O Brasil não é para amadores

POR GERSON NOGUEIRA

Felipe Conceição fica incomodado com empate na estreia pelo Cruzeiro, mas  elogia desempenho do time | LANCE!

Quando a CBF instituiu um item no regulamento do Campeonato Brasileiro limitando as demissões de técnicos pelos clubes, muita gente teve dúvidas de que a regra fosse respeitada. Na verdade, chegou a ser cumprida parcialmente, mas permitiu gambiarras como declarações fajutas de técnicos demitidos alegando ter saído de “comum acordo”.

Surgiu, ainda, outra manobra para sabotar a norma imposta para garantir estabilidade aos técnicos. Na prática, auxiliares poderiam assumir o comando dos times, mas com um treinador profissional por trás. A lei estabelecia que não havia restrição se o técnico pedisse demissão ou se a rescisão fosse consensual.

Ontem, o Conselho Técnico dos clubes da Série A derrubou a restrição. Quem puxou a reação foi o presidente do Corinthians, Duílio Monteiro Alves. Alegou que a ideia não tinha efeito prático. Seria uma lei inócua, feita para inglês ver, segundo ele.

Por unanimidade, os clubes apoiaram a posição corintiana e foi aprovado o regulamento de 2022 já sem o limite de apenas uma troca de técnico, como vigorou na temporada 2021.

Algumas situações mostraram em 2021 que os clubes atropelavam a norma sem qualquer cerimônia. O Cruzeiro, por exemplo, demitiu Felipe Conceição e alegou que tudo tinha sido devidamente acordado. Voz solitária a denunciar o artifício, Felipe não recebeu a solidariedade dos colegas de ofício.

Na prática, o objetivo da restrição não foi atingido plenamente. As demissões diminuíram apenas 10% em relação a campeonatos anteriores. Os próprios técnicos não pareceram entusiasmados com a novidade, até porque muitos são favoráveis à liberdade de ir e vir nos clubes.

A instabilidade no emprego é danosa para todos, em qualquer área, mas é público e notório que a dança de cabeças nos clubes parece ter sido incorporada culturalmente às relações do futebol no Brasil. Tanto que raramente um técnico reclama de substituições inopinadas ou interrupção do trabalho após dois ou três meses no cargo.

Volta-se, então, ao ponto de partida, sem que nenhum clube seja obrigado a cumprir esse gatilho legal. Cai em desuso uma das poucas tentativas institucionais de regular e proteger os treinadores. A partir de agora, o “liberou geral” está valendo. E, pelo silêncio ruidoso, os próprios interessados não parecem estar muito preocupados.

O tédio como rotina e a burocracia como prática

A Seleção Brasileira fez anteontem mais um jogo em casa. E até cumpriu dignamente o seu papel. Meteu 4 a 0 no Paraguai para empolgação de quase ninguém, tirando o histriônico profissional Galvão Bueno. Há explicação para esse fastio que a torcida sente hoje. Começa que as Eliminatórias já são letra morta, pois a equipe de Tite se classificou com boa antecedência. Depois, há a tediosa forma de jogar que desestimula qualquer entusiasmo em relação ao escrete.

Além de a camisa verde-amarela ter sido apropriada por grupos e avacalhada por oportunistas, a Seleção pouco tem feito para honrar a tradição de um país que sempre se orgulhou de saber jogar bola.

Nas últimas décadas, essa imagem foi profundamente abalada pela frequência com que o Brasil se fez representar por times horrorosos em Copas do Mundo, sem qualquer vínculo com o talento de gênios como Pelé e Garrincha, ou mesmo de coadjuvantes fantásticos, como Jairzinho, Tostão, Rivellino, Gerson, Nilton, Amarildo, Zito e outros.

De 1994 a 2002 houve um curto período de retomada daquele Brasil bom de bola, com Romário, Bebeto, Ronaldo Nazário, Ronaldinho, Rivaldo, Kaká. Pena que passou muito rápido, e lá se vão duas décadas já.

Estive nas três Copas que traziam esperanças concretas de títulos – Alemanha/2006, África do Sul/2010 e Brasil/2014. As condições eram propícias, mas faltou talento e capacidade competitiva. Pior: sobrou desatenção e soberba, como na desgraça de BH em 2014.

Tite não é culpado pelo clima geral de certa implicância com a Seleção. Herda as mágoas acumuladas de outros carnavais. Acontece que sua única contribuição para isso foi decepcionante. A campanha de 2018 está na galeria daquelas participações opacas do Brasil em Copas, como ocorreu em 1974, 1978 e 1998.

Não há nada de memorável dessas Copas. A trajetória da Seleção desde então aponta para a repetição dos mesmos erros no Mundial do Catar. O que inclui um Neymar longe (outra vez) de sua melhor forma e vários coadjuvantes disciplinadamente empenhados em caprichar no padrão burocrático. Apesar de tudo, espero estar equivocado.  

Um aniversário comemorado com paixão

Uma festa e tanto fez o PSC ontem para comemorar seu 108º aniversário de fundação. Além do treino aberto para a torcida, saudável prática que deveria ser mais frequente entre os clubes, o Marketing alviceleste foi extremamente eficiente em ocupar as redes sociais para carimbar a importância da data junto aos torcedores.

São datas que se tornam realmente marcantes pela importância que o clube dá a elas. Muitas agremiações deixam de lado essa memória afetiva, tratam até com desleixo, um erro que se revela danoso com o tempo. Aniversário, de gente ou instituição, é para ser festejado, de preferência com muito barulho e alegria.

Parabéns ao Papão pela data – e pela sensibilidade em jogar luzes sobre sua linda história centenária. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta quinta-feira, 03)

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