Meus livros e nada, muito mais

Por André Forastieri

Minha biblioteca de livros não-lidos têm 154 livros. Cresce o tempo todo. Fora os que estão a caminho. Fora os que são digitais e estão no tablet ou na nuvem. 

Os separados na estante própria dos não-lidos são os que o que dá pra contar. Quase metade são álbuns de quadrinhos, 75.

Dos outros 79, quase mezzo a mezzo ficção e não-ficção. Alguns dos 154 foram começados e a leitura foi interrompida, por qualquer razão que não tédio ou desgosto. Destes, raros, me desfaço. 

Vai ver me distraí. Vai ver alguma outra leitura urgente desviou meu caminho. Vai ver apareceu outro bonitão mais sedutor, outra linda me piscando o olho, e eu, galinha, me rendi. Leitura é tesão.

A pilha de livros me esperando não me pesa em nada. Pelo contrário, me dá asas. Não é fardo a carregar, é tapete voador para outras paisagens e outras aventuras.

Os livros que não li são a nova maravilha, o paraíso, a verdadeira Biblioteca de Babel de Borges. Estes que já estão nas minhas estantes, intocados, nada mais são que a pontícula deste infinito iceberg.

Umberto Eco, que anda aparecendo bastante por aqui, tinha mais de 30 mil livros em casa, e olhe as imagens aqui para comprovar. Muitos, naturalmente, semi ou não lidos.

Nassim Nicholas Taleb batizou esses livros que a gente tem e ainda não leu de “antibiblioteca”, no seu “A Lógica do Cisne Negro”, que está no meu acervo aqui. Como Eco, Taleb vê mais valor no que ainda não conhecemos, no tesouro escondido a ser escavocado. 

Prefiro a palavra japonesa, “Tsundoku”, que une três elementos: “doku”, que é “ler”, “doku”, que é “deixar da mesma maneira por um tempo”, e “Tsunde”, que é “livro”. Tsundoku me descreve melhor, porque implica também deixar as leituras empilhadas, meio bagunçadas. 

Pra que tanto livro? Quantidade não faz qualidade. Michel de Montaigne tinha pouco mais de mil volumes lhe fazendo companhia. Se resumia a isso sua biblioteca, dedicada ao amigo Etienne De Le Boétie, onde escreveu e rescreveu durante décadas seus insuperáveis “Ensaios”, que eu levaria para uma ilha deserta. 

Passei a 40 quilômetros da torre-biblioteca de Montaigne e não fui até lá, em peregrinação, como sonhava e sonho. Não rolou, a vida é assim. Mais um tesouro que ainda não explorei, mais um prazer me esperando no meu Tsundoku pessoal.

Já pensei que os livros físicos iam acabar, e todas as livrarias, fechar. Mas em São Paulo estão nascendo novas livrarias de rua

Poderíamos fazer mais para que elas se multipliquem. Como fez na França Macron, garantindo a sobrevivência financeira das livrarias independentes, e tabelando o preço de fretes, para fazer frente aos gigantes digitais. Ele também ampliou o horário de atendimento das bibliotecas públicas, porque, imagine, “leitura é fundamental”.

Compro meus livros nos gigantes digitais, mas somente quando inevitável. Dou preferência para livrarias pequenas, e compro direto do editor. Adoro sebo e sou clientão da Estante Virtual, que tá com uma Black Friday pra lá de apetitosa

Poderíamos estimular nossos ricaços a seguir o exemplo de Andrew Carnegie. Na virada do século 19 para o 20, o magnata americano bancou a construção de 2509 bibliotecas, muitas em funcionamento até hoje. 

Melhor ainda! Podemos expropriar suas fortunas com punitivos impostos progressivos. Para garantir gratuitamente livros e outros alimentos de primeira necessidade, do corpo e da alma.

Escrevo neste momento cercado de alguns milhares de volumes. Menos que trinta mil – por enquanto.  

Eu pensei mais de uma vez em abrir uma livraria, ou um clube do livro, ou até uma biblioteca pública particular.

Mas já abri editoras de livros, e publicamos muita coisa que dá orgulho. Tá bom. Não posso ficar arrumando mais sarna pra me coçar, ou faltará tempo para o mais importante, que é ler.

Faltava só uma peça neste tabuleiro, e ela encaixou esta semana. Foi quando meu filho recebeu o pacote com três livros que encomendou na gringa. Ele, cem por cento geração digital, que cresceu vendo vídeo no YouTube e jogando game e lendo mangá fansub no iPad, veio me mostrar os três volumes cascudos de filosofia, história e política.

Zoei, “ué, comprou em papel porquê? Pra custar mais caro pro papai?”. Ele falou “claro, pô, livro fodão tem que ser físico”.

Missão cumprida.

LEIA

“Picadinho de Letras ao Molho Fácil”. É um livro de receitas literário. São contos escritos ao estilo de grandes autores brasileiros, como se cada um deles estivesse descrevendo uma grande receita. E tem a receita de fato, no final, para você ir pra cozinha e reproduzir.

Guimarães Rosa, Machado, Oswald, Mario de Andrade… e também Veríssimo, Cassandra Rios e Malba Tahan. O hambúrguer do José de Alencar!

Livrinho lindinho, presentão de Natal pra quem gosta de ler e comer. Os autores são o jornalista e artista plástico LS Raghy e a pesquisadora da USP, Márcia Basseto Paes. Tem videohttps://www.youtube.com/watch?v=L-YG3Gg5dZQ com os dois autores no canal Léguas e Letras.

O Raghy é um sujeito muito criativo, irônico e despretensioso. Ele fez parte de um grupo experimental de artistas chamado Viajou sem Passaporte, junto com o Gordon e a Bia, e o Beto Melo, que me apresentou a patota e andou morrendo antes da hora. Faço churrasco pra galera uma vez por ano, e os papos renderiam um conto…

Mas veja o que dizem do Viajou aqui

Foram impressos 300 exemplares do “Picadinho”. Agora sobraram só nove. Corre e compra dois aqui, um pra você e um de presente!

OUÇA

Deltron 3030, indicação do filhão. É tipo o filme que deu origem ao Gorillaz, preferidíssima aqui da casa. O álbum é anterior à estreia da banda-cartum do Damon Albarn.

Boa parte das ideias sci-fi e do hip-hop atmosférico já tavam lá, e já tavam lá o Del the Funky Homosapien e o Dan The Automator e o Kid Koala. Afrofuturismo cyberpunk, discão de 2001 rodando sem parar – contato positivo!

Aliás tem álbum novo do Damon saindo, atristonhado e melodioso. Você pode ouvir várias canções aqui. Tem ao vivo, entrevistinha nova e tal. Tudo devidamente albarniano.

ASSISTA

“Narcos México”. Será a última temporada. É quando o tráfico sai das manchetes policiais e vai de vez pro noticiário político-econômico. NAFTA, maquilladoras, PRI, Clinton, Zapatistas. Sobra feio pros jornalistas. Sobra geral.

Tem dois episódios muito bem dirigidos pelo Wagner Moura. Você vibrou com cenas de ação em “Marighella”, certo? Ele ensaiou pregando fogo antes em “Narcos”, uns tiroteios da pesada, e deu essa entrevista explicando.

Vi “Marighella” e teria várias restrições sérias a fazer. Principalmente, e com sangue nos zóio, aos imperdoáveis minutos finais.

Mas não farei. Não direi um A contra quem tá marromeno deste lado aqui. O lado de quem vai mandar esses vampiros, zumbis, chupacabras de volta pra tumba, de onde jamais deveriam ter saído, com as devidas estacas no coração.

“Marighella” inspira. E inspira a garotada que nem sabe quem ele foi, o que foi a ditadura ou o partidão.

Então: VAI WAGNÃO!

Opa! Não perca este doc sobre o Mick Rock, lenda da fotografia musical que nos deixou esta semana. Lembrança da amiga Natanry Bastos no nosso grupo Homework, inteirão no YouTube.

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