Confirmado: a várzea é aqui

POR GERSON NOGUEIRA

Dirigentes de clubes costumam criticar as grandes empresas por não patrocinarem o futebol paraense. Até quarta-feira, 6, esse questionamento era inteiramente legítimo. Depois do vergonhoso apagão dos refletores da Curuzu, “coroando” o encerramento do Campeonato Paraense, não há mais nenhum sentido lógico em cobrar apoio desses grupos econômicos às competições regionais.

Os empresários não precisam esclarecer nada. Está tudo muito claro agora. Não há investimento privado, entre outras coisas, porque empresas não querem suas marcas vinculadas a um futebol bagunçado, que parou no tempo. Querem distância da várzea. (Explique-se: o termo ‘várzea’ é usado aqui como sinônimo de primitivismo e atraso. A várzea charmosa e romântica não se aplica a este raciocínio.)

Tudo o que se viu naqueles minutos finais – muitas outras coisas cabeludas haviam acontecido antes e durante o jogo – foi bastante explícito do nível do futebol praticado aqui. A rivalidade e as paixões desenfreadas fazem parte da história dos clubes, são aspectos positivos da tradição. O jogo sujo, as brigas idiotas e o deboche estéril constituem o lado podre de tudo isso. 

Por hipótese, imagine-se um cenário desses no estádio do Morumbi diante da vitória de um rival do São Paulo. Seguranças saem estapeando jogadores e diretores do time que festeja a conquista. De repente, o hino do Tricolor é ligado a todo volume no serviço de som na hora da entrega das medalhas ao campeão. E, para coroar tudo, antes de a taça ser erguida pelos vencedores, um apagão providencial para empastelar a cerimônia.

Não, isso não aconteceria no estádio do São Paulo, nem no do Palmeiras ou no do Corinthians. Pela única razão de que é um comportamento incabível, antidesportivo, inaceitável, antiprofissional e burro. Acima de tudo, todos sabem, é trágico para os negócios. Um tiro no pé.

Há quem não queira enxergar ou prefira passar pano, mas o fato é que os acontecimentos da quarta-feira à noite constituem um marco importante e são reveladores do estágio atual do futebol profissional no Pará. Estamos no limbo, derrotados pelo caos administrativo, a baixa qualidade dos times e a cretinice dos dirigentes, salvo exceções. Pior: notícia ruim vai longe. O apagão foi noticiado em rede nacional e em jornais do mundo inteiro.

Arrisco dizer que a situação é pior do que nos bravos anos iniciais do profissionalismo, ali no final dos anos 1950 e começo de 1960. O retrocesso é flagrante e a comparação com outros centros é ainda mais constrangedora. O Ceará é o exemplo mais gritante da diferença entre amadores e profissionais do futebol.

Ceará Sporting e Fortaleza estão na Série A, disputam as principais competições sul-americanas e impõem respeito por onde passam. Lá, a rivalidade sem foco e as malquerenças de comadres ficaram para trás. Nada de agressões a visitantes, pedras nos ônibus, cantos ofensivos aos adversários, apagões planejados e – a pior praga – dirigentes bananas. 

Já passou da hora de alguém entender que o despreparo e a ignorância orgulhosa não cabem na era dos negócios de alto nível. Não há futuro para quem insiste em permanecer com práticas antigas e que só isolam o futebol do Pará. A prova maior disso é que o campeonato não existiria sem a providencial ajuda do Governo do Estado.

Os chamados ‘grandes’ da capital vivem no aperreio, cercados por emergentes em situação ainda mais aflitiva. Mesmo assim, há quem queira fuzilar a galinha dos ovos de ouro. O apagão na Curuzu mirou no rival, mas alvejou o banco e a emissora que patrocinam os jogos.

Como costuma dizer um sábio político paraense: a inteligência tem limites; a jumentice, não.

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, a partir das 21h30, na RBATV. Participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. Em pauta, a decisão do Parazão e a abertura da Série C. A edição é de Lourdes Cézar.

Troféu Camisa 13: a exceção em meio ao caos

Na quinta-feira à noite, um dia após a papagaiada na Curuzu, uma festa ajudou a redimir de alguma forma a imagem do futebol paraense. Refiro-me ao Troféu Camisa 13, celebração em torno dos melhores do Campeonato Paraense. Reconhecimento ao mérito e ao talento dos artistas do espetáculo.

Vinícius (Remo); Daelson (Castanhal), Admilton (Águia), Marlon (Remo) e João Paulo (PSC); Uchoa (Remo), Alysson (Tuna), Adauto (Águia) e José Aldo (PSC); Brenner (Remo) e Danrlei (PSC). Este foi o time eleito pela vontade soberana da torcida.

Ronald (revelação), Emerson Almeida (técnico), Paulo Rangel (artilheiro) e Danrlei (craque) também foram distinguidos. A Personalidade Esportiva do ano, com total merecimento, foi o governador Helder Barbalho, responsável direto pela valorização do Parazão e pela reforma grandiosa do estádio estadual Edgar Proença (Mangueirão).

Gandur Zaire Filho, comandante do TC13 por 29 dos 30 anos de existência do prêmio, destacou o fato mais importante da temporada: a regionalização da escolha. Na seleção do ano, três destaques interioranos furando a tradicional hegemonia da dupla Re-Pa.

Uma festa irretocável, prestigiada pelo mundo esportivo do Estado e aberta pelas palavras de incentivo do diretor presidente do DIÁRIO, Jader Barbalho Filho, que agradeceu o apoio dos grandes patrocinadores do Troféu. Questão de respeito, parceria e reciprocidade, como devem ser as relações profissionais no âmbito do futebol. 

(Fiz questão de comparecer para abraçar Danrlei, melhor atacante do campeonato e um legítimo filho de Baião, como eu).  

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 10)

3 comentários em “Confirmado: a várzea é aqui

  1. Presidente do Ceará já falou, por mais de uma vez, em entrevistas, que na condição de torcedor adoraria ver o rival mofando na série C. Mas, na condição de dirigente, não deseja isso, pq sabe que, para times periféricos como os nossos, o mais interessante é se unir fora de campo e crescer juntos. Não é de hj que Ceará e seu rival sempre concatenam ações comerciais e procuram patrocínios conjuntos, explorando a rivalidade de modo tal que ambos cresçam. Basta ver, por exemplo, a questão dos sócios: cada diretoria está sempre desafiando sua torcida a ultrapassar o rival, mas sem desrespeito, mas com ações criativas. Fato é que cada clube conta, hoje, com mais de 40 mil sócios adimplentes. O PA tem o mais basilar, duas grandes massas, com rivalidade tb empolgante (assim como no CE). Cabe às diretorias saber explorar isso de forma positiva, entendendo que um time sempre vai depender do outro, e que é mto mais interessante para o próprio futebol do Estado o crescimento conjunto das maiores forças locais.

    1. Saber usar a fidelidade do torcedor em termos de produtos e expansão da marca é o mandamento básico. O problema, Claudio, é que nossos grandes clubes só se empenham em ampliar o fosso entre ambos. Não há conexão mínima, nem esforço conjunto. Tudo se transforma em ódio e tentativa de afundar o concorrente. Não por acaso, ambos estão patinando há décadas. E dificilmente, nessa toada, irão mudar de patamar.

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