Antipetismo, bolsonarismo e tevêglobismo

Por Hildegard Angel

Cada vitória de Lula e de sua campanha vem suada, vem sofrida.
Nada, nada amolece o coração de ferro do antipetismo, que palpita no peito dos conservadores.

A vitória no STF, reconhecendo a parcialidade de Moro em abril de 2021 não mudou essa postura. Foi noticiada em abril do ano passado pela Globo, porém a emissora insistindo que os processos cancelados não significavam absolvição. Como ser considerado culpado de um processo que não existe? É absolvição, sim. Um modo aliás habilidoso do Judiciário brasileiro de colocar seus pratos limpos aos olhos da História, sem ficar mal na fita farsesca que foi o período Lava Jato.

Um ano depois do STF, dias atrás, a mesma conclusão foi divulgada pela ONU, desmascarando internacionalmente a Lava Jato e Sergio Moro. Isso não valeu para Lula um espaço para se manifestar no Jornal Nacional. O encerramento da matéria foi com a imagem de Sergio Moro tentando justificar sua convicção sem provas e sem justificativa.

A crescente adesão de grandes artistas, os maiores artistas brasileiros, a começar por Chico Buarque, Caetano Veloso, Anitta e também dos
grandes influenciadores digitais, até mesmo dos BBBs, que são hoje a joia da coroa da Globo, não sensibilizou o antipetismo.

A mesma atitude se manteve diante das manifestações contra esse governo devastador do meio ambiente, por astros internacionais como Leo Di Caprio, e por Mark Ruffalo, em favor de Lula.

E por fim a capa espetacular da revista Time, com matéria elogiativa, classificando Lula como maior líder popular do Brasil… Mas. nada, nada amolece o coração de ferro do antipetismo, em que está entranhado o conservadorismo e é tão corrosivo quanto a ferrugem no casco das lanchas e dos jetskis que não mais pagam impostos.

O antipetismo é uma patologia resistente, que se debate nas águas do reacionarismo, e tem como maior foco e maior sustentação o jornalismo do grupo Globo.

Os comentários da Globo News, do Jornal Nacional e demais jornalísticos da casa fortalecem e são o álibi que alimenta o forte ressentimento contra Lula e o PT.

Essa resistência foi maior até um mês atrás, quando o grupo poderoso, que influencia toda a mídia corporativa brasileira, promovia o total apagamento de Lula, fazendo de conta que ele não existia.

Para ser justa, em Março de 2021 a Globo fez uma pausa nesse silenciamento, colocando no ar ministros do STF falando sobre a anulação de todas as suas condenações na Operação lava Jato, a Globo falou a verdade. Lula, educado, reconheceu isso em entrevista coletiva na sede do Sindicato dos Metalúrgicos.

Ontem, a CBN Campinas, rádio do interior de São Paulo pertencente ao grupo Globo, ouviu Lula, que mais uma vez foi cavalheiro e educado, não mencionando a hostilidade daquele grupo de mídia contra ele. Focou na incivilidade da disputa: “É uma campanha mais incivilizada do que as outras que eram campanhas civilizadas em que você tinha disputa, tinha briga com os adversários, mas era uma coisa dentro do campo da política. A gente terminava um ato público e podia se encontrar em qualquer lugar e conversar como adversários, se respeitando… Com o atual presidente é tudo muito difícil porque ele é cercado de milicianos em quase todo território nacional, ele gosta de estimular o ódio, gosta de estimular a briga, gosta de estimular a provocação, o que não faz parte do nosso diário na política”.

Não mencionou o apagamento, o silenciamento, o antilulismo, o antipetismo corrosivo.

Quando colocado contra a parede, o antipetismo se debate como afogado, mas não encontra argumento que justifique sua tamanha resistência. A última boia a que se agarra é dizer que “os roubos de Bolsonaro não se comparam aos do governo do PT”.

Mas não vamos nos deter nisso hoje, sabemos que a corrupção é uma falácia para servir de justificativa aos golpes. Todos os golpes dados no Brasil foram sob esse pretexto. Quando sabemos que a corrupção se entranhou na vida brasileira desde o império até nossos dias. Na política e em todos os campos. O que não quer dizer que seremos coniventes ou tolerantes com ela. O maior combate à corrupção é o exemplo individual de cada cidadão responsável de um país. Porém, no Brasil, somos torpes, damos a propina para o guarda e reclamamos do propinão dos grandes escândalos. Não existem 50 tons de ladrão. É desonesto ou não é.

O que respalda esse antipetismo tão resistente?

Volto a falar do Jornal Nacional, que demorou 24 horas para noticiar que a ONU reconheceu a parcialidade de Moro e, como consequência, a inocência de Lula. O jornalístico escondeu por 24 horas o fato e só o noticiou, acredito, devido à grande pressão e à indignação nas redes sociais e na mídia progressista. Agora, ouço argumentos como “a Globo esperou a nota oficial da ONU”, quando Jamil Chade, desde a véspera pela manhã, já havia antecipado essa decisão histórica.

Ora essa, a emissora dispõe de uma equipe de jornalistas do mais alto nível, no mundo inteiro. Ela já tinha a informação. Uma emissora que sempre se notabilizou pelos grandes furos, agora só lê nota oficial? Não convence.

Não vamos esquecer que durante nove meses o Jornal Nacional dedicou 13 horas para desqualificar Lula, dando-lhe o rótulo de desonesto, de ladrão, e para isso bastava um duto de esgoto jorrando dinheiro sujo atrás de William Bonner.

O Jornal Nacional reduziu a matéria da Time a uma fala de Lula sobre Zelensky, como “polêmica”, como se a Guerra na Ucrânia fosse a maior das preocupações do faminto povo brasileiro, alguns meses antes de uma eleição, numa disputa renhida. Na Globo News o comentarista chega ao absurdo de afirmar que a matéria da Time foi um Gol Contra de Lula e de sua campanha. E ainda cita uma “fonte da campanha do PT. Uma fonte! Que fonte? A Fontana di Trevi? A Fonte dos Suspiros? A Eterna Fonte da Juventude?

Que fontes são essas, sem rosto, sem digitais, que servem de de instrumento e justificativa para fazer esse terrorismo de campanha?

Por fim, quero dizer que Lula não está disputando apenas contra Bolsonaro. São dois adversários fortes, que usam do mesmo estratagema da manipulação da verdade, das meias verdades. O bolsonarismo e o tevêglobismo.

O bolsonarismo sustenta e é sustentado pelo time da barbárie, da incivilidade, dos baixos instintos, do obscurantismo religioso e da ignorância. O tevêglobismo sustenta a aversão a Lula nas classes mais informadas, mais abastadas, mais cultivadas. Entre eles estão artistas, formadores de opinião, empresários e mesmo personalidades da vida pública, e enfim a elite brasileira, que ainda não se manifestaram e não irão se manifestar em apoio à civilização e contra a barbárie, se a Globo não mudar seu discurso de ódio, de meias verdades e de tentativa de apagamento de Lula.

Esse grupo gravita, vive, depende e se alimenta da visibilidade que a Globo lhe proporciona. Todos os poderes sempre se dobraram à Globo. O Judiciário se dobra até as costas doerem, com risco de uma hérnia de disco. O Star System platinado se dobra, e é louvável ver quantos desse meio se posicionam nesse momento definidor de caráter, personalidade e sensibilidade social.

É hora de o PT colocar na arena da disputa Geraldo Alckmin e seus aliados de centro esquerda, de direita light ou sabe-se lá como se chamam. Para isso foi formada essa chapa de conciliação partidária.

Temos que abrandar essa resistência antipetista, furar esse bloqueio mental alimentado pela Globo, que é indubitavelmente o maior poder do Brasil. Ela não só forma opinião como possibilita a visibilidade, a credibilidade e o sucesso que todos ambicionam.

Somos cada vez mais os que têm coragem de abrir o verbo contra essa mídia de manipulação. Mas não a venceremos.

Venceremos essa eleição.