Tudo começa pelo meio

POR GERSON NOGUEIRA

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O maior achado do PSC na reta final da fase de classificação da Série C é o meia José Aldo. Rápido, habilidoso, atento à marcação e capaz de passes em profundidade – como o que deu origem ao gol de Rildo contra o Manaus –, o jogador tem feito com que o time jogue mais e melhor, valorize a posse da bola e consiga propor ações ofensivas de qualidade.

A estreia foi contra o Altos-PI, na penúltima rodada da primeira fase do campeonato. José Aldo entrou no segundo tempo e deu à equipe uma nova dinâmica no meio-campo. Com ele, os laterais passaram a participar mais do jogo e os atacantes ganharam novas variáveis, além dos previsíveis cruzamentos altos na área.

Não foi uma apresentação portentosa, mas ali ficou claro que não havia cabimento em manter Ruy como titular e José Aldo esquecido no banco. Essa constatação óbvia levou o técnico Roberto Fonseca a escalar o meia diante do Manaus. Foi uma escolha acertada, que resultou em lucro técnico evidente para o time.

Para estreia na segunda fase da Série C, hoje à noite, diante do Criciúma, José Aldo já é um dos pontos de referência do time do PSC. As tramas ofensivas terão que passar necessariamente por ele. O equilíbrio defensivo também vai depender do desempenho que o meia tiver na meia-cancha.

Num primeiro momento pode parecer responsabilidade excessiva nos ombros de um só jogador. Acontece que fazia muito tempo que o PSC não tinha um articulador que cuidasse da saída e da transição. Ficaram famosas as dificuldades contra times modestos, mas de forte marcação.

Derrotas em casa surgiram, muitas vezes, da ausência de um plano de jogo bem organizado, que dispensasse as ligações diretas e os passes alongados. Com um meia de verdade, não apenas um mero portador da camisa 10, a tendência é de uma performance mais estável, sem tantos aperreios bobos.

Na medida em que o meio se ajusta, os demais setores tendem a se estruturar melhor. A defesa é um setor a ser impactado positivamente. Vítima frequente do mau aproveitamento da posse de bola na frente, a linha de zaga ganhará mais tempo para se recompor, sem os transtornos causados pelo bate-volta frequente.

Os laterais Leandro Silva e Diego Matos também começam a lucrar com a organização e as opções que o meio-campo oferece. Acima de tudo, porém, o ataque é o maior beneficiário da arrumação que José Aldo promoveu em duas aparições desde que chegou ao clube. Com Marlon, Danrlei e Rildo, a presença de um meia de recursos tornará a linha ofensiva mais ágil e imprevisível. A conferir.

A importância da base remista na figura de um volante

O que até algum tempo atrás era improvável agora virou uma realidade no Remo. Pingo, volante de bons recursos, precisou esperar três anos para ganhar oportunidades no time principal. Paulo Bonamigo foi o primeiro a abrir espaço para ele. Na sequência, Felipe Conceição também notou a evolução do jovem saído da base remista e passou a contar com ele entre suas opções regulares para substituições ao longo dos jogos.

Ocorre que hoje, sem Anderson Uchoa (lesionado), Pingo se tornou o melhor médio da equipe, pelo passe preciso e a boa marcação. Corrigiu até aqueles surtos de desligamento que prejudicavam suas atuações no passado. É também o jogador que mais se aproxima do estilo contido e eficiente de Uchoa.  

A presença de Pingo valoriza bastante o trabalho de formação que o Remo mantém com a colaboração de abnegados. Faz crer também que, com um mínimo de investimento, o clube teria muito mais a lucrar com as próprias crias. Algumas delas – Ronald, Warley, Davi, Kevem – estão no elenco da Série B, junto com Pingo, e confirmam essa premissa.

Pingo entra eventualmente nos jogos, depois que se recuperou da lesão sofrida contra o Operário-PR. No momento, busca alcançar regularidade, que é desde sempre o maior desafio para jogadores regionais. Sobre eles pesa sempre um olhar severo e crítico. Os técnicos têm desconfiança e o torcedor é sempre impaciente com seus erros.

Entrou muito bem contra o Avaí e botou ordem no caos diante do Sampaio na última quinta-feira ao substituir Lucas Siqueira. No importante confronto com o líder Coritiba, amanhã, caso seja escalado de cara, Pingo tem nova chance de confirmar sua utilidade para o time.  

Bola na Torre

Guilherme Guerreiro comanda o programa, a partir das 22h, na RBATV. Em pauta, os jogos dos times paraenses no Campeonato Brasileiro, com destaque para Criciúma x PSC e Paragominas x Atlético-CE. Participações de Giuseppe Tommaso e deste escriba de Baião. A edição é de Lourdes Cézar.

Direto do blog campeão

“Há jogadores de um tempo só. Lucas Tocantins, no segundo. Victor Andrade, só no primeiro; no segundo, ele faz bobagem. Keven e Jansen na zaga. Marlon, zagueiro, não me passa segurança. Gedoz e Marlon chutam muito forte, em faltas ou em escanteios, sem necessidade. Precisam calibrar”.

Antonio Valentim, escritor e blogueiro

(Coluna publicada no Bola, edição de domingo, 3)

Morre Sebastião Tapajós, um gênio paraense do violão

O violonista Sebastião Tapajós, em 2006 Foto: Camilla Maia / Agência O Globo

O Governo do Pará decretou luto oficial de três dias pela morte do violonista Sebastião Tapajós. A informação foi compartilhada nas redes sociais do governador Helder Barbalho. “Decreto luto oficial de três dias pelo falecimento do nosso eterno violinista, Sebastião Tapajós”, destacou. Mais cedo, Helder já havia publicado no Twitter sobre a morte de Sebastião: “Acabo de receber a triste notícia do falecimento de Sebastião Tapajós. Nascido em Alenquer, foi considerado um dos maiores violonistas do mundo. Meus profundos sentimentos à família e amigos de nosso eterno Tião!”

Nascido no interior de um barco, às proximidades de Alenquer no oeste do Pará, Sebastião iniciou sua trajetória com o violão ainda criança, em Santarém, sendo considerado um dos mais talentosos violonistas do mundo. Aos 78 anos, o músico se recuperava de uma cirurgia, teve alta do hospital da Unimed em Santarém e sofreu um infarto, morrendo no início da noite deste sábado (2). O corpo de Tapajós será velado na Casa de Cultura de Santarém.

CARREIRA BRILHANTE

Consagrado nas casas de espetáculos da Europa, Sebastião lançou uma série de LPs, solos e com grupos e tocou com artistas da MPB como Hermeto Pascoal, Jane Duboc, Waldir Azevedo, Paulo Moura, Sivuca e Maurício Einhorn. Entre os astros internacionais com quem se apresentou estão o saxofonistas Gerry Mulligan e Paquito D’Rivera, o bandoneonista e mestre do tango Astor Piazzolla e o pianista Oscar Peterson.

Sebastião Pena Marcião nasceu em Alenquer, em 16 de abril de 1943. Aprendeu violão com o pai e começou a tocar profissionalmente aos 10 anos de idade no conjunto de baile Os Mocorongos. Depois de estudar música em Belém, Rio de Janeiro e Lisboa (onde formou-se pelo Conservatório Nacional de Música), ele se fixou no Rio, começou a se aprofundar na música folclórica brasileira e lançou seu primeiro LP solo “Violão e Tapajós”, lançado pela Philips.

Em 1971, Sebastião Tapajós realizou, junto com Paulinho da Viola e Maria Bethânia, uma turnê pela Europa que depois virou LP (“Nova bossa nova”, de 1972). Enquanto se apresentava pelos palcos do mundo, lançava LPs como “Guitarra Fantástica” (1974, que levou o prêmio do Disco Estrangeiro Mais Vendido no Ano pela RCA da Alemanha), “Guitarra Latina” (1975), “Terra” (1976), “Clássicos da América do Sul” (1977), “Guitarra & amigos” (1977) e “Xingu” (1979).

Em 1979, o violonista começou a levar músicos brasileiros para tocar com ele no exterior, como o gaitista Maurício Einhorn, Joel do Bandolim, os percussionistas Pedro Sorongo e Djama Correia, além do Zimbo Trio, que atuou em turnês de Sebastião ao longo de dois anos.

Em 1999, ele deixou sua base no Rio de Janeiro e voltou a morar em Santarém, 40 anos depois de sair da região oeste paraense. Consagrado no Brasil e principalmente no exterior, tendo lançado 67 LP’s, o instrumentista realizava um sonho acalentado durante décadas, que era o de voltar à região onde nasceu.

Sempre ligado à cultura e aos sons da Amazônia, o violonista realizou, entre 1998 e 2001, uma série de estudos dos ritmos da região, que resultou em quatro CDs independentes: “Encontro com a saudade”, “Instrumental caboclo” (trilha sonora do filme “Lendas amazônicas”), “Solos da Amazônia” e “Solos do Brasil”, esse último em parceria com Hermeto Pascoal e Gilson Peranzzetta.

No Twitter, o escritor Luiz Antônio Simas prestou seu tributo ao músico: “Sebastião Tapajós partiu. Um gênio da música brasileira, com seu violão amazônico de espantosa beleza. Aqui vai uma de suas composições que mais me comovem: ‘Navio gaiola’, com o próprio Tapajós e Nilson Chaves. Esse álbum todo, aliás, é lindo”.