Por onde anda?

Musa indie dos anos 70/80, Diana Pequeno ocupou um lugar definitivo no coração dos amantes da boa música. Aqui ela interpreta uma das grandes composições de Elomar, “Campo Branco”. Seu primeiro sucesso foi a versão do clássico “Blowin’ In the Wind”, de Bob Dylan.

A cantora, com apenas vinte anos, acompanhada de um grupo competentíssimo de músicos e arranjadores, realizou aqui o melhor disco de sua bissexta carreira. Produzido por Dércio Marques, “Eterno” se afirma de maneira contundente e perene não como mero conjunto de canções agraciadas pela melodiosa voz da intérprete, mas como um grande álbum, no sentido pleno, possuindo inegável unicidade conceitual, desde as imagens da artista na capa e contracapa, em trajes e cenários carregados de agradável sentimento bucólico, até a diligente escolha do repertório de forte cunho rural e popular. De fato, o que se ouve ao longo do LP é a ancestral voz do sertanejo, das gentes do campo, com suas lutas e labutas, crenças e valores a nortearem a penosa e nem sempre recompensante existência. O canto de resistência do povo oprimido e explorado se impõe já na primeira faixa, “Engenho de Flores”, grito que ilumina com vermelho clarão “toda a terra e mar”. Em “Facho de Fogo”, cujos vocais são divididos com Marlui Miranda, e “Campo Branco”, saída da pena do bardo Elomar, vemos desfilar a procissão de um cristianismo popular, tão distinto em seus valores fraternos e humanos do nefasto fundamentalismo que hoje grassa em nosso país. Adiante, deparamo-nos com a graciosa e arrebatadora releitura de “Rio Largo de Profundis”, peça do cancioneiro do compositor português Zeca Afonso, verdadeiro símbolo artístico da Revolução dos Cravos. A jocosa “Camaleão”, colhida do folclore pernambucano, utiliza o humor para traçar a lamentável figura do político demagogo, “sobrinho do patronato e afilhado da eleição”. Não incluída na primeira prensagem do álbum, tendo sido lançada como compacto e no LP do festival MPB 80, “Diverdade” é uma típica e poderosa canção de protesto, com seus versos que não deixam dúvidas em relação ao alvo de sua indignação. “Chama” é pura exaltação da legítima revolta do povo contra seus algozes. Merece ainda destaque outra gema da lavra de Elomar, a trova “Cantiga de Amigo”, genuína ponte poética entre Nordeste e Península Ibérica. “Eterno Como Areia”, este generoso trabalho artístico, merece ser urgentemente (re)descoberto e colocado em seu devido lugar: um dos melhores álbuns de nossa música.

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