Sobre o “aniversário” de Santarém

Por Anselmo Alencar Collares (*)

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Desde o ano de 1981 o dia 22 de junho é dia de celebrar aniversário de Santarém. A data foi oficializada pela Lei Municipal de número 9.270. Razão pela qual as mensagens comemorativas deste 22 de junho de 2021 trazem a informação: 360 anos.

Mas, há controvérsias. Afinal, quando o padre jesuíta João Felipe Bettendorff aqui chegou, designado por seus superiores para fundar uma missão religiosa, no contexto da colonização portuguesa, já se deparou com uma numerosa população, com uma forma de organização social, mesmo que incipiente para o também incipiente padrão de civilidade da época, mas que não pode ser desprezada.

Antes dele, há registro do que teria sido o primeiro contato entre povos europeus (colonizador) com os nativos Tupaius ou Tapajó), em 1542. Me refiro a expedição comandada pelo espanhol Francisco Orellana. E pouco depois, em 1626, a Tropa de Resgate chefiada pelo português Pedro Teixeira.

Afinal, a que se refere esta contagem de 360 anos? Dizer que a cidade “faz aniversário” em 22 de junho é um equívoco, pois a missão religiosa fundada por Bettendorff passou a ser Vila em 14 de março 1758 e, dado o crescimento, foi elevada à categoria de cidade em 24 de outubro de 1848.

O nome Santarém, replicando o de uma cidade de Portugal, foi uma das imposições do “pacote” de medidas conhecido por Diretório, do poderoso primeiro ministro Marques de Pombal, e executado no Grão Pará por Francisco Xavier de Mendonça Furtado, visando reforçar a colonização. O neengatu – “fala boa”, língua geral ou tupi jesuítico – foi proibido e a língua portuguesa consolidou a dominação. Outras cidades e vilas também tiveram seus nomes trocados, no projeto destinado a apagar vestígios dos legítimos donos e para que a história escrita se consolidasse conforme os propósitos dominantes.

Hoje já dispomos de estudos antropológicos, geológicos, arqueológicos, históricos, e de outras ciências correlatas, que nos permitem afirmar que a mais de mil anos havia nessa área geográfica que Santarém ocupa, uma “cidade” (enquanto local densamente povoado e com uma estrutura organizacional); além disso, há indicações de presença humana há mais de 11 mil anos.

A partir do conceito de história escrita, oficial, temos o 24 de outubro, como data do aniversário da cidade. É quando a vila foi elevada a categoria de cidade. Posteriormente foi alterado para 22 de junho (Lei Municipal nº 9.270, de 02 de julho de 1981). Desde então Santarém ficou mais velha (se consideremos a cidade) ou mais velho (se nos referirmos ao município).

E muito, muito mais idade teria se pudéssemos saber das origens mais remotas, quando nestas terras se fixaram os Tapajó e/ou outras etnias indígenas. Mas não seria coerente dizer Santarém. Nem sequer Tapajós. Teríamos que saber como os que habitavam estas terras a chamavam.

A meu ver, o mais esdrúxulo é dizer que a cidade de Santarém completa hoje 360 anos, uma vez que só passou a ser cidade em 1848. Sendo 360 anos da chegada de Bettendorff, celebramos a ocupação do espaço pelo colonizador português (processo no qual Estado e Igreja – católica – estavam aliados aos interesses da empreitada), nos quadros do sistema colonial e da expansão comercial que alimentou o desenvolvimento do modo de produção capitalista.

Então, pode perguntar o leitor: Qual o certo? O que mesmo estamos comemorando? Lanço o convite para que pensem a respeito. De todo modo, polêmicas à parte, vamos celebrar. Mas sem a ingenuidade ou a intencionalidade de apagar a memória dos povos que nos precederam.

Considerando que: temos presença humana entre nós há mais de 10 mil anos; em 1661 foi fundada a Missão Jesuítica; em 1758 passou a ser vila, e em 1848 foi elevada a Cidade; e considerando que em meio a tantos marcos a Lei estabeleceu o 22 de junho, permanece a polêmica e prevalece a convenção. Como em tantos outros casos similares – conta o poder impositivo de quem teve maior prestigio ou melhor se documentou. No nosso caso, para fazer a defesa do 22 de junho, encerrando o ciclo de festejos que ocorria em 24 de outubro.

Difícil contestar a Lei e a autoridade moral das pessoas que fizeram a mudança. Eu particularmente penso que o problema maior tem sido o esquecimento das outras datas, especialmente o 24 de outubro, como se o 22 de junho fosse suficiente para demarcar a nossa história. Tão importante quanto a fundação da aldeia, foi a passagem para vila e para a categoria de cidade.

O 22 de junho é um marco religioso, o 24 de outubro é político, os demais, podem ter mais expressividade histórica, todavia, ainda lhes faltam maior precisão. Penso que todos os marcos merecem ser lembrados e problematizados. Não nos faltam datas para celebrar – ou contestar!

Pena que muitas vezes o(a) aniversariante fica fora da festa, tal como o Cristo no natal. São muitas as manifestações de amor por essa terra de belezas naturais extraordinárias. Declarações de amor, inclusive, de quem a maltrata. Infelizmente como ocorre entre pessoas. Mas que amor é esse, afinal? Uma vez que amar envolve cuidar, respeitar, valorizar. Amar Santarém, assim como amar uma pessoa, não pode ser apenas verso de música ou poesia. Precisa ser de verdade. E todos os dias. O amor que declaramos a Santarém é importante, necessário, e precisa ser verdadeiro e amplo. De quem reconhece esta terra como mãe ou quem se vê por ela adotado(a).

Assim, independentemente da idade, de qual seja a data de referência para a festa ou para relembrar um episódio histórico, que o amor e o cuidado seja permanente. Penso que seja a melhor forma de celebrar a história que passou e preparar a história que virá. E no agora, dar o melhor presente.

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(*) Professor titular da Ufopa, doutor em Filosofia e História da Educação.

(texto escrito em 22 de junho de 2021.

Duro desafio para o Leão

POR GERSON NOGUEIRA

Kevem e Romércio devem fazer dupla de zaga do Remo contra o Avaí — Foto: Sandro Galtran/Ascom Remo

Missões das mais difíceis terá o Remo hoje à noite, no Baenão, contra o Guarani de Campinas. Com oito pontos, o time treinado por Daniel Paulista ocupa a quinta colocação na classificação da Série B e está em ascensão técnica dentro da competição, inflado pela vitória no clássico contra a Ponte Preta no fim de semana.

Jogar em casa tem sido um problema para muita gente na Série B. A dificuldade de se impor ao adversário acaba por prevalecer e termina por atrapalhar os planos de equipes que não conseguem mostrar qualidade no meio-campo para vencer a marcação adversária.

O Remo provou o lado amargo disso na última apresentação em casa, contra o Vitória, quando passou 90 minutos tentando se desviar das amarras criativas e ao mesmo tempo enfrentar os blocos de marcação impostos pelo visitante.

É quase certo que o confronto pode representar uma repetição desse cenário, o que não é boa notícia para Bonamigo e seus comandados. O Guarani fora de casa não costuma jogar com o mesmo ímpeto mostrado no derby campineiro. É um time que aposta no contra-ataque, puxado quase sempre por Davó, e em bolas esticadas para o atacante Régis.

Conquistou duas vitórias, razão de estar à frente do Remo, mas é uma equipe em construção, com reforços contratados para o Brasileiro. Não pode ser visto como superior ao Leão, mas merece atenção.

Depois do adiamento do jogo contra o Avaí, a escalação azulina deve ser mantida, com as entradas de Kevem substituindo a Rafael Jansen na defesa, Rafinha ocupando a meiúca e Vinícius Kiss na vaga de Uchoa, suspenso.

Nenhuma surpresa em relação à escolha de Rafinha para cuidar da organização no meio e da transição ofensiva. Nos últimos três jogos, antes da partida com o Vitória, o titular Felipe Gedoz deu sinais de desgaste e queda de rendimento técnico.

A mudança na formação do meio-campo contra o rubro-negro baiano não foi plenamente satisfatória, mas mostrou Rafinha tomando iniciativas que Gedoz não vem cumprido. O posicionamento junto aos volantes e as tentativas de auxiliar o ataque foram pontos positivos de sua atuação.

Não funcionou bem como finalizador, errando arremates seguidos e até cruzamentos, mas a insistência de Bonamigo com ele indica a confiança do treinador e as carências que o Remo tem para compor a meia-cancha com qualidade. Os alertas quanto a isso foram dados ainda no Parazão, quando o técnico insistia inutilmente com Renan Oliveira.

Perdeu-se um tempo precioso na busca por um substituto eventual de Gedoz. A importância da posição praticamente inviabiliza experiências e improvisações. Raramente dão certo.

Rafinha é uma alternativa de momento, em meio ao desgaste natural de um time que se encontra no meio de uma maratona de jogos, mas talvez não seja suficiente para sustentar as necessidades da equipe no campeonato. (Foto: Sandro Galtran/Ascom Remo)

Números da covid só não impressionam a Conmebol

A coluna atualiza os números da covid-19 no ambiente da malsinada Copa América no Brasil. A Conmebol confirmou oficialmente 140 casos registrados durante a realização do torneio. Em uma nota divulgada ontem, a entidade usa o caminho diversionista, bem ao gosto do Ministério da Saúde, de destacar os casos negativados (99%) da doença.

Segundo a Conmebol, a maioria dos infectados é de operários e trabalhadores terceirizados. O quadro, considerado sob controle pela confederação, representa o acerto dos críticos da realização do torneio no Brasil, responsável por um terço das mortes por covid no mundo no último sábado e acima da marca de 500 mil óbitos.

A teimosia criminosa em realizar o torneio no país não vem encontrando compensação dentro de campo. Jogos fracos, de pouca emoção e equilíbrio, têm rendido audiência televisiva abaixo do esperado. A coincidência com a Euro-2021 também não ajuda, pois diariamente as partidas europeias expõem o abismo técnico entre os continentes.

Castanhal imita Papão e investe no sub-35

De surpresa, o Castanhal anunciou ontem a contratação do volante Willians, que brilhou no Flamengo em 2009, elogiado pelo estilo pitbull de marcação e a raça que demonstrava nos jogos. Para um time que já conta com os veteranos Ricardo Capanema e Paulo Rangel, a opção por Willians é uma aposta de risco.

O jogador, de 35 anos, estava no desconhecido Nova Mutum, do Mato Grosso do Sul. Não se tem notícia do desempenho de Willians por lá, mas é improvável que ainda mostre pelo menos lampejos do futebol que o consagrou no Flamengo.

Depois de surgir com sucesso, ele trocou o Fla pela Udinese da Itália, defendeu o Internacional, rodou por alguns clubes menores e acabou indo parar no Nova Mutum. Chega como reforço do Japiim para a disputa da Série D do Campeonato Brasileiro.

De qualquer forma, o Castanhal não passa longe da tendência mais recente do futebol no Pará. O PSC acaba de anunciar dois volantes na mesma faixa de idade, Paulo Roberto (que já estreou) e Marino.

Chama atenção, ainda, a repentina preferência por atletas dessa faixa etária para ocupar uma posição que exige muita força e resistência.

(Coluna publicada na edição do Bola desta terça-feira, 22)