A Operação Uruguai de Bolsonaro

Por Andrei Meireles – em Os Divergentes

É impressionante a fragilidade dos golpes quando eles são desvendados. Até parece óbvio um esquema de roubalheira no Ministério da Saúde, que começou antes, mas foi mantido pelo atual governo, a um custo incalculável em vidas e nos bolsos dos contribuintes. A corrida atrás do próprio rabo pelo governo Bolsonaro, além de ridícula, pode ser enquadrada em uma penca de crimes.

As revelações ao ministério público e à CPI da Covid pelos irmãos Miranda – Luís Ricardo, até aqui um servidor público exemplar, e o controvertido deputado Luís Miranda — sobre a denúncia que fizeram ao presidente Jair Bolsonaro de que estava rolando no Ministério da Saúde uma tramoia bilionária tirou dos inquilinos do Palácio do Planalto o saideiro restinho de uma narrativa desastrada e trágica.

Perto dela, até a famosa Operação Uruguai — derradeira tentativa de Fernando Collor para se livrar do impeachment — com um suposto empréstimo do exterior para justificar inexplicáveis rendimentos e seu de padrão de vida, desmascarado pela CPI de então, foi menos amadora. Caiu por terra  com a revelação da fraude pela secretária Sandra Fernandes de Oliveira, que trabalhava em uma empresa privada que participou da armação. Os depoimentos dela e o do motorista Eriberto França foram decisivos para a queda de Collor.

Aquela tentativa mal sucedida pelo menos teve algum planejamento. No escândalo sobre a compra da vacina Covaxin nem isso teve. É uma sucessão de improvisos que só reforçam a amadora montagem de um enredo sem qualquer sustentação na realidade. Um grotesco espetáculo no Palácio do Planalto desencadeou uma sequência de erros. Com a pompa, a  circunstância e a arrogância de sempre, antes mesmos dos depoimentos dos Miranda na CPI, Bolsonaro tentou desacreditá-los escalando o ministro Onix Lorenzoni e o coronel Élcio Franco para um pronunciamento no Palácio do Planalto.

Com ameaças e olhos marejados, a dupla palaciana tentou intimidar os irmãos Miranda. Virou piada antes mesmo do fracasso desse teatrinho que fracassou com as avassaladoras revelações dos Miranda na CPI da Pandemia.  Afirmaram que o servidor Luís Ricardo Miranda — chefe do departamento de importação de insumos e vacinas do Ministério da Saúde, que estava nos Estados Unidos organizando a vinda das vacinas Jansen doadas pelo governo americano — fraudara uma fatura para prejudicar o governo. Mais: anunciaram que Jair Bolsonaro estava mandando a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União investigar a fraude.

A tal fatura, que previa aberrações como um pagamento antecipado de R$ 222,6 milhões a uma empresa de fachada em Cingapura, é autêntica e está no processo de compra no Ministério da Saúde. O pior é que o governo até hoje não consegue explicar mais nada. Onix saiu de cena. Élcio Franco não consegue sair dela.

Por sua vez, Bolsonaro repete o comportamento de sempre quando está com medo. Até agora não deu um pio sobre a conversa com os irmãos Miranda — trai o medo de que tenha sido gravada. Seu governo segue criando versões cada vez mais inverossímeis. A última é que o general Eduardo Pazuello, mesmo depois de limpar suas gavetas no Ministério da Saúde, em seu último dia de aviso prévio, foi acionado por Bolsonaro e repassou ao tal coronel Élcio Franco — demitido dias depois —  a tarefa de investigar se houve ilegalidades e/ou corrupção na inusitada negociação para a compra da Covaxin.

Pazuello deu a esfarrapada desculpa de que nada contou ao ministro Marcelo Queiroga porque a apuração não encontrou nenhum problema no negócio. A CPI da Covid vai deitar e rolar nessas versões muito mal ajambradas que não resistem a nenhuma lógica.

Enquanto isso, Bolsonaro delira. Na madrugada da terça-feira (29), ele divulgou um vídeo no facebook em que disse: “Me acusam de corrupção virtual. Não recebemos uma ampola da vacina, não paguei um centavo, e estão me acusando de corrupção”. Horas antes, produziu outra pérola. “Eu nem sabia como é que estava a tratativa da Covaxin, porque são 22 ministérios… Não tenho como saber o que acontece nos ministérios”.

Mais uma farsa. O dinheiro só não saiu dos cofres públicos porque precisava da assinatura do Luís Ricardo, que, mesmo sob pressão de seus superiores, se negou a assinar. Na conversa com Bolsonaro, no Palácio da Alvorada, ele deu nomes aos bois. Todos subordinados ao coronel Élcio Franco.

Um deles, o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias — apadrinhado do deputado Ricardo Barros – foi demitido na noite dessa terça-feira, após nova acusação. Vale lembrar que ele foi indicado por Bolsonaro, em outubro de 2020, para uma diretoria da Anvisa.

De nada adiantou o anúncio da suspensão do contrato para a compra da Covaxin. Em entrevista à Folha de São Paulo, o empresário Luiz Paulo Dominguetti, contou nessa terça-feira, com todos os detalhes que, em um restaurante em Brasília, Roberto Dias e outras duas pessoas — um deles militar — teriam condicionado a aprovação de sua proposta de venda de 400 milhões de doses da AstraZeneca a uma propina de U$ 1 por cada uma delas. “O caminho do que aconteceu nesses bastidores com o Roberto Dias foi uma coisa muito tenebrosa”. Dominguetti vai depor na CPI.

Tem mais. Em entrevista a O Antagonista, o deputado Luís Miranda, que vai soltando acusações em pílulas, denunciou as tentativas de Ricardo Barros e do lobista Silvio Assis de convencê-lo a não revelar as maracutaias no Ministério da Saúde. A porteira foi aberta e pode passar uma boiada de negócios no mínimo esquisitos por ela.

A conferir.

Paulo Bonamigo não é mais técnico do Remo; Netão assume interinamente

Paulo Bonamigo

POR GERSON NOGUEIRA

O técnico Paulo Bonamigo não dirige mais o Remo na Série B. A saída foi definida na manhã desta quarta-feira, 30. A Diretoria deve se pronunciar em instantes. O técnico reuniu longamente com os dirigentes após o jogo com o Sampaio Corrêa e colocou o cargo à disposição, em função do desgaste pelos maus resultados nas partidas realizadas em Belém. Inicialmente, a diretoria não aceitou, mas na manhã de hoje o técnico insistiu com o pedido de rescisão e o clube optou por concordar. O auxiliar Netão vai dirigir o time na sexta contra o Coritiba.

Como o técnico pediu rescisão, o Remo não fica prejudicado para a contratação de novo treinador. Ainda poderá ter dois técnicos, caso necessário, no decorrer do Brasileiro. Pela nova regra criada neste ano, os clubes só podem fazer uma demissão/substituição.

A incômoda sequência de cinco jogos sem vitória e o ingresso na zona do rebaixamento corroeram de vez o prestígio de Bonamigo no Evandro Almeida. Ele chegou em setembro do ano passado, substituindo a Mazola Junior, na campanha da Série C. Com um trabalho inovador em muitos aspectos, levou o Remo à sonhada conquista do acesso, sob aplausos da exigente torcida remista.

Começou a receber críticas, injustas, pela perda do título da Série C contra o Vila Nova, quando o Remo perdeu 11 jogadores para os jogos finais em função de um surto de covid no elenco – causado pela presença dos atletas na comemoração da torcida pelo acesso. Em seguida, o Remo fez boa campanha na Copa Verde 2020, mas acabou derrotado na final pelo Brasiliense, gerando críticas da torcida.

Veio o Parazão e Bonamigo não conseguiu levar o time à conquista do esperado título. Favorito desde as primeiras rodadas, o Remo acabou derrotado pela Tuna nas semifinais, ocasionando mais pressão sobre o treinador. A má campanha na Série B foi a gota d’água.

Sem vários titulares (Marlon, Wellington Silva, Rafael Jansen, Lucas Tocantins) e com contratações que não vingaram (Renan Oliveira, Vinícius Kiss, Rafinha, Renan Gorne, Edson Cariús), o time teve que enfrentar uma maratona de um jogo a cada 72 horas, sucumbindo tanto no aspecto físico quanto técnico.

Leão repete erros, perde em casa e permanece no Z4

POR GERSON NOGUEIRA

O placar de 2 a 0 foi rigoroso demais com o equilíbrio que predominou na partida. O Remo foi melhor no primeiro tempo e era o time que mais buscava o gol na etapa final. Aos 30 minutos do segundo tempo, a casa azulina começou a cair, com o pênalti assinalado pelo árbitro piauiense Diego Castro. Ele viu ação faltosa de Kevem sobre o centroavante Jefinho na lateral da área. O zagueiro pressionou, mas não com força suficiente para derrubar o atacante, que caiu e cavou a penalidade.

O resultado deixa o Remo em situação difícil na classificação, em 17º lugar, com 7 pontos. O Sampaio Corrêa consolidou o bom posicionamento, chegando a 15 pontos, ocupando a terceira posição. Depois da partida, o técnico Paulo Bonamigo solicitou uma reunião com a diretoria, que foi iniciada nos próprios vestiários do Baenão. Apesar da expectativa de mudança no comando, o treinador foi mantido.

Pressionado pela necessidade de deixar a zona do rebaixamento, o time azulino iniciou o jogo atacando pelos lados e explorando principalmente os espaços permitidos pelo Sampaio no lado direito de sua defesa. Por lá, Igor Fernandes manobrou com relativa facilidade, mas sem obter bom aproveitamento.

Felipe Gedoz e Erick Flores arriscaram chutes, sem acertar o gol de Mota. Dioguinho foi bastante acionado, mas seus esforços não resultaram em situações de perigo. Do lado maranhense, Jean Silva era o destaque. Em jogadas rápidas pela esquerda, ele criou os melhores momentos do Sampaio. Numa arrancada junto à área, bateu rasteiro e quase abriu o placar.

Para a etapa final, o Remo voltou com Rafinha em substituição a Anderson Uchoa. A mexida surpreendeu porque causou uma alteração radical na maneira de atuar do time. Erick recuou para a função de volante ao lado de Lucas Siqueira e Rafinha foi jogar na esquerda, fazendo retornar o sistema 4-3-3. Dioguinho continuava a ser o atacante mais produtivo, partindo sempre para tentar vencer a marcação.

O Remo era melhor mas não encontrava jeito de acertar o gol. O mais próximo disso foi aos 27 minutos, quando Edson Cariús recebeu cruzamento à meia altura e errou o arremate, mandando a bola por cima do gol. Logo em seguida, veio o lance fatal da penalidade, que desarvorou por completo o Remo.

Já com Wallace no lugar de Dioguinho, mas caindo pela esquerda, o time se aproximava da área, mas não finalizava. Insistia com a bola aérea, mas sem efetividade. Nenhum chute foi dado em direção ao gol. Todas as tentativas passavam à frente de Mota ou ao lado da trave.

Numa das tentativas desesperadas do Remo, já aos 45′, a zaga do Sampaio rebateu e Ferreira iniciou um contra-ataque letal. A bola foi tocada para Romarinho pela direita e ele arrancou até a área para chutar na saída de Vinícius. O gol fechou o marcador. A vitória timbira foi construída em cima dos erros remistas, principalmente pela falta de criação no meio e ineficiência no ataque.

Na sexta-feira, o Remo vai a Curitiba enfrentar o Coritiba pela 9ª rodada.