Marília Mendonça não merecia tolerar tanto sensacionalismo

Por Anna Virginia Balloussier, na Folha SP

Relembrando o caso Mamonas, como tratar assunto de interesse nacional sem carregar nas tintas?

Quando caiu o avião que levava os Mamonas Assassinas, banda de carreira meteórica no Brasil dos anos 1990, tombaram também alguns pilares éticos do jornalismo. A namorada de Dinho, o vocalista, “soltou os cachorros contra a imprensa”, como relatou Barbara Gancia, então colunista deste jornal, naquele 1996. Valéria acusou veículos como o jornal Notícias Populares, o NP, e a revista Manchete de desumanos e antiéticos por publicarem fotos dos corpos mutilados dos músicos.

O NP, que era editado pelo Grupo Folha, ainda divulgaria reportagens como “Dinho morreu no banheiro do avião” e “fã de Mamonas acha um braço na Cantareira”.

Nenhuma das publicações existe mais. Persiste, contudo, o debate sobre quão disposta a mídia está a envergar limites éticos que, também num acidente de avião, acrescenta a essa discussão a urgência das redes sociais.

O primeiro erro partiu da própria assessoria de imprensa da cantora Marília Mendonça. Na tarde desta sexta-feira, a equipe afirmou que todos os cinco presentes na aeronave estavam vivos. Pouco depois, a informação foi desmentida por imagens transmitidas em tempo real na televisão e na internet e pelo Corpo de Bombeiros —que, aliás, divulgou o nome errado de um dos quatro outros passageiros a bordo e depois consertou.

Era um assunto de comoção nacional. Logo, de evidente interesse jornalístico. Como o tratar sem carregar nas tintas sensacionalistas?

O resgate dos corpos foi exibido ao vivo pela Globo, ágil em enviar repórteres ao local do acidente (uma cachoeira). Mais imagens se espraiaram por outros canais e pelas redes, já que havia gente ao redor filmando com celular o trabalho dos bombeiros.

Até a roupa quadriculada que Marília Mendonça usava foi usada para especular se ela havia ou não morrido, durante a hora em que a informação ainda estava turva para familiares e amigos das cinco vítimas, devido à desinformação da assessoria. Antes da queda, a artista postou um vídeo em que aparece embarcando com a tal estampa, celebrando delícias regionais de Minas Gerais. Estava a caminho de um show no estado.

As imagens de um corpo sendo coberto com alumínio, com a mesma peça preta e branca, foram veiculadas em “looping” depois.

O Google Trends, ferramenta que permite medir os termos mais procurados no momento, registrou um “crescimento repentino” das pesquisas “fotos de Marília Mendonça morta” e “Marília Mendonça corpo”.

“Detetives digitais” também aumentaram buscas para “Marília fez bariátrica?”, e sites jornalísticos destacaram mudanças estéticas da sertaneja.

Canais recuperaram postagens antigas da cantora falando sobre o medo de pegar avião ou supostas previsões, como sonhos com queda d’água.

Lembra o vale-tudo por audiência no episódio dos Mamonas, quando Gugu Liberato conquistou o maior ibope da história de seu Domingo Legal com um programa sobre a morte dos membros da banda. Um dos quadros mostrou Mãe Dinah, vidente que ganhou fama justamente por prever o acidente meses antes de ele acontecer.

O próprio Gugu teve sua morte, num acidente doméstico em 2019, explorada em toda sorte de “click baits”.

A afobação dos tempos digitais corrói as divisas entre a informação válida e o caça-cliques insalubre. A morte precoce de Marília Mendonça, uma das maiores artistas da música contemporânea brasileira, escancara como parte do jornalismo aprimorou seu gosto por sensacionalismo de 1996 para cá. Marília Mendonça não merece isso.

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