Como o coleguinha Frank Herbert criou “Duna”

Por André Forastieri

Foi fazendo uma reportagem que Frank Herbert se inspirou para escrever “Duna”. A matéria era sobre… Dunas, claro! As Oregon Dunes, no noroeste americano.

Mas não foi só bater os olhos em uma montanha de areia o suficiente para Herbert criar um universo tão complexo, e o romance de ficção-científica mais vendido de todos os tempos.

Frank era um curioso profissional: jornalista. Foi assim que ele ganhou a vida desde os 19 anos, e vida dura, porque cresceu na grande depressão americana.

Foi tirando fotos e fazendo reportagem que pagou as contas, atravessou a Segunda Guerra, estudou, casou, criou seus filhos.

Sua voracidade intelectual abarcava filosofia, psicologia, religião, história, educação, e experimentos com drogas psicodélicas – muito do que depois faria parte da composição de “Duna”.

Fazer perguntas profissionalmente – e se fazer perguntas – foi a base para sua carreira literária.

E com tudo isso, foram três outros fatores que levaram Frank ao sucesso. Talvez quatro…

O primeiro devemos totalmente à sua mulher. Beverly também era jornalista, e ganhava bem. Frank já tinha escrito contos, mas sem grande sucesso. A partir de 1959, deixou o emprego como jornalista pra se dedicar a pesquisar e escrever “Duna”. Ele fazia uns frilinhas, mas ela é que segurava a barra da casa.

O segundo foi a insistência de Frank. “Duna” foi rejeitado por quase 20 editoras diferentes, inclusive todas as especializadas em ficção científica. Herbert não desistiu.

O terceiro foi a visão de um editor corajoso. Sterling E. Lanier trabalhava na Chilton, uma editora especializada em manuais para manutenção de equipamentos.

Encantado com “Duna”, assumiu o baita risco de bancar a publicação deste tijolaço, por um autor que jamais tivera um sucesso comercial. Ainda prometeu edição capa dura e adiantou uma grana sobre os royalties.

E assim chegou o sucesso!

Hmm, não. “Duna” ganhou os principais prêmios da ficção científica, o Hugo e o Nebula, quando o livro foi lançado em 1965. Mas vender, vendeu pouco. Frank voltou a trabalhar como jornalista, foi dar aula, dirigir programa de televisão, foi ser consultor de meio-ambiente (inclusive no Vietnã!).

Mas seguiu escrevendo e publicando as sequências de Duna. Só depois dos cinquenta e tantos anos pôde, enfim, se dedicar integralmente à literatura.

Muita gente que leu sua obra foi influenciada por ela. Ninguém mais que George Lucas, que deve muitos dos principais elementos de “Star Wars” ao universo criado por Frank Herbert – “estou fazendo tudo que posso para não entrar com um processo”, disse na época o escritor.

Eu também fui influenciado por “Duna”. Li com 19 anos, em 1984, era um pouco mais velho que Paul Atreides. “Duna” me ensinou a exigir muito da ficção científica.

Também me influenciou a história de Frank Herbert, e todo seu esforço para publicar “Duna”. É uma história de amor e apoio, de sua esposa; da curiosidade, visão e persistência de Frank; da coragem empreendedora de seu editor.

Porque “Duna” só fez sucesso anos depois, e faz até hoje? Aí entra o quarto fator. Lançado em 65, o livro prefigura a contracultura que se aproximava, e muitos dos temas explosivos dos anos 60 estão conosco até hoje.

Que loucura, que ambição de Frank criar uma mitologia tão rica e detalhada, e tocando em tantos pontos do que compõe uma sociedade. A fé e a política, a economia e a guerra, o papel da mulher, as drogas, a disputa pelos recursos naturais, a dramática crise climática – até a luta de classes.

Nunca reli todo, mas nas décadas seguintes revisitei trechos. Em um dia particularmente difícil, fui até minha amarelada edição e procurei conforto na Litania Contra O Medo. É mais um ensinamento que tirei de “Duna”: não tema, nunca tema…

“Eu não temerei.

O medo é o assassino da mente.

O medo é a morte pequena

que traz a total obliteração.

Eu enfrentarei meu medo.

Permitirei que ele passe sobre mim

e através de mim.

E quando houver passado

voltarei meu olhar interior

para ver sua trilha.

Para onde o medo se foi,

não haverá nada.

Só eu restarei.”

LEIA

“Duna”, claro! Esta edição é caprichadíssima, com extras, glossário, mapas e introdução de Neil Gaiman.

Aqui tem um relato interessante de temporada de Frank como jornalista em Santa Rosa, California.

E as primeiras 30 páginas do novo lançamento da Conrad, “Terra Australis”, um mistério na Patagônia, por um autor argentino-japonês – muito legal, muito diferente.

Se você curtir, pode já comprar o álbum com desconto aqui.


ASSISTA

“The Haunting of Hill House”, a melhor história de casa mal-assombrada que já vi. Até porque vai muito além da casa e invade a dinâmica familiar pós-traumática. Bem escrito, dirigido, atuado, tudo. Baseado no romance de Shirley Jackson.

Já tem anos, eu que cheguei atrasado, e agora estou indo atrás de tudo que o roteirista-diretor Mike Flanagan fez. No Netflix.


SEMANA QUE VEM

Novas do mundo do trampo. Que anda animado. E novas do mundo das férias. Que o verão tá chegando, e esse verão vai até dar pra passear por aí…

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