Derrota para o Ituano causa demissão de Roberto Fonseca no PSC

Roberto Fonseca, técnico do Paysandu — Foto: Jorge Luís Totti/Ascom Paysandu

Embora a versão oficial dê conta de um acordo para a saída do técnico, o PSC na verdade demitiu Roberto Fonseca nesta segunda-feira (18) em função da má campanha no quadrangular decisivo da Série C. A derrota frente ao Ituano no último sábado foi a gota d’água para uma situação que já era de desconfiança há várias rodadas.

Com planos de alcançar o acesso, o PSC chegou a considerar a demissão do técnico após a goleada para o Ferroviário (5 a 1) ainda na fase de classificação da Série C. As vitórias sobre o Altos-PI e o Manaus nas duas últimas rodadas da fase inicial fez com que Fonseca fosse mantido, até porque o PSC obteve classificação ao quadrangular com uma rodada de antecedência.

O fraco desempenho no quadrangular, dois pontos em três jogos, com dois empates e uma derrota, provocou a decisão da diretoria, que reuniu nesta segunda-feira à tarde para decidir o que fazer em relação à comissão técnica. O presidente Mauricio Ettinger resistia à ideia, mas foi convencido pelos demais integrantes da diretoria.

Roberto Fonseca sai do Papão com aproveitamento de 52,8%. Em 12 partidas, foram cinco vitórias, quatro empates e três derrotas. Com ele no comando, o time marcou 15 gols e sofreu outros 15. Ao longo desse período, o PSC não conseguiu se estabilizar e convencer, mesmo nos jogos como mandante.

O auxiliar técnico permanente Wilton Bezerra vai comandar a equipe no restante da temporada, a começar pelo jogo desta quarta-feira, 20, contra o Penarol-AM, pelas oitavas de final da Copa Verde. Foi ele o responsável pela conquista do título estadual da temporada, à frente da equipe no jogo final contra a Tuna, após a demissão de Itamar Schulle. (Foto: Jorge L. Totti/Ascom PSC)

Entre a cruz e a espada

Paysandu precisa de sequência inédita na Série C do Brasileiro — Foto: John Wesley/Ascom Paysandu

Em função da derrota em Itu, o PSC estaria disposto a dispensar o técnico Roberto Fonseca e apostar numa solução interna, como ocorreu satisfatoriamente no Campeonato Paraense. As situações não são iguais, muito menos as competições disputadas. No Parazão, a troca de comando ocorreu no último jogo. Agora, caso se confirme nova mudança, ainda restarão três jogos, o que amplia o arco de dificuldades.

Uma decisão difícil a essa altura do pagode. A tradição mostra que a opção por técnicos “bombeiros” funciona (quando funciona…) por curto período. O trabalho de Roberto Fonseca é razoável, com aproveitamento melhor que o de seu antecessor, Vinícius Eutrópio, que também era muito contestado.

Como Eutrópio, Fonseca não conseguiu dar estabilidade técnica ao PSC. O time se classificou para o quadrangular decisivo da Série C sem convencer, apresentando um futebol raquítico na maior parte do tempo.

A súbita melhoria no último jogo da etapa classificatória, diante do Manaus, deu a ilusão de que o time caminhava para um processo evolutivo no campeonato. Os jogos contra Criciúma, Botafogo-PB e Ituano dizem justamente o contrário.

Na estreia, em Criciúma, o empate foi obtido com um rígido sistema de marcação e ausência de ambições ofensivas. Como o objetivo era não perder, o empate foi bem recebido. Em Belém, diante do Botafogo, quando a prioridade era vencer, o time reprisou a postura conservadora do primeiro jogo e quase foi derrotado.

Frente ao Ituano, sábado, o PSC foi um combo das atuações nos dois primeiros jogos, embora mais ofensivo nos primeiros minutos. Graças a isso, chegou ao gol, produto de um pênalti que Marlon converteu.

Não durou muito, porém, a postura agressiva. O time ainda festava a vantagem inicial quando sofreu o empate num apagão do centro da defesa. Acabaria permitindo a virada em outro cochilo imperdoável dos zagueiros, que marcaram os atacantes e esqueceram de acompanhar a bola. Gerson Magrão cabeceou e mandou para as redes sem sair do chão.

Mais do que a marcha do placar, é preciso ter em mente o funcionamento tático do PSC. O sistema de marcação é confuso, com Marino e Paulo Roberto atrapalhados quase sempre, o que afeta a atuação dos zagueiros e a cobertura aos laterais. A transição, desta vez com Fazendinha, não se efetivou plenamente, como ocorreu nas duas partidas anteriores.

Um outro problema sério se acentua a cada jogo. Rildo, um dos atacantes mais acionados, tem apresentado um rendimento abaixo do esperado na fase mais aguda da competição. Marlon, que era uma das esperanças do ataque, também produz pouco.

O Ituano ainda marcaria o terceiro gol, após a arbitragem assinalar impedimento e anular gol de Grampola, que aparentemente estava em posição normal no lance. Além dos problemas com o VAR, o time não se mostrou à altura da importância do jogo. Há falhas coletivas sérias, mas não se pode ignorar os muitos problemas de ordem individual.

Fonseca tem responsabilidade na atual situação do time, mas é justo dizer que o baixo rendimento de alguns jogadores também contribui para as atuações ruins. Trocar o comando agora, portanto, pode ser um tiro no pé, a três jogos do fim do campeonato. (Foto: John Wesley/Ascom PSC)

Série B do Parazão começa com artilharia em alta

O estreante Amazônia foi um dos destaques da primeira rodada do torneio de acesso ao Parazão 2021. Derrotou o Paraense por 4 a 1 e lidera seu grupo. O Caeté também disparou goleada de 4 a 1 sobre Capitão Poço e o Izabelense bateu o Santa Rosa por 4 a 0.

Dos times mais experientes, destaque para o Cametá, que estreou com vitória. Sport Belém, derrotado pela Esmac, decepcionou. No total, a rodada inaugural registrou 36 gols em 11 jogos.

Beijinhos de Pikachu e derrapada da turma do apito

De estilo crítico, às vezes ácido, o jornalista Mauro Cezar Pereira é uma das saudáveis exceções ao atual domínio de ex-boleiros e ex-árbitros na crônica esportiva da TV brasileira. Neste fim de semana, ele pegou firme com os famigerados comentaristas de arbitragem.

O motivo foi o lance que envolveu o paraense Yago Pikachu no jogo entre Fortaleza e Chapecoense, pela Séria A. Pikachu tomou um cartão amarelo após mandar beijinhos para a torcida. O ala havia aturado provocações o jogo todo e foi à forra ao marcar o gol da vitória do Tricolor do Pici.

Na internet, Mauro Cezar criticou a decisão do árbitro de campo e não perdoou a Central do Apito da Globo, integrada por ex-árbitros, alguns de trajetória bastante conturbada, como Paulo César de Oliveira e Sandro Meira Ricci.

“Torcida da Chapecoense provocou Yago Pikachu, que bateu o pênalti e fez 2-1 para o Fortaleza. Na comemoração, mandou um beijinho para a torcida rival. Levou cartão amarelo por isso. Que lixo! E qual a opinião da ‘Central do Apito’? ‘Cartão bem aplicado’. Coveiros do futebol!”, resumiu Mauro.

O comentarista observa que provocações debochadas fazem parte da história do futebol brasileiro e citou episódio envolvendo Renato Gaúcho, à época jogador do Flamengo, pedindo silêncio à torcida do Inter com o dedo indicador colado à boca, no Brasileiro de 1987.

Convenhamos, mandar beijinhos ou pedir silêncio é ato absolutamente integrado ao ambiente de jogo e não configura atitude desrespeitosa ou antiesportiva. Pikachu não fez nada além do que já se fez antes. Punição esdrúxula, que expõe a falta de critérios dos apitadores no Brasil.

Aliás, as intervenções da tal Central do Apito já merecem uma atenção maior quanto à interferência nas decisões de árbitros de campo e das cabines do VAR. É cada vez mais visível e preocupante a coincidência entre o veredito dos comentaristas e a decisão dos juízes. 

(Coluna publicada na edição do Bola desta segunda-feira, 18)

A vaidade do Paul McCartney é maior que a franja

Paul McCartney

Por Joaquim Ferreira dos Santos, em O Globo

Será que Lizzie Bravo, a adolescente carioca que em 1968 participou do coro de “Across the Universe”, chegou a ver o documentário “McCartney 3,2,1”? Lizzie morreu dias atrás e o filme, em que Paul conta como surgiram algumas das canções dos Beatles, já estava no streaming (Star+) desde o mês passado. Será que ela viu? Sabia do imenso amor que Paul tinha por si próprio? O cara acha que fez os Beatles sozinho.

É o maior vazamento de ego da história do pop e eu adoraria ter tido tempo de fofocar com Lizzie. Paul diz ter assumido a bateria em “Back in the USSR” por suspeitar que Ringo não conseguiria fazer o ritmo. Na gravação de “Taxman”, ele tentou ensinar George Harrison como deveria ser a guitarra, e levou um “então toca você”. Paul é sincero: “Eles me odiavam”. Quem não?

São seis episódios de 30 minutos e Lizzie perceberia que os dois bicudos, por mais que um deles já esteja morto, continuam sem se beijar. O único elogio a John Lennon é em “All my loving”, por ele manter durante três minutos o dedilhar repetitivo da guitarra de marcação. De resto, Paul ouve seu baixo e a sua voz em “Yesterday” e “Eleanor Rigby”. Aí, sim, demonstra se apreciar sem moderação.  

É uma maldade do destino eu não poder falar com Lizzie a respeito desse espetacular, tirante o “foi tudo feito por mim”, “McCartney 3,2,1”. Em torno de uma mesa de som, ele e o produtor Rick Rubin conversam sobre as Beatles songs. É um filme também sobre o mistério da criação. O trompete piccolo, a cereja orquestral de “Penny Lane”, só está ali porque, na véspera da gravação, Paul – quem mais? – viu um na orquestra que executava na TV um “Concerto de Brandemburgo”. 

A importância de McCartney é fundamental para o brilho das 213 músicas dos Beatles. Eu só não sabia que a vaidade lhe era maior que a franja. George Harrison, coitado!, é reverenciado apenas por ter cedido o solo de “While my guitar gently weeps” a Eric Clapton. “Generoso”, diz Paul. E aí eu gostaria de maldizer com Lizzie: será que nas entrelinhas do comentário há a insinuação sobre o fato de Clapton ter abusado da generosidade do amigo e roubado-lhe a mulher?

Paul admite que aprendeu com Roy Orbison a dar um grande final para as canções, uma nota de tal jeito forte que não restasse outra coisa ao público se não levantar e aplaudir. Aos colegas da banda, nenhum agradecimento. Tudo eu. Olha só essa palheta que usei para realçar a percussão do baixo em “Dear Prudence”. Os olhos de caleidoscópio, que todos botavam na conta de psicodelismo do Lennon, também são meus.

Lizzie ia curtir, e Deus queira que sua extrema-unção tenha sido assistir a esse documentário em que Paul puxa a brasa para o seu fish and chips e anuncia ter estado no comando da coisa toda. As canções são lindas, o mundo seria pior se não existissem, mas agora entende-se a razão de a palavra “vaidade” nunca ter aparecido em qualquer delas. Paul guardava para pulsá-la nesse “McCartney 3,2,1”.

É um pote até aqui de mágoa. Diz que Lennon nunca o elogiou, e aproveita o ensejo para a recíproca. Distribui farpas e salda a dívida. “Here, there and everywhere”, compôs enquanto esperava John, mais uma vez dorminhoco, nem aí para o trabalho. Paul vibra com o próprio talento. Cinquenta anos depois do fim dos Beatles, ele constata, zero de humildade, que, sorry, periferia, não se faz mais Paul McCartney como antigamente.