aqui porque me embrulham o estômago.

“Tom sofria com isso. Muito. Se sentia injustiçado. Desrespeitado. Não entendia. E dizia: ‘o Brasil não é para principiantes'”, escreveu Nelson Motta no final da sua coluna do Globo sobre o personagem do musical que está produzindo.

Eu também não entendo.

Como foi possível o Brasil de Tom Jobim e Lula, aquele país até outro dia admirado pelo mundo, virar isso?

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Vida que segue.

Punições para dar exemplo

POR GERSON NOGUEIRA

Uma novela que já se arrastava há semanas finalmente chegou a um desfecho: o TJD julgou e puniu os responsáveis pela pancadaria que empanou o brilho da decisão do Campeonato Paraense, no estádio da Curuzu, na noite de 6 de abril. Na condição de mandante e responsável pela segurança da partida, o PSC foi penalizado com R$ 30 mil pelos tumultos e pelo apagão durante a premiação aos campeões. Por objetos atirados no gramado, mais R$ 10 mil de punição.

Além da condenação pecuniária, o PSC teve confirmada a perda de um mando de campo, que deve ser cumprido no Campeonato Paraense de 2023. As decisões tomadas pelo TJD na terça-feira, 17, são inéditas quanto ao rigor. Indicam a intenção de dar exemplo e evitar novos abusos.

A punição mais pesada atingiu o chefe de segurança e coordenador de futebol do PSC, Luciano Mendes, sentenciado com 30 dias de afastamento por agredir dois diretores do Remo durante os tumultos registrados após o clássico vencido pelos bicolores por 3 a 1, e que garantiu o título estadual aos remistas.

Mendes também recebeu pena 240 dias de suspensão de atividades no futebol profissional, por ser identificado como o principal responsável pela confusão na Curuzu. Na prática, ele só vai cumprir esta punição, pois já havia sido afastado de suas funções pela diretoria do PSC, que não compactuou com suas atitudes.

Os vídeos do tumulto constituíram a principal peça de acusação durante o julgamento no TJD por exibirem as cenas de agressão do ex-funcionário do PSC contra o diretor de Base do Remo, Marcelo Bentes, e contra a diretora de Operações e Logísticas, Valleny Silva.

Tanto o clube quanto Mendes ainda podem recorrer da decisão. A direção do PSC já admitiu a intenção de contestar o resultado do julgamento, entendendo que as penas foram muito rigorosas, sendo que o Remo foi absolvido.

A agressão contra os dirigentes do Remo foi denunciada à Polícia Civil, onde um inquérito foi realizado. Os autos já foram remetidos à Justiça. Que a decisão do TJD seja cumprida e que represente, de fato, um marco no combate ao processo de avacalhação do futebol paraense.

Inversão de mando ameaça equilíbrio da Série B

Dois clubes do Nordeste, Sport e Bahia, protestaram formalmente contra a mudança do local do jogo Guarani x Vasco, pela 8ª rodada da Série B, que saiu de Campinas (SP) para Manaus (AM) após acordo financeiro de compensação ao clube paulista pelo mando. No protesto, os clubes cobram da CBF a revisão d decisão que autorizou a transferência.

Prevista para hoje, a inversão de mando incomodou outros clubes, que ainda não se manifestaram, mas já se movimentam nos bastidores. É o caso de Cruzeiro e Grêmio, que entendem haver um favorecimento ao Vasco.

Na prática, a vantagem está no apoio da torcida manauara ao time vascaíno, ao contrário do que ocorreria em Campinas. A grita é porque os demais clubes não terão o mesmo privilégio ao longo da competição.

Curiosamente, a CBF a princípio negou autorização para a mudança de local, mas mudou de ideia no último dia 11 de maio, através de comunicado postado no site oficial da entidade formalizando a decisão.

Como justificativa, a entidade informou que o Guarani, mandante do jogo, pediu que a CBF reavaliasse a decisão sob a alegação de que está reformando o gramado do estádio Brinco de Ouro da Princesa.

“Diante disso, a Diretoria de Competições acolheu as explicações apresentadas pelo Guarani e, usando de sua prerrogativa como organizadora da competição, deferiu o pedido de alteração do local do jogo”, explica a CBF.

É justamente aí que mora o perigo. Como organizadora da competição, a CBF deveria ser a primeira a zelar pela lisura e equilíbrio do campeonato respeitando o parecer de dois de seus diretores, que vetaram a mudança de local por ferir artigos tanto do Regulamento Geral de Competições (RGC) quanto do Regulamento Específico da Série B.

O RGC, em seu parágrafo 1º/artigo 13, estabelece: “Não será autorizada a inversão do mando de campo ou (ii) que uma equipe mande a partida no estádio habitualmente utilizado pela equipe adversária”.

Diante disso, é o caso de se dizer, como o genial Stanislaw Ponte Preta: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”.

Nossa brava (e gaiata) língua portuguesa

A conexão lusitana em voga no futebol brasileiro desde 2019, quando Jorge Jesus levou o Flamengo a grandes conquistas, impõe forçosamente alguns exercícios de adaptação ao idioma – nem sempre parecido com o português falado no Brasil – da terra de Fernando Pessoa.

O técnico palmeirense Abel Ferreira, cujas conquistas fizeram com que emplacasse até best-seller (“Cabeça fria, coração quente”), chama a atenção pela loquacidade e uma certa marra nas entrevistas.

Com ar professoral, costuma dizer que prefere trabalhar com “jogadores frescos”. Antes que alguém entenda de outra forma, cabe explicar que Abel está se referindo a atletas descansados e em boa forma. Trata-se apenas de uma das curiosas variações da língua de Camões. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 19)