O super-realismo e o METAL QUE GRITA

Por André Forastieri

Philip K. Dick, 1977: 

“Em meus livros, escrevi sobre mundos falsificados, mundos semirreais, alucinados mundos particulares. 

Muitas vezes habitados por uma só pessoa – enquanto os outros personagens vivem em seus próprios mundos.

Nunca tive uma teoria sobre por que este tema dominou meus 27 anos como escritor. Agora entendo.

O que percebia eram realidades parcialmente manifestas, que tangenciam a mais concretizada de todas – esta, em que a maioria de nós consensualmente acredita. 

Estamos vivendo em uma realidade programada por computador. A única pista que recebemos sobre isso é quando alguma variável muda, alguma alteração na realidade acontece.”

1980: Jean Giraud, que assina Moebius, o mais importante criador do quadrinho francês, é recrutado para participar da criação do filme Tron. 

Depois é convidado para criar conceitos para um novo filme chamado Blade Runner. Recusa: está ocupado com a animação Les Maîtres des Temps. 

Absurdo – Moebius é o olhar de Blade Runner. E do Cyberpunk.

Ele é co-fundador, em 1974, e colaborador frequente da Métal Hurlant, revista que reúne os artistas mais visionários da década. METAL QUE GRITA!

1976: Giraud ilustra uma história de Dan O’Bannon, The Long Tomorrow. É ficção científica que homenageia os detetives noir dos anos 40, estilo Philip Marlowe – o futuro é uma cidade violenta.

Dan  O’Bannon: animador em Star Wars, autor da história original de Alien e, anos depois, roteirista de Total Recall e Screamers, baseados em histórias de Philip K. Dick. 

1977: a Métal Hurlant ganha uma versão americana, Heavy Metal.

25 de junho de 1982: estreia Blade Runner nos Estados Unidos. Fracasso: US$ 6,15 milhões no primeiro final de semana. 

9 de julho de 1982: estreia Tron nos Estados Unidos. Fracasso: US$ 4,8 milhões no primeiro final de semana. 

Julho de 1982, meio do terceiro colegial, Distribuidora Gianetti, praça da Catedral, Piracicaba: meu mais novo ídolo, Lou Stathis, escreve na minha revista favorita o obituário de Philip K. Dick: “ele nunca verá sua obra transformada em filme”. 

O filme é Blade Runner. Nunca ouvi falar de Philip K. Dick antes. A revista é a Heavy Metal. Lou é o editor. É cara. Economizo todo mês dinheiro da cantina para comprar.

O artigo é ilustrado com fotos do filme de Ridley Scott, o diretor do filme que mais me assustou até então, Alien. Tenho a revista até hoje, infinitamente relida, decorada. 

É o Cyberpunk, e ele faz sentido imediato: é punk e é ficção científica, é o futuro nas ruas, sujo, sexy, perigoso.

1982: Assisto Tron em Piracicaba, no cine Rívoli. Assisto Blade Runner no Cine Gazetinha, no meu primeiro fim de semana sozinho em São Paulo, para onde me mudarei em poucos meses. Tenho 17 anos.

Tron é novidade. Blade Runner é revolução. 

Frankenstein punk: a criatura se  volta contra o criador. A máquina conquista inteligência e vontade  próprias. Pode escolher. É “humana”. 

A história é velha. O filme é um furacão de frescor.  

Blade Runner foi influência determinante em tudo que importou dos 80 para a frente. Foi o pontapé inicial da literatura cyberpunk. 

Foi o futuro a ser desejado/desdenhado / destruído. Mudou as roupas, a música, o discurso. 

Assistir a Blade Runner hoje é impossível, salvo por nostalgia – tudo o que está lá você já viu e viveu um milhão de vezes. 

William Gibson: “os ingredientes de Blade Runner e Neuromancer são os mesmos: o tipo de quadrinho francês adulto que a revista Heavy Metal estava trazendo para os EUA.”

Blade Runner tem um único herdeiro em ambição e influência: Matrix. Seguem preciosos e necessários.

Matrix e Blade Runner e Tron são irmãos de criação; Terminator é um primo; 1984, Metrópolis, Super-Homem e Admirável Mundo Novo são avós; a família é enorme e tem muitos ramos. 

Todos lidam com nossa crescente dependência da tecnologia. Com a influência disruptiva da aceleração do conhecimento. A sedução da técnica. 

Como “o sistema” e como ele exige e se alimenta de nossa desumanização. Com a sedução da rendição. Com a possibilidade de fuga e de resistência.

Carta de Philip K. Dick sobre o filme Blade Runner, após ver cenas do filme que ainda não tinha estreado: “não é ficção científica. Não é fantasia. É, como Harrison Ford disse, futurismo… não é escapismo, é super-realismo, tão detalhado e autêntico e explícito e convincente que minha ‘realidade’ cotidiana se tornou instantaneamente pálida em comparação”. 

1974: chapado de sódio pentatol após extrair um dente, Philip K. Dick vê Deus. O nome de Deus é VALIS – Vast Active Living Inteligent System.

(CONTINUA SEMANA QUE VEM…)

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Entre a penúria e o delírio

POR GERSON NOGUEIRA

Jogadores do Atlético-MG levantam a taça de campeão brasileiro de 2021 - Fernando Moreno/AGIF

Atlético-MG, Palmeiras, Flamengo. A trindade abastada do futebol brasileiro. Alguns tolos enxergam no poderio econômico do trio um sinal de supremacia sobre os demais países do continente. Bobagem. O Brasil sobra na América do Sul desde a década de 1980 no contexto dos clubes. Em seleções, o predomínio é muito mais antigo.

O problema não são os vizinhos, mas a realidade do futebol aqui praticado. Distanciados dos demais 12 clubes da chamada elite nacional por uma montanha de dinheiro, os três maiorais assumiram o protagonismo, montando times caros e ganhando todos os principais campeonatos.

Seria absolutamente lindo se isso correspondesse ao estado geral do futebol no país. Na verdade, a condição financeira privilegiada é algo incomum até. Os outros clubes, salvo três exceções (São Paulo, Grêmio e Atlético-PR), encontram-se a léguas de distância da bonança.

Os dez restantes vivem conforme Deus permite, vendendo almoço para comprar a janta, dando seus pulos e fazendo negócios miúdos para tentar sobreviver. Por isso mesmo, quando se encerra um Campeonato Brasileiro, há sempre uma ponta de ironia solta no ar.

Os campeões têm muito a comemorar, é claro; bem como os times que entram direto na Libertadores ou se preparam para decidir a Copa do Brasil. O resto da tropa fica chupando dedo, contentando-se com as migalhas que caem do banquete.

Sim, o leitor amigo há de argumentar que a vida é assim mesmo, coisa e lousa. É quase verdade a frase clássica de Nizan Guanaes: enquanto uns choram, outros vendem lenço. Nos países onde a organização do futebol foi bem discutida e estruturada, buscando tornar justa e igualitária a partilha do bolo, ninguém precisa chorar.

Mesmo na Espanha, onde Real Madri e Barcelona concentram recursos e privilégios, os demais clubes não vivem desamparados. Na Premier League inglesa, todos são bem aquinhoados. Óbvio que os gigantes faturam mais, sem deixar que os medianos e emergentes fiquem à míngua.

No Brasil, desigual desde que Cabral aqui aportou, o futebol acentua fossos socioeconômicos e os recursos distribuídos pela TV só refletem isso. A cada ano, a disparidade aumenta enquanto especialistas nem tão isentos arranjam teorias para justificar supostos méritos dos maiorais.

Ninguém se debruça sobre as bases que escoram o cenário de ilusões em torno dos afortunados. O Atlético-MG é sustentado por um mecenas, como o Cruzeiro já foi um dia – hoje está às portas da ruína. O Palmeiras não fica atrás: é bancado por uma financeira, não se sabe até quando. O Flamengo tem contas que não fecham, mas que são respaldadas por elogios derramados a uma gestão (Bandeira de Melo) que deixou muitos furos.

O fato é que o mundo do futebol vive entre o delírio dos que se encantam com números faustosos e a penúria dos que ralam na esperança de dias melhores. Um dia a conta vai chegar.

Bola na Torre

Giuseppe Tommaso comanda o programa, a partir das 19h15, na RBATV, com participações de Mariana Malato e deste escriba de Baião. Em pauta, a final da Copa Verde e os preparativos para o Parazão 2022.

Os (maus) exemplos que criam raízes

Na quinta-feira à noite, ao comemorar a excelente campanha do Atlético-GO na Série A e a vitória sobre o Flamengo, o presidente do clube deixou escancarar todo o negacionismo de uma casta que adora se orgulhar da própria burrice. Arrancou a máscara do repórter Juliano Moreira, da Rádio BandNews – que permitiu a palhaçada –, e disse na entrevista que não usa a proteção por ser bolsonarista. Está mais do que explicado.

Detalhe: o cartola negacionista teve covid, foi internado, passou maus pedaços e mesmo assim segue militando contra a prevenção.

Precisamos falar de The Beatles: Get Back

Os leitores deste espaço sabem da umbilical conexão com o rock. Por conta disso, tomo a liberdade de abrir uma janelinha aqui para falar do documentário The Beatles Get Back (Disney+), montado e editado pelo neozelandês Peter Jackson. O diretor se debruçou por mais de 60 horas de áudio e vídeo do filme originalmente chamado de Let It Be.

As imagens captadas pelas câmeras de Lindsay-Hogg expõem a convivência da maior banda de todos os tempos num estúdio fechado, entregues aos próprios conflitos e demônios. John, Paul, Ringo e George ficaram expostos a suas diferenças. A história dos Beatles é bem conhecida da maioria, mas o documentário esclarece muita coisa.

Beatles: documentário Get Back mostra Paul McCartney compondo clássico da  banda em 2 minutos; confira · Rolling Stone

Jackson, um beatlemaníaco empedernido, teve o cuidado de fazer uma introdução descrevendo o que eram os Beatles em janeiro de 1969. Nos três episódios emocionantes, está a chave do mistério da morte da banda.

Mas há muita vida nas imagens e sons. A sequência infernal de álbuns iniciada por Rubber Soul e encerrada com Abbey Road está toda retratada nos ensaios e criações ali nos estúdios. É possível ver Paul criando Get Back na frente dos companheiros. Aliás, Macca sai consagrado.

Naqueles dias tempestuosos ele era o dínamo. John, líder do grupo, aparece um pouco desligado, macambúzio e irritadiço, além de muito menos produtivo que o parceiro.

O trabalho visto ali devia ser uma espécie de obra obrigatória para todos os artistas realmente comprometidos com seu ofício. Como no futebol, o talento vem junto com inspiração, mas é preciso suar bastante para alcançar os objetivos. Fica claro que as relações conflituosas, comuns a todo agrupamento humano, não podem impedir que se alcance os resultados pretendidos. Os Beatles conseguiram. Gênios.

(Coluna publicada na edição do Bola deste domingo, 12)